Rodrigo Nunes Profile picture
Philosophy, PUC-Rio. Neither Vertical Nor Horizontal: A Theory of Political Organisation @versobooks: https://t.co/GlY2v3pfRx. Bylines @revistapiaui etc.

Aug 26, 2019, 26 tweets

A esta altura a história já chegou no Brasil: um grupo de bolsonaristas tentou tumultuar minha fala na Universidade de Helsinki. Como é provável que muito mais gente venha a passar por isso nos próximos anos, me pareceu útil compartilhar algumas impressões a respeito.

A primeira coisa a observar é o caráter altamente mediado da interação. Estava claro que o objetivo ali não era tanto tentar convencer o público, menos ainda ter um debate de ideias. Tratava-se de criar uma situação que pudesse ser documentada e compartilhada nas redes sociais

Mais que isso, era notável o grau de alheamento dos três em relação à fala em si. Embora estivessem sentados bem na minha frente, a mulher que falava e o homem que filmava passaram a maior parte do tempo na internet.

Não havia argumentos ou posições concretas, apenas clichês retóricos e talking points aleatórios que, além de tangenciais à conversa, invariavelmente ofereciam alguma variação da fórmula "mas e o Lula/PT/Haddad/PSOL/Dilma etc.?". Não se tratava de ter uma conversa de boa fé, mas

de tentar pinçar uma frase ou palavra, ou provocar uma reação desabonadora. Estes detalhes importam pelo seguinte. Se as pessoas vêm à sua fala para tumultuá-la, elas vêm de caso pensado para impor um certo enquadramento à situação; a melhor maneira de reagir, portanto,

é ao mesmo tempo evitar este enquadramento e expor para o público presente sua lógica de operação. Elas querem que você perca a compostura? Mantenha a calma, faça piadas, use o humor para desinflar o militantismo delas e expor o ridículo da situação. Querem pintar você como

alguém que defende o PT, a corrupção, a pedofilia, a drogadição? Responda com perguntas como: "qual é a relevância desta questão para esta discussão? a quem interessa reduzir o debate desta maneira? de qual assunto esta manobra serve para desviar o foco?"

Elas querem guerra? Exponha-as como pessoas cuja “guerra” não é real confronto de ideias, mas a mera espetacularização de um enfrentamento que serve para produzir material para manter um público cativo engajado e alavancar a carreira de subcelebridades de internet.

Por último, chame a atenção delas e do público para o fato de que, em tempos de câmaras de eco radicalizadas, esse tipo de ação, uma vez divulgada, pode ter consequências que não se restringem à lacração e à mitagem nas redes, mas incluem ameaças à integridade física das pessoas.

Em resumo: tente entender o que aquelas pessoas querem, e não só procure dar sempre alguma coisa diferente, mas tente especialmente deixar explícitos os mecanismos pelo qual elas tentam direcionar a interação para um certo resultado.

Pensar que quem criou aquela situação não o fez com o propósito de gerar um debate de fato, e que a verdade daquela interação não está nela mesma mas na possibilidade de sua mediatização, serve para esclarecer mais duas coisas.

A primeira é que você não vai convencer aquelas pessoas de nada. A segunda é que, dado que elas terão todo o controle sobre como divulgarão o resultado, você também já perdeu o público delas. Logo, seu público-alvo naquela situação são basicamente as outras pessoas da plateia

Aqui entra uma coisa importante: eleitores de Bolsonaro foram a maioria nas eleições, mas bolsonaristas são uma minoria; uma minoria grande e altamente engajada, é verdade, mas minoria ainda assim. O diálogo com esta minoria será impossível durante muito tempo.

Logo não é uma prioridade imediata. O mais importante hoje é isolá-la: criar um cordão sanitário à sua volta que imunize quem está exposto a seu discurso, diminua seu apelo, aumente o custo de aderir ou manter-se fiel a ele.

Na prática isto significa, sem condescendência, mas de maneira firme e sem meias-palavras, chamar este discurso pelo nome. Falar de sua dependência de bolhas cada vez mais fechadas e radicalizadas que conformam realidades cada vez mais divergentes do mundo da maioria das pessoas.

Dizer que seus produtores e propagadores são aproveitadores que se alimentam da desatenção e da desinformação. Expor o misto curioso de fanatismo e ironia cínica de seus líderes, que constantemente propagam “fatos” que serão em seguida negados ou defendem valores que não praticam

Desenredar as ramificações práticas destes discursos, suas consequências no mundo real, e como as pessoas que reproduzem estas ideias estão se dessensibilizando em relação a elas: no desmatamento, no genocídio indígena, na violência homo e transfóbica, na intolerância religiosa.

Significa apontar, finalmente, que só existem duas posições subjetivas dentro de um discurso cujas consequências lógicas são a eliminação física de indivíduos e condições cada vez piores de reprodução social em geral:

ou o otário que não vê que será sempre mais vítima do monstro que ajudou a alimentar, ou o oportunista que sabia o que estava fazendo e entrou nesta para se dar bem. Bucha de canhão ou farsante: a opção é essa, e há sempre um número muito maior dos primeiros que dos últimos.

Foi isto o que eu acabei dizendo quando passamos ao debate com a plateia. Havia qualquer coisa de extremamente indigno naquela situação toda, e por mais que eu estivesse ironizando e fazendo piadas, eu me sentia inevitavelmente rebaixado à indignidade daquele espetáculo.

Tendo resistido à tentativa deles de transformar uma discussão política numa questão moral, eu acabara me situando numa oposição política em relação a eles; mas aquilo implicava não apenas aceitava situar ideias que me parecem francamente abomináveis no mesmo nível de discussão,

como não chegava a botar em questão o ridículo e a indignidade daquela interação. Foi quando me veio o estalo que, para tornar inteiramente explícito o que havia de errado ali, era preciso passar do terreno político para o ético. Era preciso dizer que o espetáculo era lamentável,

que era triste me deparar com pessoas que habitam um mundo tão distante do meu que o diálogo entre nós era impossível, e o quanto aquela situação me parecia uma consequência direta das ideias que elas sequer tinham coragem de defender diretamente ali:

se elas estavam se comportando como pessoas horríveis, era porque aquelas convicções lhes autorizavam a comportar-se como pessoas horríveis. Não sei que efeito isto pode ter dito neles, mas foi o momento em que a plateia reagiu de maneira mais entusiástica.

E bom, a Finlândia é um país tão civilizado que até o tabloide que cobriu a história achou a situação lamentável. Mas ela pelo menos rendeu o neologismo “bolsonarri”, aproveitando que “narri”, em finlandês, significa “bobo da corte”.

Relato do @TeivoTeivainen sobre o incidente (em inglês): tiny.cc/mpqqbz
Sobre o que eu disse para a imprensa finlandesa: tiny.cc/zpyqbz. Relato do tabloide (em finlandês): tiny.cc/skrqbz. Versão longa deste comentário: tiny.cc/c3prbz

Share this Scrolly Tale with your friends.

A Scrolly Tale is a new way to read Twitter threads with a more visually immersive experience.
Discover more beautiful Scrolly Tales like this.

Keep scrolling