Leo Siqueira Profile picture
Deputado Estadual | Economista EESP-FGV | Mestrado Economia Barcelona School of Economics | PhD Economia Insper | Visiting Yale

May 7, 2020, 13 tweets

Banco Central reduziu a Selic em 0,75 ponto percentual (p.p) para 3,0%.

Como o mercado esperava 0,5 p.p. (e foi pego de surpresa), alguns acham que o BC "exagerou".

Vale falar de juros reais ex-ante, política monetária nesse choque de oferta e porque "this time is different..."

"JUROS MAIS BAIXOS *NÃO* VÃO ESTIMULAR A ECONOMIA"

Nenhum BC do mundo tem essa pretensão hoje. Já sabemos que essa crise não tem origem no sistema financeiro.

Nesses casos - como em 2008 - juros menores dão liquidez aos mercados e atenuam a crise.

Agora, o objetivo é outro...

A ideia é possibilitar que as FAMÍLIAS E EMPRESAS - que sofreram um choque na renda - possam se endividar.

Aliás, crédito SIM É BOM e serve pra isso. Você empresta renda futura para consumir hoje.

Com isso, a estrutura produtiva se mantém para o t+1 (quando tudo voltar...)

"ESSA QUEDA VAI INCLINAR A CURVA DE JUROS FUTUROS."

DEPENDE. Uma queda nos juros HOJE só gera aumento nos juros FUTURO se o mercado enxerga que o BC está sendo IRRESPONSÁVEL com a inflação.

Em 2012, quando a Selic atingiu a mínima histórica de 7,25% com Dilma, esse foi o caso.

A Selic caiu pela caneta, já que a inflação estava acima da meta.

O resultado foi que a curva longa subiu, pois o mercado sabia que lá na frente a Selic precisaria aumentar.

E aumentou! Saiu de 7,25% (2013) para 14,25% (2015).

Hoje, a inflação está abaixo da meta de 4,0%.

"ESSA POLÍTICA NÃO É MUITO EXPANSIONISTA?"

Vamos lembrar que o que define isso são os JUROS REAIS. Ou seja, os juros menos a inflação ESPERADA (EX-ANTE).

Como a expectativa de inflação caiu 0,8 ponto percentual em menos de 1 mês, isso abre mais espaço para uma queda maior.

Basta olhar o focus.

"MAS AGORA O CÂMBIO VAI DISPARAR"

Verdade. Agora, o diferencial de juros brasileiro e americano diminuiu. Portanto, passa a ser mais interessante para alguns investir na dívida americana.

Alguns investidores saem do país e o dólar TENDE a subir.

De fato isso tende acontecer.

Tão ou mais importante do que o nível do câmbio é a volatilidade. Câmbio apreciando ou depreciando RAPIDAMENTE pega empresas desprevenidas.

Se ainda assim essa for a preocupação, há outros instrumentos - que não a taxa de juros - para reduzir essa volatilidade como leilões etc.

Vamos lembrar que o dólar está alto também por outros motivos: crise política, gastos excessivos desnecessários etc.

Ainda assim, considerando que haja alguma consequência negativa no câmbio + depreciado - e não é consenso que haja - são menores do que os ganhos da Selic menor.

Resumo da história é o seguinte:

- Endividamento das famílias e empresas NESSE CASO é bem vindo para emprestar renda futura.
- Inflação ESPERADA despencou o que abre + espaço.
- Há outros mecanismos para o câmbio, se isso for preocupação.
- O balanço de riscos diminuiu.

O que talvez tenha sido ruim nessa história toda, tenha sido a SURPRESA.

Em política monetária surpresa nunca é bom. Mas o que poderia ter sido diferente? Dado que a situação mudou drasticamente em menos de 1 mês, não consigo enxergar muito.

Se deixei de considerar algo, estou disposto a ouvir e sempre a aprender.

Afinal, meus "unknowns" aqui são maiores do que aquilo que enxergo.

Política monetária nos ensina isso, já que muda constantemente.

Share this Scrolly Tale with your friends.

A Scrolly Tale is a new way to read Twitter threads with a more visually immersive experience.
Discover more beautiful Scrolly Tales like this.

Keep scrolling