(AJS) Batata Amaral PhD, DSc, MSc, MSc, MSc, MBA Profile picture
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Sep 28, 2020, 38 tweets

Assimetria Sexual na Composição de Ancestralidade Populacional — THREAD

Desde o início da década de 2010 várias regiões do mundo investigaram a ancestralidade populacional em grandes áreas. Há tantos artigos a respeito da Europa Ocidental que o tema já saturou por lá.

O Brasil carecia, e ainda carece, de bons estudos em GRANDE escala, mas recentemente a USP publicou um artigo com amostra relativamente grande e cobertura relativamente detalhada do genoma "brasileiro" = aspas porque a amostra, por enquanto, ainda é bem diminuta.

Estudos deste tipo ajudam a revelar fenômenos interessantes em escala populacional, como por exemplo:
— a estrutura da composição das populações ancestrais em relação à população atual;
— houve seleção geno/fenotípica? quando e como?

Sobre os resultados diretos da genética, pode-se inferir certos fenômenos sociais que viabilizaram a composição da ancestralidade. Eles esclarecem e detalham fenômenos que, no nosso caso, são moderadamente conhecidos pelo registro histórico de ocupação e colonização do país.

Supõe-se que todos saibam que o Brasil foi colonizado por europeus, que introduziram também linhagens humanas oriundas da África Ocidental Sub-Saariana e, mais recentemente, uma diversidade grande de europeus e asiáticos nas grandes cidades.

Então não é exatamente novidade que estudos de genética populacional encontrem:
— ancestralidade européia;
— ancestralidade africana;
— ancestralidade do Oriente Médio;
— ancestralidade indígena;
— ancestralidade do extremo leste da Ásia;

Em diversos momentos históricos, várias populações ao redor do mundo apresentaram assimetria sexual na ancestralidade em razão de ondas migratórias mediadas por paulatina ocupação territorial através de composição mista de casais (aka miscigenação).

Pra quem ñ lembra do que aprendeu no maternal ou no pré, humanos tem o material genético autossômico (aDNA), majoritariamente indiferente ao sexo, e dois marcadores uniparentais: o cromossomo Y, que passa de pai pra filho e o DNA mitocondrial(mtDNA), que passa de mãe pra filho/a

Toda pessoa herda da mãe o mtDNA, então você tem o mesmo mtDNA da sua mãe/avós/bisavó... e mutações neste material permitem reconstruir uma árvore filogenética da ancestralidade específica pela linhagem feminina.

Todo homem (e certas pessoas trans :p ) herda exclusivamente do pai o cromossomo Y. Então se você é XY, seu Y é o mesmo do seu pai/avô/bisavô... e mutações neste material permitem reconstruir uma árvore de ancestralidade específica pela linhagem masculina.

Enquanto isso, todo o resto do genoma, o aDNA, permite reconstruir a composição parcial de ancestralidade populacional (reconstrói aproximadamente a participação de grupos distintos de pessoas cruzando e tendo descendentes).

Técnicas estatísticas refinadas permitem inferir, inclusive, o período aproximado em que houve os eventos de miscigenação e por quanto tempo.

Agora, vamos imaginar alguns cenários simples, que nos ajudarão a compreender os resultados...

Imaginemos que num lugar qualquer haja uma população original B. Nalgum momento, algumas pessoas de outra população, aqui chamada de população A, chegam neste mesmo território.

A interação histórica entre A e B pode ser inferida através da genética.

Se as pessoas de A e B nunca ou quase nunca interagirem entre si, tempos depois as pessoas oriundas de B terão majoritariamente aDNA semelhante aos ancestrais B, enquanto as pessoas oriundas da população A terão majoritariamente aDNA semelhante aos ancestrais A — trivial, né.

Se as pessoas das populações A e B interagirem, e por interação entenda SEXO, meteção, tchuca-tchuca-na-butchaca, afogamento de ganso, haverá ao menos uma população C composta da miscigenação entre A e B.

Simples? Sim, simples.

Mas alguns fatores determinam esta interação e sua inferência a partir dos descendentes. Como por exemplo:
— o tamanho de cada população
— a taxa de reprodução de cada população

Populações maiores tendem a ser melhor representadas do que menores, na descendência. Ou seja, se A>>B, e todo mundo de B tiver filhos com alguém de A, no futuro a população C terá maior participação da ancestralidade A do que de B, porque havia mais gente do tipo A.

Populações que crescem mais rápido tendem a deixar mais descendentes do que as que crescem mais devagar. Então se 50% das pessoas de B tiverem filhos com pessoas de A, mas as pessoas de A se multiplicarem 3 vezes mais rápido,...

... no futuro haverá uma população C com maior ancestralidade autossômica (aDNA) de A do que de B.

