La Llorona é uma das figuras mais famosas da cultura mexicana, geralmente apresentada como a aparição de uma mulher vestida em branco, encontrada em corpos d’água e encruzilhadas, chorando pelo assassinato dos próprios filhos.
Quis são as origens deste famoso conto?
Segue!👇
Na maioria das versões, La Llorona afoga seus dois filhos em um lago/rio após um ‘ato de insanidade’ ao ver o seu marido com outra mulher.
Consumida pela culpa e arrependimento, ela também se afoga, mas não é aceita no pós-vida, sendo condenada a vagar pela Terra para sempre.
As origens da lenda da La Llorona são incertas, mas parecem ter certas influências pré-hispânicas, considerada um dos presságios da colonização espanhola e também ligada à certas deusas astecas.
Se olharmos o Códice Florentino, encontramos algumas possíveis inspirações:
A primeira delas é Tonantzin-Cihuacoatl, descrita como uma deusa chorosa que aparecia em branco a noite e associada à um dos presságios da conquista registrados no Códice:
O lamentar de uma mulher durante várias noites, chorando pelo destino de seus filhos, o povo Mexica.
Cihuacoatl também estava associada às Cihuateteo, as “deusas-mulheres”, entidades-espírito das mães que morreram em trabalho de parto, nas quais algumas delas poderiam aparecer em encruzilhadas para a humanidade durante dias cerimoniais ou nos “dias de azar” do calendário.
Chalchiuhtlicue, deusa das águas, também é uma hipótese, já que nas mais famosas versões da lenda de La Llorona, ela afoga seus filhos e está associada à rios e lagos, e, os ritos e cerimônias presididos em homenagem à deusa envolvia o sacrifício (religioso) de crianças.
Existem diversas variações geográficas dessa história popular e a lenda também mudou ao longo do tempo para refletir o clima sócio-político da região.
Apenas no final do século XIX começam a surgir os primeiros registros escritos do conto literário.
Muitas versões da lenda de La Llorona refletem a vida no México colonial e um tema sócio-político principal: A ‘mestiçagem’.
A união em matrimônio, na maioria das vezes, forçada, entre mulheres indígenas e homens espanhóis foi comum no período conhecido como ‘Nova Espanha’.
O destino dessas mulheres variava, mas na maioria das vezes eram deixadas por mulheres mais jovens ou européias.
Gerações de crianças vindas dessas uniões, por vezes, eram tiradas de suas mães para serem criadas como espanholas, negando à elas o contato com a cultura indígena.
O período colonial também viu uma ênfase crescente na política de “pureza racial”, com a Coroa Espanhola, inclusive, aprovando uma série de legislações segregacionistas que limitavam os poderes da população mestiça, como por exemplo, limitar consideravelmente suas heranças.
Peças ambientadas na década de 1930 apresentam descendentes espanhóis como vilões, mostrando a ascensão do sentimento anti-colonial e também refletiam a tensão contemporânea entre México e EUA, com retóricas anti-imperialistas que resistiam às influências estadunidenses no país.
Versões posteriores também encontram seu inimigo na Espanha e criam heróis mestiços e indígenas, apresentando a Nova Espanha como um lugar de caos e tensões, onde ‘pureza racial’ é um tema recorrente, com os europeus não querendo “sujar suas lâminas de sangue indígena”.
La Llorona é muitas vezes associada à Malinche, ambas frutos da violação, rapto e engano associados à conquista.
Essa última, inclusive, apesar de entregue como escrava aos espanhóis de forma involuntária, é popularmente vista como traidora da nação até os dias de hoje.
Essa visão nacionalista e misógina que coloca a culpa da derrota de uma civilização nos pés de uma mulher indígena desprivilegiada continua popular e gera debates no México, mesmo com as evidências incontestáveis da participação auxiliar de outras nações indígenas na conquista.
‘Malinchista’ virou um comum insulto no México referente à quem prefere coisas estrangeiras, e isso, somado ao fato de ela ter dado à luz um filho de Cortés, alimentam a confusão de La Llorona ser uma faceta de Malinche, ambas mulheres indígenas vítimas de políticas coloniais.
Hoje em dia a versão mais popular da lenda, com personagens fictícios, e elementos modernos e pré-hispânicos, é encenada desde 1993 no lago Xochimilco no final de outubro-início de novembro, coincidindo com o ‘dia de los muertos’.
Apesar das raízes pré-hispânicas e suas posteriores versões, a lenda de La Llorona é, também, o reflexo de uma temática colonial cruel:
O afastamento de crianças mestiças de suas mães indígenas, e, em certos casos, o sacrifício involuntário dos filhos em oposição à conquista.
Fontes:
Mexicolore; Amy Fuller; Arqueología Mexicana; Eduardo Matos Moctezuma.
‘La Llorona: Mito e poder no México’; Rosa Maria Spinoso.
(historia.uff.br/stricto/teses/…)
Artes autorais: (2º tweet, Jefferson Muncy; último tweet, Leo D’Amico).
Está em espanhol, mas vale a pena conferir essa entrevista do INAH sobre as origens de La Llorona!
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