Eu sei que ninguém aguenta mais esse papo de Coreia do Norte, mas...não gosto de ficar sem responder. Depois dessa, acho até que vou tirar uma folga do Twitter.

É uma resposta ao @_makavelijones , que procurou debater algumas das minhas inquietações sobre o tema.
Então, assim, se você não curte esse debate, não curte o Jones, ou não me curte, fica aí o alerta. Esse fio vai ficar looooongo...talvez seja melhor me silenciar. Me "liga" de novo daqui uns 7 dias (se quiser, claro).
Bom, vamos lá:

1) Sobre a guerra: reconheço que uma guerra intermitente, de 1950 até 2020, não é pouca coisa. O mais próximo disso talvez seja o Vietnã, que concebe um estado de guerra permanente entre 1945 e 1991 (e os adversários mudaram, o estilo da guerra mudou, etc...
...a base de comparação é frágil). Mas mesmo guerras diferentes justificam a questão da militarização.

Como eu enfatizei para muita gente, eu entendo a militarização nesse ponto. Auto-defesa contra agressão estrangeira. Direito básico de soberania política.
Mas como se fundamenta essa militarização me parece um ponto crucial - e algumas pessoas no fio lembraram de Cuba ou Venezuela e da importância dos comitês populares, da ideia de que a organização da defesa popular pode ir para além do Exército.
Nesses casos, ela é também uma tarefa política - uma distinção que tá nas origens da organização do Exército Vermelho e na função do comissariado político - e que até onde sei, até hoje o ELP funciona assim.

Isso tudo eu entendo.
Posso não gostar muito, mas entendo como lógica política para garantir que o Exército não deixe manifestar suas tendências "contrarrevolucionárias".

Acho isso diferente da política Songun, onde a cúpula do partido definiu a primazia do Exército nos assuntos do Estado, gerando...
...uma espécie de amálgama entre eles que, ao meu ver, é muito mal explicado. Eu fico pensando quais os limites da crítica interna aos rumos do partido a medida que as forças armadas não costumam ser muito abertas para o criticismo (ao menos historicamente).
2) Reconhecida a guerra, alguns dados precisam ser colocados. Os 30% de mortos na guerra se referem a toda península, né? Eu queria mais dados sobre isso...a Wikipedia fala em algo em torno de 3 milhões de civis mortos (1,5 para cada lado, mais ou menos, embora...
...na Coreia do Sul esses números pareçam ser mais confusos - até porque, né, esquadrões da morte americanos e japoneses contra comunistas no Sul)

Eu não gosto, contudo, de discussões sobre o número de mortos. Fica parecendo, com isso, que estamos minorando o fato de que...
... a guerra americana no Vietnã, com dez anos de duração, "só" matou 2 milhões de civis. Como eu comentei ao longo do fio, não consigo realmente majorar qual experiência socialista sofreu mais ou menos com o imperialismo. Acho que Jones pensa parecido nesse ponto.
3) Eu acho que o estudo de Vizentini ainda dá conta de como a guerra muda a lógica do poder na Coreia. Mas há muito pouco ali sobre as disputas entre facções internas após a guerra. Essas lutas faccionais não costumam ser lembradas, mas são a base do pensamento Juche.
Elas ocorrem entre 1956 e 1960 e depois entre 1967 e 1968. Grupos pró-soviéticos e pró-chineses são limados das posições de lideranças. O socialismo "juche", mais do que um desafio ao Ocidente, era uma resposta aos dois gigantes - como o próprio Vizentini destaca -
"autossuficiência" em relação ao próprio bloco socialista - durante um tempo, o regime de Kim Il Sung inclusive se aproximou do bloco dos não alinhados.
4) Esse tipo de tensão política não costuma aparecer muito nas narrativas sobre a Coreia do Norte que vejo na internet e que se colocam na defesa do regime. As lutas internas ajudam a pensar as dinâmicas e mais: evidenciam que a sociedade é dinâmica e heterogênea,...
...pelo menos nos seus conflitos políticos. Essa tensão pode explicar a "paranóia de guerra"*? Ou é a "paranóia de guerra" que explica a tensão? É o medo da sabotagem imperialista que gera expurgos, ou os expurgos que vão alimentar esse medo?
5) No aspecto do isolamento norte-coreano em comparação a China, Cuba e Vietnã, concordo. Inclusive concordo com o que foi dito sobre a integração deles às cadeias globais do capitalismo. E concordo que isso pode explicar o Songun.
Acho, contudo, que a Marcha Árdua, como já foi citada, precisa também ser colocada em perspectiva: sem auxílio soviético e numa situação de relativa tensão com a China, o regime de Kim Jong Il não conseguiu se manter sem apelar para uma retórica belicista.
O estímulo à diplomacia nuclear como forma de barganha nas Nações Unidas é citado pelo Vizentini. E aí, não cabe propriamente um julgamento: isolamento e fome, a forma de aliviar sanções passou a ser pela diplomacia nuclear.
Mas esse é um ponto a notar: o isolamento norte-coreano é também uma das chaves aqui. Ele é fruto de decisões políticas e, ouso dizer, é influenciado diretamente pelo juchismo, como ideologia oficial do Estado. Comparado com a URSS, ou o Leste Europeu, que nos anos 1980...
..."se abriu" para o Ocidente, a Coreia seguiu seu caminho de isolamento. Cumings diz que isso foi desastroso do ponto de vista econômico, já que a crise de 1973 prejudicou o preço dos minérios. Mas foram escolhas econômicas e políticas - de um país em constante estado de guerra.
6) Esse, por sua vez, é um ponto importante: uma das dissidências, entre 1956 e 1960, foi entre os coreanos-soviéticos e os guerrilheiros coreanos. Segundo Buzo, os primeiros defenderam o fim da "economia de guerra" e uma gradual distensão na indústria do país, focando...
...na agricultura e na indústria de bens de consumo. Os ex-guerrilheiros, por sua vez, queriam investir na indústria pesada e na indústria de guerra. Essa disputa não foi pouca coisa e marcou a prevalescência de uma linha política que compreendeu o país e sua economia...
...em constante estado de beligerância.

