Por que o Flamengo goleia tanto? - PARTE 3: O QUE OS NÚMEROS DIZEM
Os números não são o jogo em si, mas ajudam a entender o que se passa dentro de campo. É preciso ter cuidado, colocar tudo em contexto, mas dá para entender muita coisa a partir deles. Vamos ao mergulho!
A PARTE 1 () foi sobre o estilo de jogo e as mudanças no time. A PARTE 2 () foi sobre o contexto que se cria nas partidas, especialmente depois do primeiro gol.
Dos 14 jogos disputados pelo Flamengo sob o comando de Renato Gaúcho, 7 foram pelo BR21 e 7 em competições de mata-mata (Libertadores e CdB). Como o time tem se comportado de maneira diferente, a ideia aqui é olhar para esses números de maneira separada.
Claro, trabalhar com um conjunto de 7 jogos não é ideal. Não é uma massa de dados suficiente para tirar muitas conclusões, já que a amostragem pequena. Um jogo ruim pode puxar os números para baixo e um jogo bom pode puxar para cima...
Mesmo assim, combinando os dois grupos de jogos, acho que dá para apontar coisas interessantes.
Não comparando um com o outro, mas sim comparando com todos os outros times do Brasileirão (que já tem quase um turno completo) para termos o contexto.
Portanto, não adianta dizer que o Flamengo marcou 3,57 gols por jogo nas Copas e que isso é maior do que os 2,86 marcados no BR21 com Renato. O importante é visualizar quão alto esses dois números são!
As tabelas completas do BR21 levam em consideração todos os jogos do Fla (8 com Rogério, 1 com Maurício e 7 com Renato). Portanto, quando o número mostrando em RG (BR21) for maior, significa que a passagem de Renato está puxando o valor para cima. Quando for menor, o contrário.
Além do ataque avassalador, o Flamengo manteve a mesma média do início na defesa: 1 gol sofrido por jogo. Mas nas Copas o valor é baixíssimo!
Vamos tentar entender os porquês...
O time se mantém com a maior média de posse no BR21, mas nas Copas fica um pouco menos com a bola no pé.
Mais legal que isso, o Flamengo é o time que tem posses mais longas e contínuas, mas nas Copas o ataque é um pouco mais picotado.
O número de passes também mostra essa diferença entre Brasileirão e Copas. São quase 100 passes a menos tentados entre um tipo de jogo e o outro.
O Flamengo também sobe muito para fazer uma marcação-pressão no BR21, mas faz isso menos nas Copas.
Tudo isso aponta para aquela diferença de um time mais recuado, com um bloco mais baixo, buscando explorar contra-ataques...
Diferente do que pode parecer, porém, o Flamengo atual não cria, em números absolutos, mais oportunidades de contra-atacar do que antes, nem no BR21 e nem nas Copas.
A eficiência dos contra-ataques segue muito alta, mas aqui precisamos tomar cuidado com a amostragem baixa.
Contra os dois adversários mais físicos que enfrentou, o Fla teve dificuldade de encaixar contra-ataques.
Finalizou 1 de 11 contra o Ceará e 0 de 9 contra o Inter.
O que esse time tem feito é arriscar muito mais passes-chave, um dos indicadores que mais correlaciona com o número de gols marcados no nosso campeonato.
Aliás, arrisca mais dribles também, especialmente nas Copas, mas nos números isso é menos relevante do que se pensa.
Um time que arrisca mais costuma colocar a bola mais vezes em disputa. Isso nem tem sido verdade no BR21, mas sim nas Copas.
E há uma correlação direta entre esse indicador, a duração das sequências ofensivas e a posse de bola total.
Também há uma relação desse número de duelos ofensivos com a capacidade de progredir até o ataque. Apesar de ser ainda mais objetivo nas Copas, o Flamengo vem entrando menos no último terço e na área.
Porém, como tenta muitos passes-chave e tem muita qualidade na frente para acertá-los, o Flamengo cria uma quantidade absurda de chances e finaliza muito.
Tão importante quanto o volume é a qualidade das chances criadas. O Flamengo não só chuta mais que os outros, mas chuta em condições melhores.
