Guilherme Casarões Profile picture
📝 Cientista político 🗣️ Política externa/movimentos de extrema direita (coord @oedbrasil) 💿 Música anos 80 ❤️ Pai de 2 🤫 Opiniões pessoais

Aug 23, 2019, 39 tweets

A INTERNACIONALIZAÇÃO DA AMAZÔNIA

Uma thread sobre ambições internacionais, geopolítica e fake news

1. Os rumores sobre a cobiça internacional sobre a Amazônia não são novos. Dado o inegável valor estratégico, ecológico e econômico da região amazônica, o imaginário coletivo sempre foi povoado por acusações de sabotagem, espionagem, pirataria e imperialismo estrangeiros.

2. É possível que a 1a história sobre esses temores seja de 1689, quando um jesuíta alemão, Samuel Fritz, foi impedido pelos portugueses de retornar à tribo Yurimágua, no Alto Solimões, por acusações de espionagem. Só conseguiu voltar, tempos depois, acompanhado por tropas lusas.

3. Ao longo do século 18, a vulnerabilidade das fronteiras amazônicas levou 🇵🇹 a transformar a demografia local, abolindo a escravidão indígena (1755), transformando vilas religiosas em cidades civis e encorajando a miscigenação entre brancos e indígenas na região.

4. Após a independência, a defesa do território amazônico tornou-se 1 dos elementos + sensíveis do emergente nacionalismo brasileiro.

Mas as preocupações se deslocaram da Europa para os 🇺🇸: no auge do expansionismo norte-americano, a Amazônia tornou-se objeto de desejo ianque.

5. Inspirado pelo destino manifesto, Matthew Maury, tenente da Marinha 🇺🇸, defendeu a invasão da Amazônia como forma de resolver os problemas sociais dos estados sulistas frente à pressão abolicionista. A floresta seria, na visão dele, uma extensão natural do vale do Mississippi.

6. Alguns escritos de Maury foram publicados no Correio Mercantil em 1853 e geraram imediata reação. Teixeira de Macedo, diplomata e ministro, fez dura crítica à arrogância anglo-americana, "convencidos de que devem regenerar todo o mundo e governar a partir de sua influência"

7. O desejo de transformar o 🇧🇷 numa potência levou Getúlio Vargas a propor uma marcha p/o oeste. Em discurso na Biblioteca Nacional de Manaus, em 1940, falou em "destino brasileiro do Amazonas", cuja tarefa era desbravar, conquistar e dominar aquele "espaço imenso e despovoado".

8. Segundo Vargas, "a mais alta tarefa do homem civilizado é conquistar e dominar os vales das grandes torrentes equatoriais, transformando a sua força cega e a sua fertilidade extraordinária em energia disciplinada. O Amazonas tornar-se-á um capítulo da história da civilização"

9. Com o fim da 2a Guerra e a criação da ONU, surge uma das + polêmicas propostas sobre a Amazônia.

O cientista Paulo Berraldo Carneiro, buscando desenvolver a pesquisa no país, sugere a criação do Instituto Internacional da Hileia Amazônica (IIHA), encampado pela UNESCO em 1947

10. Após várias rodadas de negociações, o IIHA foi estabelecido pela Convenção de Iquitos, de 1948. O presidente Dutra, interessado em valorizar a Amazônia, recomendou ao Congresso que se aprovasse o projeto. Ele só não esperava que alguns parlamentares denunciassem a proposta.

11. O + vocal opositor do IIHA era o ex-presidente Artur Bernardes, deputado por MG. No embalo da campanha nacionalista "O Petróleo é Nosso", Bernardes atacou a proposta, que considerava uma forma velada de "internacionalização da Amazônia" pelas potências, com anuência da UNESCO

12. O nacionalismo de Bernardes contagiou o Congresso, de modo que o projeto do IIHA não chegou a ser votado.

Em discurso, o deputado falava do risco de se lotear a Amazônia "em zonas coloniais p/um condomínio de nações", sendo o fim humilhante da soberania brasileira.

