José Antonio Lima Profile picture
Jornalista e professor de Relações Internacionais e Jornalismo. Doutorado e mestrado sobre as Relações Internacionais do Oriente Médio.

Nov 12, 2022, 26 tweets

Talvez você já tenha visto, ouvido, lido ou reproduzido por aí a ideia de que "6.500 pessoas perderam a vida na construção de infraestrutura para a Copa no Catar" ou, pior, de que morreram "na construção dos estádios". Saiba então que essa 'informação' é totalmente enganosa

Há quatro anos, trabalho lidando com desinformação. Infelizmente, muitas vezes a fonte da desinformação é a própria imprensa profissional. E é deste caso que estamos falando. A fonte desta picaretagem é nada menos que o conceituado The Guardian

Em 23/2/2021, o Guardian publicou uma reportagem com um título sensacionalista: "Revelado: 6.500 trabalhadores migrantes morreram no Catar enquanto o país se prepara para a Copa". Dá pra ver no Wayback Machine, que armazena versões anteriores de links web.archive.org/web/2021022306…

Depois, o título mudou para o atual. Algo como "Revelado: 6.500 trabalhadores migrantes morreram no Catar desde que o país recebeu o direito de sediar a Copa." O jornal buscou ao menos demonstrar que se tratava de um número de mortes num espaço de 10 anos
theguardian.com/global-develop…

Leitura da reportagem mostra que este número é o de imigrantes de 5 países (Bangladesh, Índia, Nepal, Paquistão e Sri Lanka) que morreram no Catar entre 2010-2020. Na época, o número oficial de mortes ligadas à Copa era de 37, sendo que 34 eram 'não-relacionadas ao trabalho'

(A estatística oficial não serve exatamente para "aliviar" a situação, mas falarei sobre isso mais à frente, numa breve discussão sobre os severos problemas trabalhistas que existem no Catar.)

Dois pontos são muito problemáticos na reportagem. O primeiro é que o título faz uma conexão direta com a Copa, mas no texto essa conexão é bem mais frágil. "É provável que muitos trabalhadores que morreram tenham sido empregados nesses projetos de infraestrutura da Copa"

O segundo ponto é que essa estatística não é confrontada com taxas de mortalidade. O leitor fica sem saber se esse número é excessivo ou não. Esse é um ponto essencial da história, inclusive porque é o argumento de defesa de Doha. Mas a reportagem não investiga isso!

Ou seja, o jornal não sabe se a estatística é significativa ou não e também não tem certeza se há ligação entre as mortes e a Copa do Mundo (é 'provável' que haja, disse a fonte). Mas mesmo assim foi lá e publicou que 6,5 mil pessoas morreram por conta da Copa!

Aqui, o @marcowenjones, professor em Doha, mostra que o tweet original do Guardian se tornou o epicentro de uma rede desinformação em vários idiomas, composta inclusive por jornalistas, atestando que as 6,5 mil mortes estão conectadas à infraestrutura

De novo, a reportagem: "Embora os registros de óbitos não sejam categorizados por ocupação ou local de trabalho, é provável que muitos trabalhadores que morreram tenham sido empregados nesses projetos de infraestrutura da Copa." E não sabemos se número é anomalia ou não.

Essa desinformação sobre o Catar tem como origem a irresponsabilidade do Guardian, mas seu combustível é o orientalismo, basicamente uma lente que o Ocidente utiliza para observar o Oriente, que permite ver nos povos orientais apenas duas características: exotismo ou violência.

No dia 9, a presidente de uma ONG europeia escreveu que "6500 personas han perdido la vida en la construcción de infraestructuras en el desierto qatarí." Temos aqui a violência (mortes) e o exotismo (deserto) juntos. E a desinformação, claro blogs.publico.es/otrasmiradas/6…

Recentemente, surgiu outra estatística igualmente problemática. A de que 15 mil imigrantes morreram para que a Copa do Catar fosse realizada. Esse número virou febre na Alemanha. Torcidas têm protestado. Aqui, a ESPN aparentemente endossou o protesto

O número de 15 mil mortes é uma estatística oficial do governo do Catar, referente ao total de imigrantes que morreram no país entre 2010 e 2019, de todas as idades, em todas ocupações. Apareceu em agosto de 2021 neste relatório da Anistia Internacional amnesty.org/en/documents/m…

De novo o @marcowenjones. Este número de 15 mil mortes é baixo numa comparação com outras taxas de mortalidade, mas foi "sensacionalizado".

Nada disso serve para dizer que as condições de trabalho no Catar para os trabalhadores imigrantes são positivas. Não são, de forma alguma. Mas o debate precisa ser feito em cima de fatos e não de invenções, que infelizmente é o caso dessas estatísticas

Ponto paradoxal é que a Copa do Mundo e a pressão externa sobre o Catar tiveram, na prática, o positivo efeito de melhorar levemente as condições de trabalho no país. O sistema kafala, basicamente uma servidão modernizada, foi desmontado, e um salário mínimo foi instituído. MAS..

...o salário mínimo aprovado no Catar é ridiculamente baixo, na prática oficializando um abuso. No caso do sistema kafala, as mudanças aprovadas pela monarquia sofreram enorme resistência de atores cataris poderosos e vem sendo diluídas pouco a pouco.

Curiosamente, o mesmo Guardian publicou no mês passado uma discussão mostrando as nuances deste processo de 1) pressão externa sobre o Catar; 2) mudanças de cima para baixo; 3) resistência interna theguardian.com/global-develop…

A questão de saúde dos imigrantes também é grave. O relatório da Anistia (de onde as organizadas da Bundesliga tiraram as 15 mil mortes) foca justamente na falta de transparência do governo do Catar e, em especial, na falta de investigação sobre a causa das mortes dos imigrantes

A pirotecnia dos 6,5 mil ou 15 mil mortos é fácil de ser vendida e consumida. Infelizmente, o mesmo não ocorre na discussão mais densa sobre a situação dos trabalhadores imigrantes que, convenhamos, não envolve apenas o Catar, mas todo o mundo. Faremos essa discussão?

E, no caso específico do Catar, quem continuará exercendo pressão sobre o governo de Doha para realizar melhorias na situação após a final da Copa do Mundo, em 18 de dezembro?

Meu palpite é de que a situação será esquecida pela "comunidade internacional".

O Globo Esporte publicou hoje a seguinte 'informação':
"Estima-se que entre 15 e 18 mil trabalhadores morreram nas obras" da Copa do Mundo. (via @ProfEduCoutinho)

É impressionante como um absurdo desse tipo circula imaculado entre o jornalismo profissional.

Ótima apuração da Deutsche Welle. Mostra os inúmeros abusos que ocorrem no Catar e a falta de transparência do governo local ao mesmo tempo em que mostra que certas estatísticas são falsas ou enganosas. Insisto: as estatísticas obscurecem o real problema
dw.com/en/fact-check-…

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