Se dividirmos o xG ("Gols Esperados") total pela quantidade de finalizações, temos um valor 50% maior que a média do campeonato!
E um time que tem a rara combinação entre volume e qualidade acaba criando um xG impressionante.
Pelo modelo matemático, o Flamengo atual deveria fazer 40% de gols a mais que o segundo melhor ataque!
Essa diferença já seria bizarra, mas com 45 gols marcados em 14 jogos (3,2 gols por jogo), o Flamengo tem feito O DOBRO de gols que o segundo (Palmeiras e RB Bragantino - 1,6 gols por jogo).
Isso significa que, para além de tudo isso, a CONVERSÃO está altíssima!
Esse foi o grande problema do Flamengo no BR20.
Mesmo sendo campeão com o ataque mais positivo, o time teve apenas a 14ª melhor taxa de conversão (gols marcados por xG) em todo o campeonato.
A ideia é a seguinte: se um time tem conversão igual a 1, significa que marca na realidade o mesmo número de gols previstos no modelo xG do @InStatFootball. Se é maior, marca mais e se é menor, marca menos.
A conversão do Flamengo atual é excelente!
Isso significa que 18% das finalizações do time sob o comando de Renato Gaúcho no BR21 foram parar dentro do gol. Nas Copas, esse número chega a 25%!!!
A média do Brasileirão é em torno de 10% e quando o Fla de 2019 chegou a 15% já foi incrível!
E a taxa de conversão funciona como fator multiplicador. Se o time progride bem com a bola, cria um grande volume com qualidade nas chances, mas não converte, fará poucos gols. O Flamengo atual marca tantas vezes porque junta tudo isso!
Essa taxa de conversão tão alta é difícil de medir — e também é difícil de cravar qual é a participação do treinador nela. A certeza é que, se continuar assim, o Flamengo seguirá fazendo uma quantidade impressionante de gols.
Para golear, no entanto, é preciso também tomar poucos gols. E o Flamengo vem tomando, lembra?
Fruto de um time que segue mordendo muito os adversários e rouba muitas bolas no campo de ataque.
Os adversários chegam pouco ao último terço (mais nas Copas, quando encontram um Flamengo mais recuado) e pouquíssimo na área. Criam poucas chances e finalizam pouco.
Com isso, o xGA ("Gols Esperados do Adversário") é baixo...
Mas o mais importante de tudo para os números finais que estamos vendo... Veja a taxa de conversão! É até inexplicável... Inclusive, essa taxa nas Copas é possivelmente fruto de uma amostragem tão baixa também.
No BR20, os adversários do Flamengo tiveram a maior taxa de conversão do torneio, marcando 1,3 gols a cada "gol esperado". Isso foi o que mais prejudicou o desempenho do time ao longo da temporada, mas a tendência é que um número desses não se mantivesse no longo prazo.
Para resumir tudo, vale terminar com o FUNIL DE GOLS, ideia que venho desenvolvendo nos últimos meses.
Para marcar um gol, o time precisa ter a bola, progredir, finalizar, ter qualidade nas chances e converter. Separando os números de cada etapa, dá para ter uma boa ideia.
Nas Copas, o time tem menos posse, mas compensa com uma progressão, um volume e qualidade um pouco maiores e com uma taxa de conversão estrondosa.
Defensivamente, o Flamengo se expõe um pouco mais no Brasileirão, permitindo um volume de finalizações e uma qualidade nas chances alta para os padrões do time. Como os adversários ficam pouco com a bola, no entanto, o número de gols sofridos é baixo.
A fórmula parece simples (e é até ridículo dizer isso): o time atual cria ainda mais do que criava antes e converte em um nível incrível, enquanto lá atrás continua permitindo poucas chances e vê os adversários convertendo muito mal.
A questão que fica, claro, é sobre ser possível ou não manter esse nível de goleadas por muito tempo. Os números mostram que o desempenho é, sim, muito bom, mas para marcar mais de três gols em quase todos os jogos, é preciso ir além.
Os rubro-negros terão que esperar por mais jogos — por uma amostragem maior — até que os números se estabilizem mais e as diferenças entre BR21 e Copas fique mais clara. Até lá, o jeito é desfrutar dessa rotina de goleadas.
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catarse.me/teofb
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