Rudá Ricci Profile picture
Sociólogo, trabalho com educação e gestão participativa. Presido o Instituto Cultiva

Sep 27, 2020, 11 tweets

Nessa discussão sobre a suspensão do ano letivo (ou o seu cancelamento), aparece um argumento-mito que o diploma é importante para pobres conseguirem emprego. É preciso ter clareza sobre este vínculo entre educação e mercado de trabalho. Segue um mini-fio

1) Enquanto no mundo a taxa de desemprego de mestres e doutores é de 2%, aqui no Brasil é de 25%. Por quê? Porque somos produtores de commodities que exige baixa qualificação profissional
correiobraziliense.com.br/app/noticia/br…

2) Já postei agora há pouco, mas vale a pena repetir: por ano, 900 mil pessoas se formam na faculdade. Em 2016, o volume de empregos encolheu 1,9 milhão de vagas. O DIEESE, este ano, já divulgou que 70 milhões de brasileiros perderam o emprego e/ou renda.

3) Então, por qual motivo se insiste nesta relação entre educação (não treinamento ou instrução) e emprego? Por qual motivo nos jogamos nesta insistência em criar tal promessa?

4) A questão é importante porque percebam que esta linha de argumentação é a principal para refutar a suspensão deste ano letivo ou seu cancelamento. Alguns dizem que será uma perda irreparável. De onde tiram tal conclusão? Qual experiência histórica corrobora tal ilação?

5) Educação é formação para a autonomia, para a socialização no mundo construído pela humanidade. Precisamos ter acesso ao que outros humanos escreveram ou registraram na música, na poesia, nos filmes, na dança, nos livros.... E... sermos estimulados a resolver dilemas

6) Lawrence Kohlberg pesquisou sobre os dilemas morais que incitam a todos a desenvolver o senso de justiça (para citar um exemplo). Pois bem: fizemos isto neste ano de pandemia? Para que a pressa em concluir um ano letivo feito aos trancos e barrancos?

7) Alguns, revelando dificuldades em pensar educação como projeto societal, afirmam que aqueles que tiveram aulas estarão prejudicados. Prejudicados no quê? Estudar prejudica? Só vale estudar se tiver certificação? É isso que ensinamos às crianças e adolescentes?

8) Então, vale o pé no freio. Vale estudar como retornar às aulas. Tantas crianças e adolescentes afirmam que estão abaladas, que suas famílias perderam renda, emprego ou entes queridos. Vamos pular esta parte da vida e partir para o que vai cair no ENEM? É isso?

9) Não. Educação é muito mais que certificação. E não estudamos para sermos premiados. Estudamos para aprender com o outro, para nos inserir num projeto humano, para dialogar com diferentes, pensar nos desafios coletivos e sair da bolha

10) Termino este brevíssimo fio para pedir mais responsabilidade e profundidade quando pensamos um projeto nacional de educação. Que bebamos na sabedoria de Paulo Freire e Anísio Teixeira. E esqueçamos os manuais e protocolos de vida curta. (FIM)

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