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Trabalho com dados no @Flamengo teofb7@gmail.com

Sep 26, 2020, 15 tweets

Pelo jeito, o futebol brasileiro decidiu que vale a pena ter um jogo em que o assunto menos discutido, o que menos importa, é o futebol. O tal jogo jogado. Aquilo que deveria ser o mais importante.

É o que acontece quando fazemos as perguntas erradas...

Pelo jeito, o protocolo atual prevê todo tipo de situação, menos uma: surtos coletivos dentro de um elenco.

Pelo que tem sido dito, não há plano para esses casos, não há diretrizes claras, não há linha de corte, objetividade.

Acontece que estamos lidando com um tipo de problema específico: é um problema encadeado.

Isso significa que cada pessoa só é infectada pela pessoa ao seu lado. Ou seja, os casos não aparecem de maneira uniforme e aleatória por aí.

Portanto, se eu te disser que "5% da população está infectada", isso não significa uma distribuição homogênea, em que há uma chance grande de cinco pessoas estarem infectadas em cada grupo de cem.

O mais provável é que alguns grupos tenham zero casos e outros tenham muitos casos

Entender a natureza do problema é fundamental. Há semanas muita gente questiona: "Alguns times não têm nenhum caso, outros têm muitos! Esses clubes não estão se cuidando!"

Mas salto de 0 para 1 caso é maior que o salto de 1 para 10.

Afinal, se não há ninguém infectado, não há como se infectar. Mas quando o vírus entra (e ele pode entrar de várias formas, não adianta ficar tentando ADIVINHAR) e se instala, haverá um surto localizado.

O protocolo de testagem constante é importante justamente para isolar o primeiro caso rapidamente e não deixar o vírus se instalar. Mas a partir do momento que essa parte do protocolo falha (por qualquer motivo), HAVERÁ um surto localizado.

O protocolo não imagina essa parte?

Partimos, então, para o julgamento caso a caso. A decisão do STJD tem parágrafos e mais parágrafos sobre o "protagonismo do Flamengo na volta dos jogos" e o "poder econômico do clube", o que mostra o caráter político da decisão, muito além do debate objetivo sobre o coronavírus.

O que é no mínimo curioso. Afinal, no confronto entre Palmeiras e Flamengo, parece só haver uma coisa menos importante do que o futebol dentro de campo: a saúde das pessoas infectadas.

Quando o debate num campeonato em pandemia não prioriza a saúde e nem a bola, há algo errado.

Na verdade, me parece que perdemos a capacidade de fazer debates profundos e objetivos.

Cada um tem a sua opinião (não necessariamente alinhada com a realidade) e o que acaba decidido é apenas a opinião de quem tem a canetada mais forte (ou a última canetada) em cada caso.

Na minha humilde opinião, não estamos fazendo as perguntas certas.

Em vez de "quando os jogos voltarão?", a pergunta deveria ser "quais parâmetros garantiriam uma volta segura?"

A resposta não é "amanhã" ou "semana que vem", mas "quando a realidade permitir"

Com parâmetros objetivos definindo que realidade é essa, ficaria claro quando voltar.

O mesmo acontece agora. A pergunta não deveria ser "deve ter jogo?", mas "quais são as condições seguras para que um jogo aconteça?"

A resposta nunca seria perfeita. Afinal, há uma preocupação importante sobre como são definidos esse parâmetros.

Mas pelo menos teríamos clareza, transparência e algum nível de consenso.

Não tentaríamos adaptar a realidade à nossa resposta pré-definida sobre "voltar ou não voltar", "ter jogo ou não ter", mas adaptar as nossas respostas à realidade.

Posso estar louco, mas me parece mais lógico.

Mas não. Mais uma vez, vamos no caso a caso. Vamos fazer política, com cada um buscando uma caneta mais poderosa para representar seus interesses.

Não importa a decisão final, ela já nasce errada.

Quem não faz boas perguntas nunca encontra boas respostas...

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