Livia Ferreira Profile picture
na sentença da capa, aqui é 99% a parte da natação // uma mulher contente com seus cansaços // wine mum // FAQ da psicanálise: https://t.co/zxzWq6YZPf

Aug 29, 2020, 19 tweets

Sobre o vídeo psicanálise e políticas identitárias:

A fala dele, a que tava preparada, foi até interessante. Não falou de clínica, falou do social. Questionou a própria premissa da política identitária, já que não há representação que seja universal.

E apontou que toda política é de algum modo identitária, justamente porque não há universal. O que foi tomado como universal - na política, na ciência - é a identidade cisheteronormativa branca. Sobre lugar de fala, propõe que não há lugar de fala potente sem lugar de escuta.

E aí foi muita esperteza metodológica, porque “escuta” fez parecer que tava falando de clínica, mas não tava. Tanto que usou até acolhimento como sinônimo.

Até aí tudo bem.

Mas aí chegou a hora do debate. Ferrou-se tudo.

Em resposta a um questionamento sobre branquitude, ficou possesso. Se disse acusado de ser branco. Contou que teve uma bisavó negra que foi estuprada. Que o babaca (sim, ele xingou) que o acusa de ser branco desconsidera sua história familiar. E saiu da reunião.

E assim, afora tudo que pode ser dito: branquitude não é isso, né? Branquitude não é raça, é lugar de privilégio. Que tem a ver com fenótipo mais do que com genótipo. Ele se diz acusado de ser branco e se defende de ser branco recorrendo a uma história genética.

Mas branquitude não é gene. Branquitude é o lugar social q uma pessoa branca tem, que difere muito em oportunidades e privilégios do lugar que uma pessoa negra tem. Em outras palavras, branquitude diz respeito propriamente ao modo como ele é visto e o lugar q ele ocupa por isso.

E aí assim, né? Não sabe bem o que é branquitude. E ninguém é obrigado a saber nada não, mas se você se propôs a falar sobre, escolheu essa pergunta entre outras pra responder, poderia ser no mínimo cuidadoso com o conceito.

Já ela começou a fala de um jeito clinicamente interessante até: mostrando que analista é um lugar vazio de identidades, e que desse lugar de analista é possível escutar qualquer pessoa. Não passa pela identificação, pela compreensão, pelo entendimento. Isso é importante demais

na esfera política, mas na clínica o lugar do analista é sempre vazio. Ok. Só que durou dois minutos. E começou a falar das políticas propriamente ditas.

Aí, retomando ainda a colunista que criticou a Beyoncé, começa aquela crítica clássica ao lugar de fala:

“Então ninguém pode falar nada nunca, então é preciso ser negro pra falar de negritude?, é preciso ser mulher pra falar de feminino?, então o lugar de fala é pra ninguém mais conversar, é um lugar de cale-se?”

E de novo, lugar de fala não é isso, né? Até entendo que às vezes ele seja interpretado/apropriado/utilizado dessa maneira. Mas não é isso. Esse tipo de noção é o básico do básico: lugar de fala, bem resumidamente, tem muito mais a ver com o discurso do mestre.

Ninguém que está de fora de uma reivindicação ou discurso que parte de um lugar identitário específico pode falar o que a pessoa que está dentro tem que fazer. Se você é homem você pode falar de mulher, claro.

Mas não pode falar como uma mulher deve lutar seu feminismo, ou como ela deve se sentir ou agir diante de uma situação de opressão. Se você é branco, pode e deve falar sobre racismo. Mas não pode dizer “faça assim, faça assado”. Como se o seu discurso partisse de um lugar

universal (e não identitário) de saber. É preciso reconhecer o seu lugar e não encarnar o mestre. E a coluna lá que tá todo mundo passando vergonha pra defender tem um subtítulo assim:

“Diva pop precisa entender que a luta antirracista não se faz só com pompa, artifício hollywoodiano, brilho e cristal”. É literalmente uma branca dizendo como uma mulher negra deve ser uma racista melhor. Encarnando o lugar do mestre, de um saber universal.

Mas todo mundo que eu vi defendendo só ficava nesse argumento reativo “ah mas ninguém mais pode falar sobre nada?”

Claro que pode. Plmdds. Só não pode dizer o que as pessoas “precisam entender”.

E né, de novo, ninguém é obrigado a saber de nada. Você vai falar sobre política identitária mas não tem tempo ou não tá a fim de estudar os conceitos? Sai pela tangente, fala de psicanálise, fala de clínica. Se for falar de política tem que estudar, fazer a lição de casa.

“uma branca dizendo como uma mulher negra deve ser uma antirracista melhor” maldito corretor edição de tuítes quando que vai vim

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