7) É de se pensar se houve erro de cálculo dos coreanos-soviéticos, ou se eles estavam pensando só nas vantagens da URSS...mas depois a própria facção dos ex-guerrilheiros vai se dividir, em especial diante da questão Juche, nos anos 1960.
Mas esse é o retrato da rápida modernização norte-coreana, nesse sentido, espetacularmente superior a chinesa, pelo menos até 1973. Depois em diante, a economia entra em estagnação e o fim da URSS torna a situação mais dramática.
E como o Vizentini ressalta, a política chinesa nos anos 80 em diante não foi exatamente favorável à Coreia do Norte (ainda que nunca tenha sido abertamente contrária).
8) Eu não gosto de usar o termo "feudal" para fora da Europa, mas reconheço que a Coreia teve sua industrialização destruída na Guerra. Uma industrialização, assim como a da Manchúria, forçosamente criada pela condição de colônia,...
...movida basicamente para a extração de metais pesados para a indústria de guerra japonesa. Mas a transição econômica acelerada (tanto da industrializção sob a égide colonial, da destruição durante a guerra e da retomada nos anos 1950 e 1960)...
...ajuda a explicar as escolhas políticas em prol de visões tradicionalistas?

9) Citei, no fio, a Revolução Cultural e como China e Coreia do Norte não parecem ter comungado da mesma discussão e do mesmos movimentos. A Revolução Cultural, iconoclasta e exacerbada como foi,...
...se recusou a dar vazão ao apelo ao tradicionalismo e foi somente depois de muito tempo (e o Julgamento da Gangue dos Quatro) que certas tradições chinesas foram valorizadas pelo Estado. No caso da Coreia do Norte, ainda vale o destaque de que oficialmente, o partido parece...
... rejeitar muitas dessas tradições (como o neo-confucionismo). Mas na prática, o quanto elas estão impregnadas, é outro tema e que não me sinto capaz de dar conta. Mas já manifestei meu receio de explicações culturalistas antes...
10) Aí entra a questão da família. Reforço que não há experiência socialista que tenha visto isso, em que o líder estabelece uma transferência de capital político - e de posição política subsequente - diretamente para o seu filho. Podemos atribuir isso à tradição, claro.
Mas acho que uma outra pista está nesse estado de "paranóia de guerra"*, onde a única base de confiança do poder político acaba sendo a família. Mas se é isso mesmo, o que difere essa lógica de um modelo dinástico de poder?
Tem toda a história da morte de Kim Jong-nam aí, que diante de tantos boatos, parece uma coisa meio contos de alcova do absolutismo europeu, com o perdão do anacronismo.
11) PARA CONCLUIR: Botei um 'asterisco' em "paranóia de guerra" porque o termo é ruim. Dá a impressão de que a ameaça contra a Coreia do Norte não é real. É. Assim como a ameaça contra o Irã, por exemplo. Ou a Síria.
Todos são regimes que o imperialismo americano ataca, cerca, mira impiedosamente. Os regimes que estão no poder se sustentam como podem diante desses ataques e tudo isso eu reconheço.
Meu incômodo está na ideia de que a Coreia do Norte possa ilustrar um horizonte "socialista" ou mesmo de esquerda. Eu não desconheço a história da luta anti-imperialista do país.
Mas acredito que a criação do Juche e, posteriormente, do Songun, afastaram o país de uma perspectiva realmente socialista. Eu entendo que o regime esteja pouco se lixando para o que eu, Fernando, tô aqui falando sem parar sobre o socialismo juche. Não muda absolutamente nada.
Possivelmente ainda passo por ignorante. Paciência. Cabe a mim estudar mais, claro.

