Nota sociológica.
Acho plenamente válido debater a religião e as formas de ação política dos comunistas frente a "questão religiosa" no Brasil. Esse debate, entre nos nossos, precisa ser respeitoso por mais que se discorde eventualmente do camarada. Dito isso, duas coisas:
a - a reflexão filosófica sobre a religião, suas formas de consciência e até o interessante debate sobre a "prova ontológica" da existência do divino não podem esquecer uma dimensão prático-objetiva: quase 100% do povo trabalhador é religioso no Brasil.
Essa é a premissa do debate. Toda vez que você quiser debater religião, não importa que autor ou corrente filosófica siga ou sua opinião pessoal sobre ateísmo, lembre-se disso: quase 100% da nossa classe é religiosa. Nunca esqueça a práxis na reflexão teórica.
É lícito alguém dizer que para conquistar a maioria dos trabalhadores para o socialismo, precisamos difundir o ateísmo. Aceito, mesmo discordando, essa opinião. Eu quero saber em seguida, porém, como operacionalizar isso. Gostaria apenas de oferecer um exemplo.
Eu consigo convencer minha mãe, tios, vizinhos e afins que privatização não é bom, que direitos trabalhistas são importantes e que coisas como o SUS precisam ser defendidos. Mas não consigo, de jeito nenhum, convencer que Deus não existe.
Pense nisso!
b - também é importante entender o caráter "elástico" da religião. A religião é uma forma de consciência flexível, de altíssimo grau de adaptação a mudanças variadas de época histórica e de conjuntura. O fenômeno religioso é de uma complexidade incrível.
aprendi com Antônio Gramsci a não confundir as instituições religiosas, como a igreja católica, com o fenômeno religioso em si. Basta ver, p.ex., como a próprio Igreja Católica apoiou a morte e tortura de padres socialistas nos anos 60 e 70 para controlar a rebeldia de baixo.
Ou os fenômenos do "messianismo" no começo dos anos XX no Brasil, a teologia da libertação, as comunidades de base dos anos 80 ou as guerrilhas de base marxista e católica na América Central. O mundo, meus amigos, é complexo e cheio de experiências.
Eu não tenho dúvidas que a institucionalidade religiosa, especialmente a cristã, é em essência contrarrevolucionária. As Forças Armadas também são e nem por isso os comunistas defendem não fazer trabalho político nas Forças Armadas. Não entendo porque na religião seria diferente.
Inclusive, acho uma lógica tática estranha ao invés de fazer trabalho na trincheira do inimigo, potencializar suas contradições, enfraquecer sua unidade de ação, deixar ele livre, unido, coeso. Isso não faz qualquer sentido tático-político.
Claro, falar que temos que fazer trabalho político não diz o COMO FAZER. Eu sei disso. Mas só vamos consegui pensar e agir no "como fazer" quando o problema é colocado em sua dimensão política.
Por fim, vejam esse vídeo do canal
Ps: friso a parte da discordância respeitosa entre nós. O camarada Humberto é um dos principais divulgadores do marxismo no país, uma pessoa séria, e como toda pessoa, pode errar. E a crítica deve ser a IDEIA.
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