Marcos Queiroz Profile picture
Calango do planalto central. Prof. @sejaidp. Editor da @JacobinBrasil. PhD @unb_oficial. Sanduíche @UNALOficial. Alumni @fulbrightbrasil na @DukeU. Vasco.

Aug 28, 2020, 34 tweets

Jorge Ben, a Geração dos 90 e a democracia musical brasileira

Se tem um artista que inventou o Brasil, esse artista é Jorge Ben. Criou não apenas artisticamente: Ben foi o fundamento utópico da música pós-1988.

Segue uma thread sonora para embalar sua sexta! 👇🏾❤️

Como Gil fala: Ben é um estuário.

Influenciado pelas marés, é zona de extrema produtividade e criação, rico em elementos, nutrientes e potencialidades. Sua música é isso: um constante processo de invenção e reinvenção de nós mesmo. Mas Ben também é um estuário temporal. 👇🏾

Estuário temporal pois entrelaça os fios do passado e do futuro. Ele é o início, o fim e o meio.

Olhando para trás, Ben e caixa de reverberação das duas grandes Áfricas que aportaram no Brasil: a do Golfo da Guiné (cantos, imaginário e melodias) e Bantu (ritmação e devires).👇🏾

Ele também continua um tipo de tradição artística iniciada, talvez, por Lima Barreto e prosseguida, especialmente, na música popular brasileira: o falar dos subúrbios, das suas gentes, dos negros, do seu cotidiano, dilemas e sonhos a partir da própria visão suburbana e negra.👇🏾

Bebendo na ancestralidade africana e na tradição negra brasileira que Jorge, nos 60 e 70, se conecta com fenômenos transnacionais da diáspora (direitos civis, independências africanas, o lugar do negro na modernidade, a memória da escravidão, utopias). 👇🏾

A conexão diaspórica se dá também no seu diálogo com o funk, o rock, o jazz e a infinitude de produções feitas por negros no mundo. Nesse caldeirão, Jorge criou o Brasil: deu sentido definitivo ao sambalanço - ao swing como constituição da brasilidade. 👇🏾

Bom, Jorge cria um universo em expansão, aberto em possibilidades criativas, único na história da musical mundial. Mas essa thread não é sobre Ben em si, mas sobre como ele se relaciona com o devir democrático brasileiro. E aí entra a segunda parte do estuário temporal. 👇🏾

Logo após a fase mais produtiva de Ben (60-70), o Brasil entra no período de redemocratização. Mais do que o final da Ditadura Militar, esse momento marca uma nova entrada de certos sujeitos políticos na esfera pública nacional, como mulheres, negros, indígenas, trabalhadores.👇🏾

Havia ali uma disputa de sentidos sobre ser brasileiro - a possibilidade de um Brasil construído pelos até então derrotados da história. Porém, na música mainstream, essa disputa ainda não se fazia por completo. O tom dos 80 é o rock com sabor inglês. 👇🏾

Mas isso começa a mudar com o final dos 80. Em diversas cidades brasileiras, começam a ganhar corpo dinâmicas de repaginação da música a partir dos "novos temas e sujeitos" que terão grande impacto na cultura hegemônica. Vai nascendo a Geração dos 90. 👇🏾

Não foi só no rock: documentários recentes (Axé e Caranguejo Elétrico) apontam para a abrangência profunda do fenômeno. Era a redemocratização da música a partir das utopias proporcionadas pela Nova República. Um Brasil que queria ser outro, ser mais. 👇🏾

Mas todo movimento para o futuro é uma construção retrospectiva do passado. E qual foi o grande berço genealógico da Geração dos 90? O nosso estuário temporal: Jorge Ben foi o principal referente formal, ético e estético para a música daquele período. 👇🏾

Enquanto a crítica musical conduzia Jorge cada vez mais a um lugar caricato ("senhor do hits" e "rei da festa"), os músicos da Geração dos 90 valeram se da sua obra como um manancial de referências, códigos, posturas políticas e utopias do que poderia ser o Brasil verdadeiro. 👇🏾

E aqui começa nossa estrada: logo em 1994, Mundo Livre S/A estréia para o mundo com seu disco Samba Esquema Noise, numa clara referência ao primeiro disco de Ben. Jorge que atravessa a banda, como a forma de cantar e tocar de Fred Zero Quatro. 👇🏾

Ainda em 94, também estreando, O Rappa cantaria "Cada qual com seu James Brown, salve o samba, hip-hop, reggae ou carnaval, cada qual com seu Jorge Ben, salve o jazz, baião e os toques da macumba também."