Mas do ponto de vista de quem está tentando entender a história das Coreias, em especial da Coreia do Norte, me incomoda que a solidariedade à Coreia esteja tão concentrada no regime dos Kim.
Talvez essa tenha sido inclusive a grande vitória deles, de tal forma que identificamos diretamente família, regime, partido, Exército e povo, como se fosse tudo uma coisa só. E isso vale tanto para certos apoios como para certos críticos.
Mas eu, particularmente, não vejo tal perspectiva como emancipatória. E aí é de se pensar se lutas anti-imperialistas não podem, eventualmente, perder o seu caráter libertador. E eu sou um socialista que se preocupa muito com a tragédia das revoluções que devoram seus filhos.
PS: Parabéns para quem aguentou até o final e não me bloqueou ou silenciou. :)
PS: Eu citei algumas obras aqui, mas a do Vizentini, "A revolução coreana" é a única em português que conheço e indico.

As outras aí são de três autores, Bruce Cumings, Kyung Hwang e Adrian Buzo. Tudo obtido graças aos amigos russos.

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16 Sep
"Puxa, você é contra abrir as escolas, quer que pobre se foda"

Não. Aliás aqui tá um bom quadro sobre como devemos pensar o protocolo (que o @ananias_1979 gentilmente me marcou). Tá ali.

A gente tem esses dados?
Por exemplo, quantos casos novos de COVID-19 (por 100.000 pessoas) a gente teve nos últimos 14 dias?

Quantos testes deram positivo nos últimos 14 dias? Tem teste o suficiente para fazer essa contagem?
As escolas precisam implementar as 5 estratégias ali dispostas. Alguma está garantida? Há programas de secretarias da educação e MEC para garantir sua aplicação?
Read 13 tweets
13 Sep
Roleta do unfollow:

Eu tendo estudar sobre a Coreia do Norte, juro. Tento ter boa vontade, dentro do possível.

Mas não aguento análises que comparam Coreia do Norte com Israel, Coreia do Sul, EUA, Tailândia ou qualquer outro país abertamente capitalista.
Eu entendo que dependendo do público, pode ser um recurso retórico válido.

Mas em termos analíticos, história comparativa exige mais rigor.

E em termos políticos, como socialista, eu quero é comparar a Coreia do Norte com outras experiências socialistas!
Por que a gente não tem o mesmo grau de militarização, defendido no socialismo juche, no Vietnã, em Cuba, ou mesmo na China? Esses países foram menos agredidos pelas potências capitalistas?
Read 11 tweets
5 Sep
Então o pessoal da "Economia 101" descobriu meu fio sobre estabilidade - e ficaram "maguary" porque afirmei que tirar a estabilidade não vai aumentar a produtividade.
Bom, o @grisagregorio já falou isso em outro momento, então talvez eu me repita aqui. Mas educar os "lacronomistas" é sempre importante.

Além disso, como falei no fio, a estabilidade do setor privado foi uma criação da CLT, em plena Segunda Guerra Mundial.

Não faz sentido nenhum acreditar que Vargas criou uma medida para reduzir a produtividade da indústria brasileira em plena "Batalha da Produção".
Read 9 tweets
4 Sep
Cês sabem por que a Folha (e também o Globo, o Estadão, o pessoal do "dízimo cívico") odeia a ideia de estabilidade do funcionalismo público?

Segue esse fiozinho:
Pra entender isso, a gente precisa voltar no tempo. Sim, o desmanche dos serviços públicos é a meta do neoliberalismo.

Mas eu acredito que podemos voltar para 1943.

Para a promulgação da CLT.
Segundo o seu artigo 492, todo trabalhador que ficasse dez anos na mesma empresa adquiria automaticamente a estabilidade, a chamada "estabilidade decenal".

Havia um princípio lógico aqui: se durante dez anos o sujeito foi um bom trabalhador e a empresa prosperou com ele,...
Read 23 tweets
2 Sep
Tô aqui pensando e olha, é uma doideira, mas...e se a gente inverter os pólos e pensar que:

Não é a fragmentação da esquerda que faz com que Bolsonaro se eleja, mas...

...que é justamente porque Bolsonaros são eleitos que as esquerdas se fragmentam.

Que tal?
Ou, para colocar de outra forma, são as nossas derrotas que nos fraturam e não as nossas fraturas que causam derrotas.

A esquerda já tinha suas divisões antes do capitão esgoto ganhar em 2018. Estávamos amargando derrotas, mesmo tendo vitórias eleitorais importantes.
Para ficar num exemplo: 2015 foi um ano de incontáveis derrotas com Eduardo Cunha na câmara. Nem preciso falar dos anos seguintes. As esquerdas se uniram e se mobilizaram em muitas dessas derrotas, mas foi ficando pesado.
Read 20 tweets
30 Aug
Tava pensando nesse papo de que assinar um dos três jornalões (ou os três) é "dízimo cívico" para manter a democracia operando.

Desculpem o meu francês, mas...meu cu.

Por que?
Por isso...
Também por isso...
Read 13 tweets

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