Como a internet fragiliza as democracias: A máquina do ódio
[thread por @apyus]
Em A máquina do ódio, Patricia Campos Mello apresenta o que se sabe sobre o “gabinete do ódio“, a estrutura que ajudou Jair Bolsonaro a se eleger, e segue utilizada pelo presidente da República para perseguir adversários.
amzn.to/35F8rKw
A autora vai além, detalhando não só a apuração jornalística, como também o drama que viveu ao se tornar alvo da máquina de linchamentos virtuais que buscava compreender.
www1.folha.uol.com.br/poder/2020/03/…
No capítulo mais valioso, a jornalista aproveita a experiência como correspondente internacional para evidenciar que o fenômeno observado no Brasil não é uma exclusividade brasileira, mas de nações em que a internet foi convertida em arma política.
www1.folha.uol.com.br/mundo/2019/05/…
Impressiona, contudo, como o trabalho de Campos Mello dialoga involuntariamente com O filtro invisível, livro que Eli Pariser lançou nove anos antes. De forma que vários dos alertas de 2011 se confirmam na obra de 2020.
amzn.to/3mqs8vK
Se Pariser observa que, no início dos anos 2010, nascia “um enorme mercado de informações sobre o que fazemos na rede“...
...Campos Mello verifica que, na eleição brasileira de 2018, uma consultoria oferecia aos contratantes “240 milhões de linhas de celular, cruzamento de dados cadastrais com eleitorais, campanhas segmentadas e dados georreferenciados”.
www1.folha.uol.com.br/poder/2020/03/…
Segundo o americano, seria possível usar a análise de sentimentos para “influenciar gradualmente o debate” político.
Como lembrou a brasileira, a Cambridge Analytica segmentava milhões de eleitores como “abertos a novas experiências“, “extrovertidos“, “metódicos“, “empáticos” ou “neuróticos“.
www1.folha.uol.com.br/mundo/2020/04/…
Em 2011, o ativista abordou o risco de “manipulação do contexto e do fluxo de informação e de atenção” por parte dos políticos inescrupulosos.
A consultoria que auxiliou Donald Trump, como lembra a jornalista, criava “campanhas políticas que exploravam as ansiedades de segmentos da população“.
www1.folha.uol.com.br/mundo/2018/03/…
Pariser alertou que as grandes empresas de tecnologia substituíam editores profissionais por algoritmos carentes de “qualquer senso ético“.
Anos depois, Campos Mello ouviu o próprio Steve Bannon celebrar a forma como, na comunicação com eleitores, populistas conseguiam driblar o filtro editorial da imprensa.
www1.folha.uol.com.br/poder/2018/10/…
Para o diretor executivo da campanha vitoriosa do presidente americano, “se não fosse pelo Facebook, Twitter e outras mídias sociais, teria sido cem vezes mais difícil“.
Se Pariser reclama que o modelo de negócios das grandes empresas de tecnologia sufocava a imprensa, Campos Mello lembra que “a primeira lição do manual da combate à imprensa é sufocar a mídia em termos econômicos“.
brasil.elpais.com/brasil/2020-07…
E que linchamentos virtuais são hoje “uma nova forma de censura, terceirizada para exércitos de trolls patrióticos repercutidos por robôs no Twitter, Facebook, Instagram e WhatsApp“.
noticias.uol.com.br/politica/ultim…
Segundo Pariser, “o problema mais sério criado pelas bolhas virtuais é o fato de dificultar cada vez mais a discussão pública“. Campos Mello escreveria que “marqueteiros entenderam que ‘o populismo é filho do casamento entre a cólera e os algoritmos‘”.
www1.folha.uol.com.br/mundo/2019/12/…
Se Pariser se preocupa com o risco de políticos usarem as redes para “propaganda com base nos medos e pontos fracos de cada eleitor“...
...Campos Mello destaca que “a campanha de Trump não se serviu das mensagens microdirecionadas apenas para empolgar seu eleitorado, mas também para manipular eleitores democratas, fazendo-os desistir de votar“.
Pariser temia a dificuldade que jornalistas e candidatos teriam para verificar fatos difundidos pelo microdirecionamento da publicidade digital.
Campos Mello observou que circularam “notícias falsas de que Marina Silva apoiaria um plebiscito sobre o direito ao aborto que autorizaria o procedimento no Brasil — quando o resultado mais provável, segundo as pesquisas, era que a maioria da população votasse pela proibição“.
Mas Campos Mello aponta um agravante do caso brasileiro, onde a lei eleitoral possui limites próprios:
“Comprar de fornecedores serviços digitais que beneficiam candidatos passou a ser um expediente de doar por baixo do pano. Em vez do clássico caixa dois, em que o dinheiro doado não é declarado ao TSE, inaugurava-se a terceirização do caixa dois“.
g1.globo.com/politica/notic…
A brasileira observa que “a propaganda eleitoral havia migrado em massa para o meio digital, mas a legislação continuava analógica“.
Ainda em 2011, Pariser antevia que “os sistemas informáticos terão de ser julgados com base em seus efeitos públicos“. E que, “na luta pelo controle da internet, todos estão organizados, menos o povo“.
oglobo.globo.com/brasil/senado-…
“O filtro invisível” e “A máquina do ódio” são dois livros fundamentais para se compreender a insensatez que, nos últimos anos, tomou de assalto a política de grande parte do mundo.
É triste constatar, no entanto, que o segundo não seria tão necessário, nem Patricia precisaria passar pelo inferno que viveu, se as gigantes da tecnologia tivessem se sensibilizado com os alertas do primeiro.
Você pode adquirir "A máquina do ódio", de Patricia Campos Mello, por este link:
amzn.to/35F8rKw
Você pode adquirir "O filtro invisível", de Eli Pariser, por este link:
amzn.to/3mqs8vK
Sobre esse tema, vale ainda conferir "O Dilema das Redes", documentário lançado pela Netflix agora em 2020:
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