Jorge era fundamento para estar, ver e criar.👇🏾

Um ano depois, 1995, nascia para o mundo um dos fenômenos mais explosivos dos 90: Planet Hemp. Na clássica "Dig, Dig, Dig", @Marcelodedois cantava e transformava uma das maiores músicas de Jorge, "Zumbi". Papo-reto pra meter o dedo na ferida. 👇🏾

O diálogo era intenso e às vezes direto, como pode ser visto nessa entrevista de Jorge Ben no Roda Viva, também em 95. Entre os convidados, Chico Science, um dos líderes da Geração dos 90 e fã assumido de Jorge Ben. 👇🏾

Em 1997, era lançado um dos álbuns mais importantes da história da música brasileira, Sobrevivendo no Inferno. E é Jorge da Capadócia que abre o disco, apontando as conexões éticas e territoriais dos bailes black dos 70 e 80 com a cena do rap dos 90. 👇🏾

No ano de 1998, ex-líder da banda fenômeno do mundo nos anos anteriores (Sepultura), Max Cavalera parte para uma nova fase no Soulfly. No álbum de estréia, as guitarras swingadas de Umbabarauma ganham conotações trovejantes e pesadas. 👇🏾

Em 99, na música do disco, O Rappa canta como Ben continua embalando sua geração.

"No bê abá da chapa quente, eu sou mais Jorge Ben tocando bem alto no meu walkman, esperando o carnaval do ano que vem, não sei o ano, vai ser do mal ou se vai ser do bem."👇🏾

Em 2000, membros da Nação Zumbi, formam um projeto paralelo chamado "Noites do Ben", que logo depois vira Los Sebozos Postizos. A proposta? tocar covers do nosso estuário temporal, dando um tom paradoxalmente nostálgico e atual à obra de Jorge.👇🏾

Em 2003, talvez num dos últimos grandes suspiros daquela geração no rock, Charlie Brown Jr., no Acústico MTV, faz uma versão inspirada de "Oba, Lá Vem Ela", seguida de "Musa da Ilha Grande", do Mundo Livre. Intertextualidade pura daquela galera. 👇🏾

Esse repositório beniano não estava apenas nas referências diretas. Jorge legou todo um mundo imaginativo (as mitologias, narrativas e autovalorização negras) e formal/estético (o cantar falado, o prolongamento vocálico muçulmano, a percussividade nos instrumentos de corda).👇🏾

Como diz Caetano, talvez nenhum artista influenciou tanto o devir da música brasileira como Jorge Ben. Na autoinscrição negra do rap, no abrasileiramento do rock, na modernidade periférica do funk, nas mitologias africanas do axé - Ben estava ali.👇🏾

A reverência da Geração de 90 é tamanha que, em 1998, logo após a morte de Chico Science e uma pausa da Nação Zumbi, o grupo volta com a música "Malungo". São convidados grandes do momento (D2, Marcelo Falcão, Fred 04) e um mais velho. Quem? Jorge Ben.👇🏾

Tem uma poética profunda aí.

Malungo era como os africanos, raptados em África, se chamavam a partir da experiência do navio negreiro. Era a nomeação da comunhão e solidariedade daqueles que foram unidos pela violência e dela recriaram um mundo. Insistiram em criar o Brasil. 👇🏾

O crítico literário Jerome Branche chama de malungagem a ética-estética por trás das criações de negros na diáspora. Bricolagem, extrema intertextualidade, scratch, o aproveitamento de tudo (até do lixo) e o lamento negro são partes desse fenômeno.👇🏾

Por isso a imensidão oceânica da Nação ao homenagear o seu malungo, Francisco de Assis, chamando o malungo ancestral daquela geração, Jorge Ben.

Pois Ben significava para aquela geração, filha da nova democracia, o potencial absoluto e criativo da experiência brasileira. 👇🏾

Em um momento de total desencantamento com a brasilidade, de aparente sinal fechado para a nossa geração e de uma descrença da possibilidade democrática nesse país, Jorge e a Geração dos 90 continuam nos dando valiosas lições.

Viva, Jorge! Voa, Jorge!

Grande referência dessa thread é o trabalho de Paulo da Costa Pinheiro. Suas obras sobre Ben são absolutamente brilhantes. Além do livro sobre A Tábua de Esmeralda, fica a dica desse documentário em áudio belíssimo (as falas de Gil e Caetano estão aí): 👇🏾

radiobatuta.com.br/documentario/i…

Em relação à Geração dos 90, além dos documentários já citados, foi com essa galera que aprendi a gostar de música e ela é o meu fundamento ético para ver o mundo. Boa parte das referências, portanto, são as próprias músicas e trajetórias dos artistas.

Seria um sonho se a thread chegasse à galera que me informou e me informa até hoje, como @manobrown, @Marcelodedois, @NacaoZumbi e outros mais citados aí. Seria realização de vida haha. ❤️

Ademais, aqui em casa meu irmão viveu tudo isso de perto e me ensinou boa parte do que está aí. Essa thread é para ele, que inclusive chega aqui em casa hoje. ❤️😍

Mi gente, para quem chegou até aqui no fio haha, segue uma playlist da thread, como alguns sugeriram nos comentários. Ela vai um pouco além, pois se relaciona com outros aspectos da obra de Ben que tenho utilizado em sala de aula.

Bom domingo procês! ❤️

open.spotify.com/playlist/5D0bs…

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