O Flamengo ficou muito acuado no segundo tempo contra a LDU e não conseguiu colocar a bola no chão. Quando conseguiu, saiu o pênalti que selou a vitória.
Vale a pena olhar esse lance nos mínimos detalhes, porque tem muita coisa interessante.
Depois de um domínio completo no primeiro tempo, ditando todo o ritmo do jogo e mantendo a bola, vários fatores influenciaram nessa dificuldade de ficar com a posse no segundo.
Um deles foi a mudança de goleiro.
Com a maior pressão da LDU, o Flamengo tinha menos espaço para sair. Quando iniciava as jogadas lá de trás, tinha Hugo — e não mais Diego Alves —, que tem uma notória dificuldade com os pés.
Os tiros de meta passaram a ser longos e a zaga também só aliviava com chutões.
Tudo que vai, volta. As bolas longas do Flamengo batiam na defesa adversária e ficavam com a LDU, que vinha para cima mais uma vez.
O Flamengo roubava, precipitava um lançamento, perdia a bola e tinha que defender a área de novo, e de novo, e de novo...
A dez minutos do fim, no entanto, o Flamengo colocou a bola no chão, esfriou a jogada e voltou com o goleiro, construiu de pé em pé e gerou um pênalti.
Vamos passo a passo... Vitinho rouba a bola no meio-campo e arranca para o contra-ataque.
Como aconteceu diversas vezes no segundo tempo, BH e Gabigol estavam no mano a mano. Mas o Flamengo estava precipitando muitas jogadas, então ele decidir parar, esperar e tocar para Diego.
O Flamengo finalmente diminui o ritmo e começa a se organizar, mas a LDU também.
Não há vantagem nenhuma para tentar progredir, então Diego volta para Filipe Luís, que recua para Hugo.
Agora com bastante espaço, o goleiro opta por esperar em vez de dar um chutão aleatório.
E aqui começa uma busca pela tal vantagem para progredir.
Recuar para o goleiro não pode ser uma brincadeira de batata quente. Não é para se livrar do problema. É sobre atrair e manipular.
Só os zagueiros têm espaço, então Hugo toca para Gustavo Henrique.
Curiosamente, ponto mais importante do lance foi, na verdade, a consequência de um erro. Sem espaço, GH devolve para Hugo, mas o passe sai horroroso. Isso induz o adversário a subir a marcação.
Em vez de dar um bicão e pagar esporro, o goleiro toca para Arão e recebe de volta
Já sob uma pressão maior, Hugo de novo opta por não bicar, toca calmamente para GH, que arma um chutão, mas acalma a bola e gira para dentro.
Com essa possibilidade de bola longa, o volante que estava colado em Diego recuou. A vantagem está criada e agora é uma reação em cadeia.
Agora o meio-campo da LDU está no mata-burro: não está pressionando Diego, nem posicionado atrás para bloquear o ataque. Há um buraco na esquerda, onde está Filipe Luís.
Aquela vantagem criada na saída de bola vira 2-contra-1 pelo lado. Arrascaeta e Gabigol estão no mano a mano.
Eles sabem exatamente o que fazer nessa situação: dividir para conquistar. Cada um ataca um corredor. Filipe Luís trás a bola por dentro enquanto BH ataca por fora. Abre-se um clarão para Arrascaeta infiltrar, receber o passe e o pênalti que sela a vitória.
Sair com o goleiro não é perfumaria. É estratégia para gerar desequilíbrio e vantagem.
Hugo tem problemas nesse aspecto — e esses problemas apareceram ontem. No lance que decidiu o jogo, no entanto, sua participação foi simples, mas certeira e importante. Merece o elogio!
A gente sempre fala na importância do "último passe" no futebol, mas às vezes o "primeiro passe" é ainda mais fundamental.
Ou pelo menos o primeiro movimento, para gerar aquela vantagem inicial.
Para chegar bem na frente, é preciso sair bem de trás.
Talvez tenha sido o primeiro momento em que o time conseguiu calmar o ritmo, não precipitar a jogada e procurar os espaços no segundo tempo.
Estava difícil, a pressão da LDU era realmente intensa e altitude atrapalhava. Quando o Flamengo conseguiu "ser Flamengo", matou o jogo!
Falei em detalhes sobre esse lance — e de maneira mais geral sobre o jogo — lá no Youtube. Dá uma conferida!
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