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"É com a cabeça enterrada no esterco que as sociedades moribundas soltam o seu canto do cisne". (Aimé Césaire) Professor. Pai do Pedro.

Sep 13, 2020, 11 tweets

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Eu tendo estudar sobre a Coreia do Norte, juro. Tento ter boa vontade, dentro do possível.

Mas não aguento análises que comparam Coreia do Norte com Israel, Coreia do Sul, EUA, Tailândia ou qualquer outro país abertamente capitalista.

Eu entendo que dependendo do público, pode ser um recurso retórico válido.

Mas em termos analíticos, história comparativa exige mais rigor.

E em termos políticos, como socialista, eu quero é comparar a Coreia do Norte com outras experiências socialistas!

Por que a gente não tem o mesmo grau de militarização, defendido no socialismo juche, no Vietnã, em Cuba, ou mesmo na China? Esses países foram menos agredidos pelas potências capitalistas?

Por que o socialismo coreano deu tanta ênfase a continuidade a família de Kim Il-Sung? Por que outras experiências socialistas não viram a mesma transferência de capital político de pai para filho (e depois, de filho para neto)?

Aliás, a relação da Coreia do Norte com o bloco socialista é digna de nota. Kim depurou várias alas do comitê central nos anos 50 e 60, inclusive uma ala pró-soviética. E Kim era odiado pelas Guardas Vermelhas na Revolução Cultural chinesa.

Eu não tô pedindo para abandonarem a revolução coreana. Entre 1945 até 1956, pelo menos, ela foi impressionante. Mas de 56 em diante, a revolução deu lugar a uma outra noção de revolução, socialismo e marxismo.

Tenho pavor desse papo de que os "traços coreanos" desvirtuaram/caracterizaram o socialismo no país.

Esse costuma ser o argumento de parte das relações internacionais americanas sobre o autoritarismo na URSS: joga tudo na conta do czarismo e do caráter "russo".

Pra mim, isso cheira a um tipo de orientalismo, que congela traços culturais ao longo do tempo e pressupõe sua estabilidade, independente dos regimes políticos, das transformações econômicas, ou até do papel do indivíduo na história (eu curto Plekhanov, lamento).

"Puxa, mas você vai jogar fora a história de resistência anti-imperialista norte-coreana".

Olha, vou citar um "derrotado" da história então:

"La historia es nuestra y la hace los pueblos".

Quem resiste é o povo. A esse, o meu apoio incondicional.

E como o Songun norte-coreano pressupõe "militares primeiro" - e não "povo primeiro", acho mais frutífero entender a Coreia Popular.

Mas endossar o regime que defende essa bandeira? Aí, não. Lamento, mas não.

PS: sempre lembro de um grande amigo, já falecido, trotskista ferrenho, mas entusiasta da história da URSS na 2a guerra, o Arturzão. Pra ele, a resistência heróica contra o nazismo era do povo soviético. E ninguém poderia tirar isso deles.

Nem Stalin.

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