Bom dia. Ainda hoje farei o fio que prometi ontem, sobre o documento recém produzido pelo Pacto Educativo Global no Brasil. Contudo, recebi muitas mensagens pedindo que explicasse minha posição contra o debate de definição de protocolos de retorno às aulas. Então, lá vai
1) Aos apoiadores de Áurea Carolina
Vejo que muitos apoiadores da candidata à prefeita pelo PSOL em Belo Horizonte ficaram preocupados em defender Áurea depois da desastrada entrevista que deu ao jornal O Tempo.
2) Inicialmente, começaram a postar uma resposta ingênua de que o problema teria sido a manchete adotada pelo jornal. Depois, quando perceberam que este não era o problema, mas o tema que Áurea decidiu propor para debate (os protocolos de retorno às aulas), mudaram a defesa
3) Pois bem, posto mais esta mensagem sobre o assunto para que fique o mais esclarecido possível.
Sou educador freireano (fui da equipe de Paulo Freire nos anos 1980) com quase 40 anos de atuação como educador popular. Fui assessor nacional da CUT na área de formação sindical
4) No momento, sou coordenador nacional do Pacto Educativo Global, mobilização mundial liderada pelo Papa Francisco que envolve, no momento, mais de 100 entidades, movimentos e sindicatos da área. Posso garantir que sindicatos a postura de Áurea nos deixou constrangidos
5) Vou explicar onde está o erro.
Ao sugerir o tema dos protocolos de retorno às aulas, uma liderança que se candidata a dirigir uma capital cria expectativas nos pais e rebaixa a discussão sobre a gravidade da situação.
6) Não se trata de discutir protocolos, já que são definidos por questões técnicas. A Fiocruz, por exemplo, já publicou as bases para protocolos de retorno às aulas. Colocou em debate? Não. Por qual motivo? Porque se trata de um tema técnico, que exige conhecimento técnico
7) Evidente que não se trata, portanto, de "discussão" com a população. Então, ao propor o tema, o que Áurea fez? Catapultou um tema em que a população não tem conhecimento para o terreno da disputa política. É exatamente o que o setor empresarial deseja.
8) Setores empresariais querem o retorno às aulas presenciais para estancar a inadimplência que se elevou muito em tempos de pandemia. Discutir protocolos projeta subjetivamente o retorno às aulas, faz com que nossas mentes se voltem para esta possibilidade num momento de risco
9) Segundo a Universidade de Granada, cada sala de aula com 20 alunos gera 808 contatos cruzados em um dia. E, segundo estudos da Coréia do Sul, recém divulgados, 36% dos infectados são assintomáticos. Cruzem os dados
10) Cada criança que estiver numa sala de aula pode ser infectada por outra assintomática. Sem testes, não temos como garantir aos pais que não há risco de contaminação. Se esta criança infectada passar o vírus para seus avós ou alguém que tenha alguma doença crônica....
11) Então, é o caso de discutirmos, neste momento, protocolos com a população? Não. É o caso de insistirmos no cancelamento do ano letivo. Estamos no dia 26 de setembro. O calendário formal termina em dezembro.
12) As experiências de ensino remoto fracassaram. No Estado de Minas Gerais, o fracasso foi ainda maior, com acusações de plágio e incorreções técnicas e pedagógicas nas orientações da SEEMG. Acho que já basta de tentativa e erro nesta área.
13) O correto seria abrirmos o debate sobre o que nossos alunos ou famílias estão sentindo. O que Áurea, por desconhecimento ou inexperiência não fez, deveria ser: ouvir as opiniões de jovens impactados pela pandemia
14) Pois bem. Temos as sugestões que 33 mil jovens fizeram na maior pesquisa com a juventude brasileira sobre o impacto da COVID19 sobre eles, pesquisa encomendada pelo Conselho Nacional da Juventude
15) 30% dos jovens de 15 a 29 anos de idade do Brasil nem sabem se retornarão às aulas porque estão abalados pelas perdas e porque tiveram que trabalhar para ajudar na renda familiar (quase metade da população brasileira perdeu seu emprego ou renda, segundo o DIEESE).
16) Temos depoimentos de meninas sobre o impacto da pandemia. Enfim, Áurea se postou a partir da lógica tradicional da gestão educacional brasileira, o que Paulo Freire denominava de "educação bancária", aquela que desconhece e desdenha o saber e a opinião do outro.
17) Áurea, em termos educacionais, foi gerencialista, tecnocrática, vanguardista. Um erro político e educacional.
18) Quero deixar claro que se ela se retratar, tudo fica normal. Todos nós erramos, mas insistir no erro revela que não se tratou de um lapso, mas uma opção, uma estratégia.
19) Tenho 57 anos de idade. Já vi muita gente que parecia progressista se revelar confuso e, logo adiante, bandear para a direita. Vou citar um caso que acompanhei de perto: Zé de Fátima, um líder canavieiro paulista.
20) Esse líder surgiu como um raio em céu azul. Seus discursos eram incendiários. Aliás, num debate na faculdade de direito da USP, fez uma fala que foi manchete de jornais da grande imprensa no dia seguinte.
21) Perguntado sobre quais eram seus trunfos para se impor junto aos donos de usinas de álcool, Zé de Fátima levantou uma caixa de fósforos e disse: "isso aqui", indicando que poderia transformar plantações em grandes fogueiras.
22) Pois bem, Zé de Fátima era um pouco confuso, mas uma corrente trotskista se lançou à ele para enquadrá-lo e ganhar espaço com sua imensa popularidade. Zé de Fátima enfrentou percalços e acabou com Maluf. Veja o vídeo:
23) Áurea errou. Errou imensamente. Levantou a lebre que os setores insensíveis da educação em nosso país desejam que esteja no centro do banquete da transformação da educação em mercadoria. Foi ingenuidade? Inexperiência? Esperteza em excesso? Tática equivocada?
24) Áurea errou como candidata da esquerda da cidade em que vivo há quase 3 décadas. Deve se retratar. Deve, ao menos, ouvir pessoas experientes e lideranças da área educacional. Deve ouvir quem será afetado por esta discussão que propõe, muito antes dela fazer tal proposta.
25) Não podemos tergiversar. O mínimo que exigimos, nós que dedicamos nossa vida à educação pública que é, muitas vezes, a única esperança de mudança de vida para os mais pobres, é que Áurea se retrate. Diga que não estava num bom dia, que não entendeu a pergunta ou que errou.
26) Este tema que propôs vale vidas. Sua retratação vale a clareza que toda esquerda deve ter para com a população. É assim que a esquerda deve agir: disputando ideias e projetos do lado certo, não do lado do marketing. (FIM)
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