José de Alencar Profile picture
Cardiologist, Invasive EP. Researcher. Associate editor @jelectrocardiol. Evidence based medicine advocate.

Aug 21, 2020, 12 tweets

Um fio sobre a história da trombose venosa e pulmonar, dos anti-coagulantes, fazendeiros, venenos de rato…

Também um fio sobre porquê a Medicina deve ser repensada a todo momento. Segue os próximos tweets para entender.

A primeira descrição histórica de um caso semelhante a uma trombose venosa foi do jovem Raoul no manuscrito “La vie et les miracles de Saint Louis” de Guillaume de Saint Pathus de 1271.

Outro possível (obviamente enviesado) caso famoso, você deve conhecer: é o de Jesus Cristo.

No século XX foram descobertas propriedades anticoagulantes de algumas substâncias: a heparina e os antagonistas da vitamina K.
Esses últimos foram usados como veneno de rato por alguns anos até que se percebesse que a dose raticida não era tão tóxica assim para os humanos.

A Warfarina foi descoberta quando Ed Carlson, um fazendeiro cansado de perder seu gado para uma misteriosa doença hemorrágica, entregou um dos seus animais mortos para Karl Link. A pesquisa que deu origem ao fármaco foi financiada pela Wisconsin Alumni Research Foundation (WARF).

Em 1960, um clássico trabalho (Barrit e Jordan, Lancet) demonstrou que o tratamento com heparina e um antagonista da vitamina K demonstrou:
- 5 mortes em 19 pacientes não tratados
- 1 morte em 54 tratados.
Parece algumas "pesquisas" que vemos por aí defendendo remédio pra piolho?

O pontapé inicial começou com um estudo fraco:
- Pacientes não tinham o diagnóstico firmado de embolia.
- Randomização não foi descrita.
- Não cego, não placebo-controlado.
- Estudo interrompido precocemente.

"Ah, mas certamente outros trials vieram depois”, você diria.

Esse é o problema de quando o pontapé inicial é fraco e é aceito logo sem rigor pela comunidade médica:
- Os próximos estudos vão sempre partir do pressuposto (falso) que a droga funciona.
- Será anti-ético fazer novos estudos sem a droga.
- Nunca saberemos se funciona mesmo.

Talvez você esteja extrapolando minhas palavras pra o que alguns fazem com a cloroquina, tentando empurrar narrativas goela abaixo.

Eu mesmo já cheguei a ouvir que "estamos em um ponto em que é anti-ético não dar cloroquina” - é quando a mentira se tornará irrefutável.

E depois que se tornou anti-ético não dar um remédio não comprovado a um paciente com trombose, foi lançada em 2006 pela Cochrane a menor metanálise da história (risos): apenas dois estudinhos.
Que foram o quê? Adivinha? Isso mesmo, negativos: não houve benefício com a terapia.

Ao mesmo tempo em que não sabemos se a terapia realmente funciona estatisticamente, porque fomos roubados desse direito, sabemos:
- Um usuário a cada 12 apresentam algum sangramento.
- Um a cada 50 - 111 apresentam sangramentos graves com risco de morte.

Conclusões:
- A terapia é muito plausível e coerente.
- A observação de anos de prática médica é que parece funcionar, mas pode nos enganar (vieses de confirmação e do gato de Schrodinger).
- Não sabemos seu real risco x benefício.
- Deveríamos estudar isso versus placebo.

Apenas enfatizando: sendo indicação classe I para diversas populações em situações diferentes, EU faço e recomendo os meus residentes que façam sem extrapolações.

Só estou apontando que construíram o Burj Dubai sobre a fundação de uma casinha de dois andares.

Share this Scrolly Tale with your friends.

A Scrolly Tale is a new way to read Twitter threads with a more visually immersive experience.
Discover more beautiful Scrolly Tales like this.

Keep scrolling