Se A e B forem mais ou menos do mesmo tamanho, se reproduzirem mais ou menos à mesma velocidade e se misturarem de maneira mais ou menos aleatória, então...

... se espera que haja no futuro uma população C aproximadamente composta 50% por A e 50% por B, e cujos marcadores uniparentais sejam aproximadamente 50% de cada população ancestral.

As diferenças em relação a estas situações simplificadas indicam complexidades.

Pois bem. O estudo mostra que a ancestralidade uniparental masculina indígena (as linhagens indígenas do cromossomo Y) são bem pouco frequentes na população brasileira atual e que a ancestralidade uniparental feminina indígena (mtDNA) é relativamente frequente.

Esta é a tal assimetria sexual na ancestralidade uniparental da população brasileira: menos de 1% dos cromossomos Y vem dos indígenas e perto de 30% do mtDNA vem dos indígenas.

Isso indica que muitos homens europeus tiveram descendentes com mulheres indígenas...

... mas pouquíssimos homens indígenas tiveram descendentes com mulheres européias.

Não é um resultado surpreendente. Sabemos de antemão que, ao menos no início da colonização, a enorme maioria dos europeus que vieram pra cá era de homens solteiros.

E como homem não se reproduz com homem, além de que mulher não brota da costela (ah, se brotasse!), ou esta população européia se extinguiria ou arranjaria descendentes com mulheres autóctones.

Resultado completamente esperado.

Como populações agrárias se reproduzem a uma taxa maior do que a de caçadores-coletores ou dos povos que praticam agricultura rudimentar, obviamente a população europeizada superaria a autóctone em pouco tempo.

Mas sabemos que houve uma interação não completamente pacífica.

Não terminou ainda, só cheguei no limite de tweets em sequência.

Pessoal anda argumentando que a assimetria sexual é prova INEQUÍVOCA de que a população brasileira é MAJORITARIAMENTE descendente de ESTUPROS de mulheres indígenas.

E isso não é verdade!

É bastante ÓBVIO que houve estupros de mulheres indígenas. É óbvio que houve mulheres abduzidas e tratadas como espólio de guerra/escravas sexuais. E é óbvio que houve casamentos arranjados entre líderes tribais e líderes dos imigrantes europeus.

ENTRETANTO:

1) crianças indígenas fruto de estupro não eram, na enorme maioria das vezes, criadas por seus pais europeus/europeizados: logo a maioria dos brasileiros não descende destes estupros, porque a maioria dos brasileiros descende da população europeizada, não da indígena

2) os casamentos arranjados e as crianças fruto de mulheres abduzidas eram uma minoria: apenas os homens com maior status e prosperidade tinham como oferecer acordos para chefes de tribo, e só o comando militar (não o soldado comum) tinha direito a espólio.

2.1) portanto a maioria dos brasileiros não descende de uma minoria de homens com o status mais elevado entre seus pares.

Se o brasileiro não tem ancestralidade recente das populações indígenas remanescentes, a maioria delas em reservas, ele descende das populações europeizadas.

E nestas populações europeizadas os soldados rasos e pequenos agricultores eventualmente se casaram com indígenas ou descendentes de indígenas, mas eram casamentos voluntários.

Várias tribos estabeleceram relações amistosas com os povoamentos de origem européia, até porque era uma forma de conseguir apoio militar e econômico contra as outras tribos inimigas. Conforme doença, guerra e escravidão se alastravam entre as comunidades indígenas hostis...

... parecia cada vez melhor a perspectiva de futuro de uma mulher de tribo aliada se casar com um europeu/descendente de europeu, pois seus filhos não seriam escravizados ou mortos — e isso vale como defesa contra outras tribos indígenas.

A enorme maioria dos homens europeus ou descendente de europeus no início da colonização tinha baixo status e sequer teria como tomar pra si uma esposa vinda de espólio de guerra ou convencer um líder tribal a fazer uma aliança com casamento: eles ñ tinham tudo isso pra oferecer.

Mas acontece que, para as tribos aliadas dos povoamentos europeizados, os homens europeus e seus descendentes ofereciam melhores perspectivas de futuro para as mulheres indígenas e seus futuros filhos do que os homens indígenas da mesma tribo.

E as poucas mulheres europeias inicialmente trazidas ou aqui nascidas eram esposas e filhas dos homens de maior status, e elas obviamente não estariam disponíveis, em sua maioria, para os zé-ninguém europeizados ou indígenas.

Então a assimetria sexual dos marcadores uniparentais indígenas marca, SIM, uma interação complexa e conflituosa entre europeus e indígenas, mas NÃO indica que a maioria dos brasileiros descende de estupros ou escravidão.

E por aqui dá pra botar um FIM neste looooooooooongo "fio"...

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