13. A ideia de integração nacional, contudo, só irá se materializar alguns anos mais tarde, em 1966, quando militares e empresários sinalizaram a transição da "Amazônia dos rios" para a "Amazônia das estradas".

14. Conhecido como "Operação Amazônia", o sistema de colonização da região envolveu empreendimentos rurais e empresariais, articulados pelo regime por meio de órgãos como SUDAM, SUFRAMA, INCRA e Banco da Amazônia (BASA).

O lema dos militares era "ocupar para não entregar".

15. Ao mesmo tempo, o 🇧🇷 mantinha uma postura defensiva com relação ao debate ecológico. Na Conferência de Estocolmo de 1972, antecessora direta da Rio-92, o Brasil culpava os ricos pela poluição e insistia que preservação ambiental era incompatível c/ desenvolvimento soberano.

16. A redemocratização do 🇧🇷 coincidiu c/a "segunda onda do meio ambiente", marcada pela publicação do relatório Our Common Future (1987), que introduziu o conceito de desenvolvimento sustentável. No ano seguinte, foi criado o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas.

17. Se os militares conseguiram evitar embates ambientais, o governo Sarney tornou-se alvo de críticas internacionais. Em 1988, matéria do @nytimes alegava que as queimadas na Amazônia poderiam estar causando o aquecimento global - e o 🇧🇷 seria o culpado

nytimes.com/1988/08/12/wor…

18. A resposta do 🇧🇷 foi imediata. A CF-88 dedicou o Art. 255 ao meio ambiente, de autoria de @fabio_feldmann. No mesmo mês, Sarney lançou o Programa Nossa Natureza, que integrava 7 ministérios, reitrava incentivos fiscais de projetos agropecuários na floresta e criava o IBAMA.

19. Também em 1988, partiu do @ItamaratyGovBr a ideia de oferecer o Brasil como sede para a realização da Conferência Ambiental que daria sequência a Estocolmo, 4 anos mais tarde.

A ideia brasileira era melhorar a credibilidade do país, cuja imagem estava desgastada no exterior.

20. Mas ninguém esperava q, na véspera do Natal de 1988, o ambientalista Chico Mendes fosse brutalmente assassinado. Ele era criticado por fazendeiros por "atrapalhar o progresso". Ameaçado de morte, chegou a fazer denúncia em entrevista ao @JornaldoBrasil, que não foi publicada.

21. O assassinato de Chico teve enorme repercussão internacional. Os olhos do mundo se voltaram para a Amazônia. Em 1989, @PaulMcCartney gravou música em homenagem ao seringueiro. No mesmo ano, @OfficialSting saiu em turnê c/o Cacique Raoni, chamando atenção p/a questão indígena.

22. No início de 1989, uma delegação parlamentar dos 🇺🇸 veio ao país e reuniu-se c/Sarney. O jovem senador @algore, que seria eleito vice 3 anos depois, declarou à imprensa: "ao contrário do que creem os brasileiros, a Amazônia não é sua propriedade, ela pertence a todos nós"

23. Meses + tarde, os 🇫🇷 @mrocard e @fmitterrand defenderam variações dessa mesma ideia numa Conferência Ambiental.

A diplomatas brasileiros, Rocard disse que o 🇧🇷 não era capaz de cuidar da Amazônia. Mitterrand sugeriu que nós abríssemos mão da soberania em questões ambientais.

24. O que estava na mesa era um conceito novo, o "direito de ingerência".

Criada pelo jurista francês Bernard Kouchner, a doutrina desafiava a ideia de soberania em casos de crise humanitária - e agora estava sendo estendida a casos de "massacres ambientais"

25. O risco de uma intervenção internacional para "roubar" a Amazônia passou a povoar os pesadelos dos nacionalistas, à direita ou à esquerda.

O caricato Enéas Carneiro, eterno candidato à presidência e deputado, contribuiu para disseminar a narrativa.

