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"É com a cabeça enterrada no esterco que as sociedades moribundas soltam o seu canto do cisne". (Aimé Césaire) Professor. Pai do Pedro.

Sep 21, 2020, 19 tweets

Esse texto do @sk_serge carrega o peso dos melhores relatos de experiência, provocativo e denso.

É material para todo mundo que trabalha com África contemporânea, pesquisadores e professores.

E como todo bom relato de experiência, ele tem várias camadas.

Duas em particular me chamam atenção.

A primeira é sobre meu metiê mesmo, que é a História.

Desde que comecei a trabalhar com história da Ásia vi o quanto sou ignorante nas histórias de diferentes países. Mesmo os que conhecia um pouco mais, havia o que chamo aqui de...

..."buracos historiográfica", que aumentam ou diminuem de tamanho conforme o caso.

Os livros paradidáticos adiantam pouco e os didáticos menos ainda.

Pego um exemplo bobo, mas só para explicar: começamos o currículo escolar falando de civilizações antigas.

O Crescente Fértil ganha destaque e, em poucas aulas, percorremos alguns milênios na região, com destaque à Mesopotâmia, atual Iraque.

Tão logo são conquistados pelos persas, os mesopotâmicos somem da história para serem conquistados por uma sequência de povos.

Ganham algum protagonismo se, e quando, falamos do califado Abássida, nas aulas sobre o Islã. Mas a derrocada do califado acompanha um ocaso iraquiano, algo entre o século IX dc até o século XX, até Saddam Hussein.

Quem é professor sabe que é uma quimera estudar tooooda história, que dirá ensinar. Mas menos óbvio é dizer que as escolhas do que se ensina derivam de visões maiores sobre a história que compreendem noções bastante arcaicas sobre "universalidade".

Novamente, no plano do exemplo, o aluno de Ensino Médio que sabe quase nada sobre Iraque, pode ser capaz de remontar a história francesa desde a coroação de Clóvis até a luta pela libertação colonial da Argélia.

Ao menos a maioria dos livros didáticos subsidiam essa perspectiva.

Assim, o espaço do Congo, como o @sk_serge bem lembra, emerge como vítima inegável do Colonialismo belga. Os indescritíveis horrores ganham alguns parágrafos de destaque, por vezes até fotos das atrocidades.

Mas nada mais. Talvez Lumumba apareça depois. Mas difícil dizer.

Em livros mais atuais, o genocídio em Ruanda até ganha destaque nos capítulos finais. Mas seus desdobramentos posteriores no Congo ou mesmo em Ruanda não aparecem.

A "universalidade" da História é implacável e situa geograficamente os menos universais, inserindo-os...

...em notas de rodapé, sejam ele congoleses, argentinos, indonésios etc. Quando emergem, só podem emergir pelo seu triunfo (a luta anticolonial), mas jamais pelo que se constitui como seus impasses e seus fracassos - que nada mais são do que uma continuidade do colonialismo.

A outra camada, que não exclui a primeira, é a crítica que Serge faz à esquerda. No final, a ideia arcaica de "universalidade" nos assombra ao falar do Congo.

Por que? Porque ele se torna uma espécie de token para denunciar o imperialismo, mas rapidamente abandonado na hora...

...de encararmos os desdobramentos após os horrores de Leopoldo. E não é como se a esquerda estivesse ausente da história congolesa.

Não foi a Segunda Internacional a primeira associação a processar o governo de Leopoldo pelos horrores no Congo?

Patrice Lumumba, brilhante político e intelectual congolês, não buscou no marxismo parte da sua inspiração anti-imperialista?

Che Guevara não liderou uma missão no Congo, treinando guerrilheiros Simba?

Ainda assim, a esquerda não costuma reivindicar essas experiências. E, tanto pior, desconhecemos o brutal regime de Mobutu (e seu uso instrumental e caricato do pan-africanismo na República do Zaire). Desconhecemos o que foi a abertura do regime e suas mazelas atuais.

Para além da violência da xenofobia, relatada por Serge, até mesmo os mais atentos na geopolítica global parecem ignorar a importância estratégica da indústria mineradora congolesa - e como ela foi e é usada como garantia em empréstimos ao FMI.

Assim como os historiadores, as esquerdas não têm condições de saber toda a história do mundo, verdade.

Mas os "buracos historiográficos" padecem dos mesmos males: a crença nessa ideia de universalidade que se permite usar de qualquer história episódica ao redor do mundo para...

...poder formular uma grande síntese.

O problema é que, para além do episódio, aquelas pessoas continuam vivendo a história. E se usamos de forma tão instrumental o seu passado, até que ponto não estamos internalizando uma lógica colonialista?

Enfim, são duas reflexões que o texto do @sk_serge me provocou. Recomendo muito a leitura e espero que provoque o mesmo em mais gente.

PS: Para essas duas reflexões que montei aqui, não consigo formular nada agora exceto essas questões. Um dia quem sabe sai alguma coisa mais decente, mas por ora, leiam o Serge.

(e ignorem os jornalistas sabidinhos que dizem saber "alguma coisa", seja de Congo ou Haiti, plis)

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