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Sep 30, 2020, 25 tweets

Na base Lincoln era considerado diferente. “Centroavante como poucos”, diziam. Hoje com apenas 19 anos e já há 3 anos no elenco profissional, @Lincoln9 paga por ter passado por uma das piores transições base-profissional que o Flamengo já fez. Segue o fio...

Lincoln iniciou sua trajetória no Flamengo em 2011, quando tinha 11 anos de idade. Com 1 ano de clube, aos 12 anos, já fechava seu primeiro contrato de patrocínio com uma fornecedora de material esportivo.

Nessa época já mostrava ser diferenciado e com 13 anos já era convocado para seleção de base e pulou sua primeira etapa, subindo direto para o sub-15. Assim começa sua saga de pular etapas de formação. Mas por que isso pode ser tão prejudicial?

A formação de um atleta passa por uma curva de aprendizado ao longo de sua infância e adolescência. Entre os 5 e 10 anos de idade ocorre um trabalho para evolução na coordenação e controle motor, facilitando a aprendizagem de habilidades motoras cada vez mais complexas.

Durante a puberdade, entre 11 e 16 anos, temos uma das fases mais complexas na evolução de um atleta do sexo masculino. Trata-se de uma fase em que a maturação biológica varia de indivíduo para indivíduo, influenciada pela singularidade genética.

A idade para maturação biológica varia para cada ser-humano, sendo considerada precoce quando ocorre aos 13 anos, normal entre 13 e 14 anos e tardia quando ocorre após os 14. Graças a essa variação, o atleta pode ter desvantagem ou vantagem física dentro da sua categoria.

Lincoln pode ter tido maturação biológica precoce e isso explicaria pular direto para o sub-15 com apenas 13 anos, mas as quebras de etapa mais complexa ainda estavam por vir e em 2016, com só 15 anos, Lincoln já integrava o elenco sub-20.

Gilmar Popoca subiu Lincoln de categoria para jogar a Copa RS, onde marcou gols, se destacou e virou titular, mesmo jogando contra atletas 4 anos mais velhos. Na época, nem o gênio da base Vinicius Jr era titular da equipe ainda.

No início do ano seguinte, com 16 anos, jogou sua primeira Copa São Paulo de Futebol Júnior e de novo como titular. Foi peça importante na conquista do tetracampeonato do Fla na competição e, apesar de ter marcado apenas um gol no campeonato, teve bastante destaque.

Mas é ainda em 2017 que o Flamengo empurra Lincoln pra dar o maior salto na carreira. Ainda com 16 anos e com menos de 1 ano no sub-20 (!), Lincoln sobe e integra de maneira definitiva o elenco profissional.

Na época, Guerrero acabara de ser suspenso dos gramados com problemas de antidoping e o Flamengo tinha apenas Felipe Vizeu como centroavante, inclusive tendo que improvisar Lucas Paquetá na posição algumas vezes.

Dentro desse contexto, fica muito claro que a subida do Lincoln se deu por necessidade e não por maturidade. Se o salto do sub-17 para o sub-20 já é grande e muitos garotos sentem, o salto para os profissionais é determinante na carreira de um jogador.

Muitos nem conseguem chegar nesse nível e são obrigados a desistir do sonho e seguir outros rumos profissionais. Quem trabalha com futebol de base diz que a estatística é de menos de 1% dos jovens conseguindo se tornar profissional e jogar competições de alto nível.

Após 4 jogos sendo relacionado, Lincoln já fizera sua estreia e atuara por 25’ na vitória por 3x0 contra o Corinthians no BR17. Lincoln ainda entraria em mais 3 jogos até o final daquela temporada, sendo um desse jogos a fatídica final da Sul-americana contra o Independiente.

Do início de 2018 até hoje, Lincoln foi praticamente esquecido no elenco. No período, o Flamengo fez diversas contratações para a posição. Henrique Dourado, Uribe, Gabigol, Pedro... Lincoln era sempre preterido e mal recebia oportunidades.

Foram apenas 1259 minutos em campo em três anos como profissional. Menos de 14 partidas completas. Tudo isso entre 16 e 19 anos, fase determinante na evolução profissional de qualquer jogador de futebol.

Os gols contra Grêmio e Botafogo talvez sejam os momentos positivos mais marcantes na sua carreira. Mas a verdade é que na maioria das oportunidades que teve demonstrou fragilidades técnicas e táticas que escancaravam o erro na transição precoce para os profissionais.

Aos olhos mais cuidadosos e otimistas, Lincoln chegou a apresentar certas qualidades interessantes para um menino de tão pouco idade. Desmarques de ruptura, finalização, drible e qualidade para ajudar na construção fora da área são algumas dessas valências.

Mas a verdade é que Lincoln deixou de evoluir fundamentos técnicos e físicos importantes na base para ficar apenas completando o time de reserva nos treinamentos. Já são 3 anos integrando o elenco profissional. 3 anos de um tempo que não volta mais.

Nesse tempo, diversos clubes o procuraram para tentar sua contratação por empréstimo, mas o Flamengo nunca quis fechar negócio.

Hoje com 19 anos, Lincoln continua sem espaço no Flamengo e para muitos, já não presta mais. Para esses, eu peço que façam a seguinte reflexão. Muitos meninos da base do Flamengo jogaram contra o Palmeiras graças aos casos de COVID que acometeram o elenco profissional.

A grande maioria deles sequer faz parte do elenco profissional. Nunca haviam jogado no profissional. Agora reparem na idade desses meninos. Richard Rios tem 20. Guilherme Bala, Natan, Ramon e Yuri tem 19. Todos têm a mesma faixa etária de Lincoln.

Todos ainda buscam conseguir seu espaço nos profissionais e aspiram um grande futuro pela frente. O problema é que os mesmo que dizem que Lincoln já não presta, dizem que esses outros meninos são muito jovens e que podem mostrar oscilação.

Mas Lincoln, não. Esse já não pode mais oscilar ou errar. As pessoas se deixam levar pelos 3 anos perdidos nos profissionais de um Lincoln que queimou muitas etapas e que mostra muita dificuldade para se firmar por conta disso.

Então, antes de sair esbravejando por aí querendo encerrar a carreira do rapaz tão precocemente, lembrem: Lincoln ainda está na mesma faixa etária de todos os outros meninos que você defendeu no jogo contra o Palmeiras e, portanto, deveria receber o mesmo carinho e paciência.

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