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14 Sep, 18 tweets, 4 min read
Um jogo morno, um gramado péssimo, uma derrota decepcionante e uma lição: o futebol é o esporte de uma bola.

O Flamengo precisa jogar mais do que jogou, mas também precisa reencontrar a sua força mental.

Segue o fio...
O primeiro tempo foi mais chato do que horroroso.

O Flamengo mantinha seus dois pontas bem abertos e procurava o jogo por ali. Até os encontrava, mas a marcação dobrava, o gramado atrapalhava e a noite estava pouco inspirada…

Quando saía alguma coisa dali, o Ceará defendia bem a área e neutralizava o perigo. O sistema defensivo como um todo foi bem, mas Luiz Otávio e Tiago, os zagueiros alvinegros, fizeram um primeiro tempo de almanaque.
O Ceará se fechava, até subia a marcação de vez em quando e, quando retomava a bola, restavam as duas alternativas clássicas de escape...

Primeiro, o contra-ataque… Mas, ao contrário dos jogos anteriores, a defesa do Fla não ficava muito exposta.

Segundo, a bola longa... Com o gigante Cleber no ataque, o time de Guto Ferreira abusava da ligação direta em busca da segunda bola. Mas a defesa rubro-negra também era soberana nesse quesito.

Em uma dessas bolas longas, inclusive, o Flamengo conseguiu atacar rapidamente e quase abriu o placar com Gabigol.

O primeiro tempo foi morno, as duas defesas levaram vantagem sobre os ataques, mas o Fla tinha a dinâmica do jogo razoavelmente controlada.

Não dominava, não criava muitas chances, não tinha seus principais jogadores inspirados, mas ficava com a bola e forçava por uma brecha.
Mas é aí que entra a lição: o futebol é o esporte de uma bola.

Levar o primeiro ponto no vôlei ou a primeira cesta no basquete não faz a menor diferença. O primeiro gol no futebol, no entanto, muda tudo. Condiciona o resto do jogo.
Dá para escrever um fio inteiro sobre a bola parada defensiva do Flamengo, a marcação por zona, o papel dos zagueiros, os méritos da batida do Ceará etc.

Mas o fato é: o Ceará achou o primeiro gol e mudou o jogo.
Se o Flamengo tivesse feito o primeiro gol — e não seria nenhum absurdo sair do primeiro tempo com uma vitória parcial — o jogo teria sido completamente diferente, o resultado possivelmente seria diferente e a análise seria diferente.
Mas o "se" não existe no futebol e, quando digo que um gol muda tudo, não quero dizer que o efeito é sempre o mesmo. Cada time reage de uma forma ao primeiro gol do jogo.

E é esse ponto, mais do que a atuação do primeiro tempo ou a falha pontual no gol, que levanta preocupação.
Um dos principais méritos do Flamengo de 2019 era justamente a força mental. Não foram poucas vitórias de virada naquele campeonato. Era impressionante, aliás.
A questão, então, é como o time reage.

E o Flamengo derreteu depois do primeiro gol do Ceará de uma maneira estarrecedora.

Assim como derreteu no segundo tempo contra Atlético-MG e Grêmio, quando foi para o intervalo perdendo.
Veja bem, nada disso é tão simples. Falar do sofá é sempre muito fácil.

No Brasil, viradas de placar são raras. É realmente difícil sair atrás, até porque os times aqui treinam para se fechar.

Mas um time que pretende ser dominante precisa lidar bem com essas situações.
Afinal, um time que se arrisca pode sempre sofrer o primeiro gol, mesmo quando joga muito bem. Certas coisas fogem do controle.
Ontem, mais do que uma atuação ruim de fulano ou beltrano, uma falha individual ou um gol perdido, o importante alerta fica por conta da queda depois de sofrer o gol. Se isso se repetir sempre, aí sim o futebol vira verdadeiramente o esporte de uma bola só. É sempre gol de ouro.
É natural que a gente esteja chateado. O time parecia estar engrenando.

Mas a avaliação geral continua a mesma de antes: ainda é um time melhor que os outros, mas longe do auge técnico, tático, físico e mental, que ainda oscila dentro dos jogos e tem alguns jogadores em má fase.
O importante agora é voltar a se acostumar a ter as rédeas do jogo.

Ditar melhor o ritmo, deixar o adversário desconfortável, jogar com coragem e, se tomar um gol (nenhum time é infalível), agarrar as rédeas ainda com mais força.

O Flamengo não pode morrer por uma bola só.

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Vamos destrinchar no fio...
O melhor exemplo está nos cruzamentos. Com a mudança na frente, o time cruzou menos. Foram 23 contra o Fortaleza e apenas 9 contra o Fluminense.

(Por incrível que pareça, cada plataforma contabiliza "cruzamentos" de uma maneira. Aqui estou usando os números do Instat)
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