Lucas Zanandrez 🔬 Profile picture
Biomedical Scientist | Creator Economy | Creative Director @olaciencia 🎬 Opinions my own #SciComm #CreatorEconomy

Sep 22, 2020, 11 tweets

Não sei se a hipótese da imunidade cruzada se sustenta. Acredito estarmos diante de uma correlação espúria. Segue o fio com os meus argumentos:

1- A queda na mobilidade humana afetou significativamente a dispersão de DENV pelas cidades. Quem transmite o vírus é o mosquito, mas quem leva de um bairro a outro? Isso mesmo, pessoas. Que durante os meses de tendência epidêmica, se trancaram em casa.
nature.com/articles/s4159…

2- Onde a incidência de dengue era maior nas primeiras semanas de surto de COVID, provavelmente houve maior queda de mobilidade causada pelos próprios sintomas da dengue, além da ordem de isolamento social. Pessoas com dengue tendem a sair menos.
journals.plos.org/plosntds/artic…

3- Ao que tudo indica, a queda na mobilidade humana somada à subnotificação (as pessoas não buscaram o hospital com suspeita de dengue por medo de pegar COVID) explica a queda drástica nas notificações de DENV a partir da semana 11 (mesma semana do início da COVID)+

3- A tendência era de alta, como 2019, mas misteriosamente, ela apresenta uma queda logo após o início dos casos de COVID. Falha das notificações nas secretarias? Pessoas deixando de ir ao hospital? Falta de digitadores afastados? Ótima linha de pesquisa.

4- Fatores biológicos: não há relação evolutiva próxima entre o vírus DENGUE e o SARS-COV-2. Portanto, é estranho imaginar uma imunidade cruzada. Isso nos leva a crer que existem fatores de confusão nessa hipótese.

5- Um deles pode ser o padrão de distribuição de casos de doença respiratória. Apesar dos estados que mais tiveram prevalência de IgM para dengue em 2019-2020 serem PR, RS, MG, SP, SC, são justamente eles que tendem a ter maior atraso no aparecimento de doenças respiratórias

5- Não consegui tirar um print do Infogripe pra mostrar isso, mas o Wanderson Oliveira deixou isso bem claro nessa live do @oatila: . A COVID parece ter seguido um padrão de doença respiratória, exceto em SP que foi o primeiro epicentro.

6- Trabalho com dados de infestação e circulação viral em adultos de mosquitos Aedes aegypti e não notamos mudanças significativas na população do vetor ou circulação viral que justifica a queda nos casos além dos motivos expostos. Quem quiser conhecer: ecovec.com/solucoes/

7- Outros fatores de confusão podem existir. E é importante termos ciência disso. Isso não invalida o estudo, afinal, ele é um estudo epidemiológico que levantou uma hipótese. Novas pesquisas irão dizer de fato se ela se confirma.

Então não! Não saia divulgando que ter dengue protege contra COVID. Isso é ótimo pra vender matéria, mas péssimo pra gestão da pandemia no país.

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