Marcel Ribeiro-Dantas, PhD🔎📊🌿 Profile picture
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Sep 4, 2020, 20 tweets

Acho q nunca falei p/ vocês por aqui sobre um conceito fruto de algumas reflexões: ideias órfãos. Pega um café q teremos um🧶 😄

Imaginem q cada conclusão é uma bolinha no grafo abaixo, e essas bolinhas juntas formam nossa rede de conhecimento. As retas, arestas, q conectam
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2/20 as ideias indicam relacionamento entre elas. Peguemos a figura abaixo, por exemplo. Nós concluímos q João é atleta pq sabemos que (a) todo jogador de futebol é atleta e que (b) João joga futebol. Mas como sabemos que João joga futebol? Por causa de outros nós, as bolinhas,

3/20 que estão acima de “João joga futebol”, topologicamente falando, e assim por diante. Assim como em termos computacionais, em termos biológicos também seria um desperdício de “espaço”, ou energia, ter tudo isso armazenado dessa forma. É fácil lembrar de um trauma, mas difícil

4/20 lembrar do formato do quarto pedaço de carne que comemos hoje no almoço (A propósito, o que foi que comi no almoço mesmo? 😅). Desse modo, costumamos tentar organizar as ideias, as informações, de forma mais eficiente, ainda que isso implique perder a exatidão das coisas.

5/20 Acaba que você acha que João é atleta porque alguém te disse 🤷‍♂️. Ou Pedro até te explicou, mas você não lembra da explicação, apenas que Pedro te explicou. Se sairmos desse caso específico e olharmos a nível de “conhecimento armazenado por alguém”, a visualização torna-se

6/20 facilmente inviável. É muita bolinha, e muita aresta (os traços conectando os nós). É o famoso hairball, como na imagem abaixo. Se alguém chegar p/ você e te falar que Pedro estava brincando e te mostrar evidências de que João não joga futebol, e nem é atleta, e você não se

7/20 importar tanto com esse assunto, o que acontece? Aquela rede do início “some”. Você apaga ela. Você segue com o conhecimento dos nós anteriores, sobre o que é futebol, o que é atleta, que quem joga futebol é atleta, mas os três nós sobre João são apagados, e fica tudo lindo.

8/20 Existem cenários mais complexos, no entanto. Vamos para um exemplo prático. Digamos que você, como eu, cresceu ouvindo que precisava fazer basquetebol ou voleibol para ficar mais alto, caso contrário seria tampinha. Por muitos anos, ao longo da infância, ouvi isso. Muitos

9/20 anos depois, fui bombardeado com informação, em uma sociedade que gera conhecimento como nunca antes na história da humanidade, e um espaço vibrante para o debate livre de ideias o que implica um desenvolvimento intelectual surpreendente. Aprendo, por exemplo, sobre viés de

10/20 sobrevivência. Dado q basquetebol e voleibol são esportes onde a altura por si só contribui muito para a performance dos jogadores, é natural que os jogadores mais baixos sejam removidos dos times ao longo do tempo. Um baixinho precisa jogar MUITO para permanecer, enquanto

11/20 q uma pessoa mais alta tem a altura por si só contando a seu favor. Pode ser visto também como um caso de causalidade reversa. A altura causa sua permanência no esporte, ñ é a permanência no esporte que causa sua altura 😅. No entanto, empiricamente podemos ficar inclinados

12/20 a achar diferente, já q na TV os atletas profissionais de basquetebol e voleibol costumam ser muito mais altos do q a média populacional. Viés de sobrevivência pode ser resumido como julgar uma população de corredores apenas pelos q alcançaram a linha de chegada e foram

13/20 classificados. Compreende? Beleza, aprendi sobre viés de sobrevivência, sobre causalidade reversa e mais um caminhão de coisas, fruto principalmente de meu doutorado, onde estudo causalidade na área de saúde. E daí que outro dia, topo com alguém comentando sobre voleibol

14/20 estar associado com aumento de altura. Automaticamente concluo que é uma correlação espúria, causalidade reversa, viés de sobrevivência, meu cérebro é bombardeado de inferências MAS... Até aquele instante do estímulo, eu não tinha pensado nisso. Eu não havia refletido sobre

15/20 isso por, sei lá.. 15 anos? E isso é o que eu chamo de ideia órfão. Você já tem um conjunto de sub-grafos, sub-redes, mentais que te permitem fazer a inferência correta, no entanto, como você não revisitou aquele conhecimento após adquirir essas ideias, elas ficam órfãos.

16/20 Você “corta” as arestas responsáveis pela conclusão, mas como vc não refletiu sobre a conclusão, como quando te contaram de João, os nós ficam soltos, flutuando na nossa rede de conhecimento. Nessas redes, costumamos nos referir aos nós causadores, q estão acima, como pais

17/20 e aos nós causados, que estão abaixo, topologicamente falando, como filhos. Como esses nós perdem os pais, os nós que explicam a conclusão, eles se tornam órfãos. É curioso porque o tempo inteiro nós temos a ferramenta e as informações para fazer a inferência correta, assim

18/20 como temos a informação errada, mas no instante q recebemos o estímulo, e nos corrigimos, a impressão é de algo novo, ainda q o tempo inteiro tudo estivesse lá. É como se alguém tivesse acabado de te ensinar q praticar voleibol, por si só, não faz alguém ser mais alto, mas

19/20 você já sabia, só não tinha se dado conta disso. É “caro” corrigir esses órfãos. P/ quem ficou interessado em causalidade reversa tem um outro exemplo interessante. Se você observar apenas pacientes terminais de enfisema pulmonar e adolescentes, vc pode ficar c/ a impressão

20/20 de q ñ fumar causa enfisema 😅. Ou se comparar a dieta de pacientes diabéticos em estado grave c/ jovens, pode parecer q se alimentar bem causa diabetes. No entanto, é justamente o “efeito”, o caso grave, q causa quase q compulsoriamente a melhora de hábitos (ou morte 😰)

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