26. Em 1998, o deputado Bernardo Cabral fez um discurso alarmista na Câmara, em que se referiu à obra do Gal. Rubens Bayma Denis sobre a Amazônia p/denunciar uma possível ingerência dos 🇺🇸 na região. Chama atenção p/memorando de 1817, "Desmobilization (!) of the Colony of Brazil"

27. Esse memorando teria sido escrito por um certo Capitão da Marinha dos 🇺🇸, Mathew Fawry, e revelava planos norte-americanos p/dividir o 🇧🇷 e estabelecer 1 "Estado Soberano da Amazônia".

É da 1a fake news de grande escala sobre o tema, c/vaga relação com a realidade histórica

28. Em 2000, o Comandante Militar da Amazônia, Luis Gonzaga Lessa, previu que intervenções militares p/proteger o meio ambiente seriam a "tendência da nova década". Os interesses estrangeiros, por meio de ONGs ambientalistas/humanitárias, seria pelos bens do subsolo e da floresta

29. Naquele mesmo ano, a 2a fake news, ainda mais poderosa: os livros didáticos nos 🇺🇸 já estariam colocando a Amazônia como território internacional.

Apesar da falsificação tosca, a imagem circulou amplamente, tendo sido compartilhada, inclusive, pelo @Estadao e pela @SBPCnet

30. Em meio aos boatos, o ex-governador do DF, @Sen_Cristovam, publicou 1 reflexão sobre a internacionalização da Amazônia. Que internacionalizemos o petróleo, museus e as armas nucleares do mundo! Só que o texto acabou amplificando ainda + a narrativa.

theglobalist.com/i-have-a-dream/

@Sen_Cristovam 31. Numa época em que a internet era bastante limitada (tanto para disseminar quanto para combater as fake news), um dos maiores caçadores de mitos sobre a internacionalização da Amazônia foi @PauloAlmeida53, que servia na embaixada do 🇧🇷 em Washington

diplomatizzando.blogspot.com/2016/08/amazon…

32. Por + que se tentasse combater o mito da internacionalização, os temores da ingerência, ampliados pelo comportamento unilateral de George W. Bush no pós-11 de setembro, fizeram com que o chanceler Luiz Felipe Lampreia fosse chamado para prestar explicações ao Congresso.

33. O interessante dessa narrativa conspiratória é que, apesar de ter suas origens no discurso militar, ela se popularizou rapidamente entre a esquerda antineoliberal.

Para o antropólogo Sean Mitchell, isso tem a ver c/ a combinação de nacionalismo antiamericano e internet.

34. A história da internacionalização ressurge a cada par de anos. Em 2006, p.ex., o Secretário do Meio Ambiente do Reino Unido, @DMiliband, cogitou a privatização da floresta amazônica como forma de preservá-la. Foi o bastante para atiçar os nacionalistas reporterbrasil.org.br/2006/10/intern…

@DMiliband 35. Às vezes a culpa não é dos estrangeiros, mas do próprio governo. A demissão de @MarinaSilva do @mmeioambiente, em 2008, após ameaças de lobbies privados, causou furor. A matéria de @alexeiscribe p/o @nytimes sobre o tema reacendeu o debate no 🇧🇷 e no🌎
nytimes.com/2008/05/18/wee…

36. De todo modo, a atitude correta de qualquer governo é repetir o óbvio: a Amazônia é brasileira e não está à venda. Qualquer interesse estrangeiro que coloque em risco a soberania do 🇧🇷 não pode ser tolerado.
tribunapr.com.br/noticias/brasi…

37. O problema é quando isso vira carta branca para o governo, em nome da soberania sobre a Amazônia, perseguir ambientalistas, flexibilizar leis ambientais ou incentivar o desmatamento para atender a interesses econômicos.

exame.abril.com.br/brasil/amazoni…

38. Percebam, por fim, que os temores brasileiros de que as potências querem internacionalizar a Amazônia e os temores estrangeiros de que o 🇧🇷 está destruindo o "pulmão do 🌍" são narrativas que se retroalimentam, contribuindo para uma escalada de tensões que não é boa p/ninguém

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