1. Olha como mal ia a nossa intelectualidade lá dos anos 70 narrado pelo Nelsão...
"Quem é o romancista? Deve ser o que faz romance. Nem sempre ou, melhor dizendo, quase nunca.
Só as gerações românticas é que exigiam do romancista o ato literário puro.
2. "O autor tinha que ser o autor mesmo. Ninguém aceitaria um Dumas Filho sem "A dama das camelias" ou um Dickens sem "David Copperfield" ou um Victor Hugo sem "Os miseráveis". Mas os tempos rolaram e eis que a nossa época inventou o "intelectual de passeata".
3. "Perguntará o leitor: — "E o que faz o 'intelectual de passeata'?" Hoje não faz nada. Mas houve um tempo em que fazia exatamente passeata.
Vamos voltar às passeatas. Pode ser fantástico, mas é prodigiosamente exato.
4. "Imaginemos um Dante. Se vivesse em nossos dias, estaria dispensado de fazer a "Divina comédia". Bastaria que desfilasse da Cinelândia à Candelária. Beatriz, da sacada, atiraria uma lista telefônica na sua cabeça.
5. "E Dante seria, para todos os efeitos, sem uma linha, o formidável "poeta de passeata". O que eu quero dizer é que os intelectuais que marcharam são estilistas sem uma frase, poetas sem uma metáfora, romancistas sem um personagem, cineastas sem um filme.
6. "Não escrevem, não pensam, não imaginam — simplesmente passearam. Um dos tais é um arquiteto que não projetou um galinheiro. Não importa. Estava na passeata.
(...)
Dirão vocês que não há mais passeatas. Exato.
7. "Mas elas explicam a "inteligência hippie" que só agora explode na nossa imprensa. Começou num dos nossos maiores jornais, que já está ocupado por uma delirante rapaziada. Lá, o busto do fundador ganhou uma túnica loura. Vejam como é simples ser intelectual.
8. "O sujeito não toma banho, não escova os dentes, passa a usar uma barba e uma cabeleira do assassino de Sharon. Vai para a redação descalço. Coça a cabeça com os dez dedos. Ou, então, senta-se na sala da diretoria e raspa, com gilete, a própria santa.
9. "Ótima ideia é escrever com um mico no ombro. Gaba-se de ter piolhos do tamanho de uma lagartixa. Segundo me informam, uma das figuras da "inteligência hippie" já se despiu em plena redação para redigir o editorial.
10. Ao vê-lo corajosamente nu, no seu trabalho — a diretoria aumentou-lhe o ordenado. Era a morte do passado."
Nelson Rodrigues
11. E esta crônica, "O Nu Mata o Passado", senhoras e senhores, é de 22 de janeiro de 1970. A insanidade ideológica com sua vontade destrutiva de quebrar tudo que é bom do passado, vem de longe...
12. E o que vemos hoje são os dejetos sombrios dos restos culturais nefastos das conseqüências degradantes que já vinham ocorrendo há mais de meio século no Brasil.
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