Marcelo Backes 🚩 Profile picture
Escritor, tradutor e jornalista. Doutor em Germanística e Romanística pela Universidade de Freiburg, com bolsa do governo alemão. Prêmio Nacional da Áustria.

Sep 15, 2020, 19 tweets

O assunto é Victor Hugo, também porque a miséria voltou ao Brasil com Bolsonaro, e só não é pior porque a oposição lutou pelo auxílio emergencial. Um dos romances mais grandiosos de Victor Hugo é "O homem que ri" (1869). A história do homem que foi mutilado por um rei (1)

e é obrigado a rir eternamente porque lhe cortaram a boca e o desfiguraram, é tão grandiosa que serviu de inspiração à criação bem mais tardia do Coringa, de cuja versão mais recente se aproxima muito. Na retórica de Victor Hugo, a sabedoria na maior parte das vezes aparece (2)

no discurso dos personagens, e não apenas na elaboração do narrador ou no fluxo de consciência do herói sofrido e abandonado a si mesmo. O mesmo acontece por exemplo no "Dom Quixote" de Cervantes. O discurso de Gwynplaine, o homem que ri, no parlamento de Londres, (3)

é um dos pontos altos da literatura universal em todos os tempos. Prepare seu coração:
“— O que eu vim fazer aqui? Vim ser terrível. Os senhores dizem que sou um monstro. Não, sou o povo. Sou uma exceção? Não, sou todo mundo. A exceção são os senhores. (4)

Os senhores são a quimera , e eu, a realidade. Sou o Homem. Sou o medonho Homem que Ri. Que ri do quê? Dos senhores. Dele mesmo. De tudo. O que é esse meu riso? É o crime dos senhores e é meu próprio suplício. Esse crime, eu lhes jogo na cara; esse suplício, eu lhes cuspo (5)

no rosto. Eu rio, e isso quer dizer: eu choro.  
Parou. As pessoas se calavam. As risadas continuavam, porém mais baixo, levando-o a acreditar que tornavam a prestar certa atenção. Respirou e prosseguiu: 
— Esse riso que está em meu rosto foi posto aí por um rei. Esse riso (6)

exprime a desolação universal. Esse riso significa ódio, silêncio forçado, raiva, desespero. Esse riso é um produto da tortura. Esse riso é um riso de violência. Se Satã tivesse esse riso, esse riso condenaria Deus. Mas o Eterno não se assemelha aos efêmeros; sendo o absoluto (7)

ele é justo; e Deus abomina o que fazem os reis. Ah! Os senhores me consideram uma exceção! Eu sou um símbolo. Ó imbecis todo-poderosos, abram seus olhos. Eu encarno tudo. Represento a humanidade tal qual foi feita por seus mestres. O homem é um mutilado. O que fizeram a mim (8)

fizeram ao gênero humano. Deformaram-lhe o direito, a justiça, a verdade, a razão, a inteligência, assim como deformaram meus olhos, narinas e orelhas; como a mim, puseram-lhe no coração um poço de cólera e sofrimento, e na face uma máscara de contentamento. Onde o dedo (9)

de Deus havia tocado, as garras do rei se cravaram.
Monstruosa sobreposição. Bispos, pares e príncipes, o povo é o profundo sofredor que ri por fora. Mylords, eu lhes digo, o povo sou eu. Hoje, os senhores o oprimem, hoje os senhores me vaiam. Mas o que está por vir (10)

é o sombrio degelo. O que era pedra se torna torrente. A aparência de solidez se dissolve. Um estalido, e está tudo acabado. Há de chegar a hora em que uma convulsão romperá sua opressão, que um rugido responderá a suas vaias. Essa hora já chegou — estavas lá, ó meu pai! —, (11)

essa hora de Deus chegou e se chamou República, e a derrubaram; mas ela há de voltar. Enquanto esperam, lembrem-se de que a sequência de reis armados com a espada foi rompida por Cromwell, armado com o machado. Estremeçam. Íntegras soluções estão surgindo, as unhas cortadas (12)

tornam a crescer, as línguas arrancadas voam e se transformam em línguas de fogo espalhadas no vento das trevas, urrando no infinito; os que têm fome mostram seus dentes ociosos; os paraísos construídos sobre os infernos se desestabilizam, as gentes sofrem, sofrem, sofrem, (13)

e o que está por cima despenca, e o que está por baixo se entreabre, a escuridão pede para ser luz, o danado contesta o eleito, é a chegada do povo, eu lhes digo, é a ascensão do homem, é o princípio do fim, é o rubro alvorecer da catástrofe; (14)

isso é o que há nesse riso do qual riem!
Londres é uma eterna festa. Pode ser. A Inglaterra, de ponta a ponta, é uma aclamação. Sim. Mas ouçam: tudo o que veem, sou eu. Os senhores têm suas festas, isso é meu riso; têm alegrias públicas, isso é meu riso; têm casamentos, (15)

consagrações e coroamentos, isso é meu riso; têm nascimentos de príncipes, isso é meu riso; têm o trovão acima de suas cabeças, isso é meu riso. 
Como suportar uma coisa dessas! As risadas recomeçaram, desta vez massacrantes. De todas as lavas que lança a boca humana, (16)

verdadeira cratera, a mais corrosiva é a alegria. Fazer mal alegremente: não há multidão que resista a esse contágio. Nem todas as execuções ocorrem na guilhotina, e os homens, uma vez reunidos, seja em uma assembleia, seja em uma aglomeração, sempre encontram em meio a eles,(17)

a postos, este carrasco: o sarcasmo. Nenhum suplício se compara ao do miserável risível. Era por esse suplício que Gwynplaine passava. A hilaridade caía sobre ele como apedrejamento e metralha. Ele era chocalho e espantalho, joão-bobo, alvo. Pulavam, gritavam bis, (18)

rolavam de rir. Sapateavam. Seguravam-se pelo colarinho. A majestade do local, a púrpura das togas, a discrição dos arminhos, a elegância das perucas, de nada valiam ali. Os Lordes riam, os bispos riam, os juízes riam.” (19 - fim)

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