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Journalist, author of Guia Politicamente Incorreto da História do Brasil, 1 million copies sold. Pronouns: Vossa Alteza, Your Highness. ;)

Sep 30, 2020, 12 tweets

Ao visitar o Brasil, entre 1817 e 1822, o botânico austríaco Johann Emanuel Pohl relatou um fato surpreendente na cidade de Goiás. Segundo ele, muitas mulheres brancas eram mais pobres que as negras e tinham vergonha disso.(+)

“Para estes [brancos] é rezada uma missa às 5h da manhã. Nela aparecem as brancas empobrecidas, envoltas num manto de má qualidade, para não se exporem aos olhares desdenhosos das negras que aparecem mais tarde e entram altivamente ornadas de correntes de ouro e rendas", disse.

Pouca gente levou a sério o que ele disse – acharam que o gringo entendeu errado o que lhe relataram. Mas análises recentes de testamentos e cartas de alforrias revelaram centenas, milhares de ex-escravas mais ricas que a média da população da Bahia, MG e RJ.

A historiadora Sheila do Castro Faria concluiu que as negras libertas eram o segundo grupo social mais rico de algumas cidades mineiras. Perdiam somente para os homens brancos. Se isso valia para MG, talvez também fosse verdade para a Goiás que Pohl visitou.

Uma análise de 600 testamentos mostrou que homens livres eram os mais ricos na vila mineira de Rio das Velhas. Em segundo lugar, ficavam as mulheres libertas. Na lista da arrecadação de impostos de Vila Rica, ex-escravas ficavam em segundo lugar entre os maiores contribuintes.

Muitas negras se encaixam na descrição do austríaco. Ana Trindade foi levada à Bahia no final do século 18 e logo começou a trabalhar como escrava de ganho – pagava um valor diário ou semanal a seu senhor para poder trabalhar por conta própria.

Em 1807, já livre e dona de 3 escravas, vendia comida de porta em porta. Emprestava dinheiro para comerciantes (entre eles, comerciantes de escravos). Ao morrer, tinha 9 escravos, joias de ouro, uma casa de 3 andares com janelas de vidro (luxo na época) e uma loja no térreo.

As libertas eram em média mais ricas que os libertos. Como Fortunata Maria da Conceição, que em 1848 pediu divórcio de seu marido. Disse nos autos que “não só cumpria todos os deveres de mulher casada, mas também..."

"... ganhava para manter a si e ao réu seu marido, sem dar motivo algum a este para a maltratar”. Já o marido, segundo ela, “não tinha ocupação honesta, não trabalhava e nem cuidava de ganhar a vida, e só tratava de destruir e esbanjar o que a Autoria adquiria por seus suores”.

Lívia Maria da Purificação, do RJ, tinha doze escravos, joias e uma boa poupança. Em 1857, comprou a alforria de Amaro José de Mesquita e casou com ele. Três meses depois, pediu o divórcio da Justiça Eclesiástica: provavelmente ele só queria se aproveitar do dinheiro dela.

Essas e outras histórias deliciosas estão no meu último livro, "Escravos: a vida e o cotidiano de brasileiros esquecidos pela história":

Fontes: Johann Pohl, "Viagem ao Interior do Brasil". Sheila do Castro Faria, “Cotidiano dos Negros no Brasil Escravista”, Vilmara Lucia Rodrigues, "Negras Senhoras: o universo material das mulheres africanas forras", e "Mulheres negras no Brasil escravista e do pós-emancipação".

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