Prometi um fio para indicar as imensas dificuldades para analisar as eleições municipais deste ano. Então, lá vai fio.
1) A primeira grande dificuldade são os resultados de pesquisa de opinião neste momento da pandemia. Acabamos de ver o estrago: IBOPE publica uma pesquisa sobre apoio ao governo Bolsonaro (em 40%) e, logo em seguida, vem o da Época (35%) que refuta a do IBOPE. O que aconteceu?
2) Em tempos de pandemia, as pesquisas estão sendo feitas por telefone. Ocorre que poucos brasileiros possuem telefone fixo e por celular, não há garantias da veracidade da resposta. Pior: dificilmente se faz "checagem". É comum, em survey, que 10% a 20% sejam revisitadas
3) Sem checagem, não sabemos se houve fraude, se houve erro de aplicação, se o questionário foi aplicado por inteiro. Fui técnico-supervisor da pesquisa de emprego e desemprego da Fundação SEADE-DIEESE. Cheguei a demitir pesquisador e cancelar um lote todo de questionários
4) Sem checagem, pesquisa vira cuspe para cima aguardando que caia longe de nossas cabeças. A solução é analisar a série histórica, a tendência que se percebe a partir da sequência de pesquisas sobre mesmo tema ou assunto.
5) Mas, temos outro grande problema: a dança de cadeiras nos partidos. Com a lambança que a Lava Jato fez em todo sistema partidário (praticamente desmontou a estabilidade do sistema que, até então, se organizava a partir do PMDB, PSDB e PT), muitos políticos bandearam de partido
6) Então, temos situações em que ex-petistas foram para o PDT; ex-comunistas ou socialistas foram para o PMN ou partidos de pouca expressão. Temos, ainda, candidatos de partidos que estão na esfera de governos estaduais que nem sempre acompanha o alinhamento nacional
7) Vou dar um exemplo em relação a este último fenômeno: o candidato a prefeito do Podemos em Salvador é o deputado federal Bacelar. O PT lançou candidata por lá, mas o governador foi na convenção do Podemos e disse que Bacelar é seu candidato, também. E, autorizou dizer isso
8) Então, para um analista das eleições, é preciso ter uma tabela de dados sobre esses cruzamentos que não se alinham com teses gerais ou teorias de enquadramento de partidos num modelito ideológico ou programático
9) Há, ainda, uma característica importante em relação às eleições municipais brasileiras. Apenas 26% dos municípios brasileiros são nitidamente urbanos, segundo o IBGE (60% são rurais ou muito distantes dos centros urbanos. Mais: 22% dos municípios possuem até 5 mil habitantes
10) A grande maioria dos municípios depende de repasses de recursos federais ou estaduais: 70% das prefeituras só conseguem abrir suas portas se receberem em dia o Fundo de Participação dos Municípios (FPM). Os municípios com menor IDH dependem das aposentadorias e pensões
11) Então, não há alinhamento entre eleição municipal e a eleição de 2022, ao menos na grande maioria dos municípios. Vejam que Haddad ganhou na maioria das cidades brasileiras e não levou. Eleição municipal tem relação com a demanda familiar ou de bairro. Não com ideologia
12) Será diferente nas capitais e grandes centros urbanos. Mas, mesmo nesses grandes centros urbanos, o que parece cada vez mais nítido é que a sobrevivência em tempos de queda de renda familiar e perda de emprego será a tônica do pensamento do eleitor.
13) Então, temos dois polos temáticos ou de preocupação do eleitor em 2020: a) tentar negociar alguma vantagem já que é um raro momento em que poderosos ou candidatos a poderosos estarão pedindo algo para ele e; b) a sua situação econômica e a estabilidade de sua família
14) Isso significa que seu humor estará vinculado ao tamanho de sua crise familiar ou pessoal: se o preço da cesta básica continuar aumentando ou caindo; se sua família continuar tendo renda em queda ou estabilizada; se o presente se tornar um inferno ou um purgatório
15) Estes dois polos da preocupação do eleitor alimentarão sua revolta ou mansidão, sua alegria com o presente ou sua intenção de punir responsáveis por suas agruras. O que faz do acompanhamento das eleições uma leitura diária dos indicadores
16) Enfim, as eleições 2020 têm tudo para desencadear emoções quentes, decepções arrasadoras e busca de informações como corretores de investimentos em ações: uma situação nova e o as apostas serão outras. (FIM)
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