Mellanie F. Dutra Profile picture
Nov 19, 2021 53 tweets 26 min read Read on X
Mais um conjunto de evidências apontam para a origem natural do SARS-CoV-2 (novo coronavírus causador da COVID-19): um novo trabalho revela o "paciente zero", colocando ainda mais peso em eventos zoonóticos, ou "pulos" desse vírus para nossa espécie

Acompanhe 🧶👇
O pesquisador @MichaelWorobey , um dos principais especialistas em rastrear a evolução de vírus na Universidade do Arizona e que é citado no livro "O Contágio" de @DavidQuammen juntou algumas peças desse quebra-cabeças, traçando uma linha temporal
Alguns animais são suscetíveis ao SARS-CoV-2. Estamos vendo inclusive atualmente infecções do SARS-CoV-2 em alguns mamíferos. Alguns desses mamíferos suscetíveis, como cães-guaxinins, eram vendidos no mercado de Huanan (e outros 3 mercados) em Wuhan🇨🇳 oglobo.globo.com/mundo/tres-leo…
Alguns coronavírus relacionados a síndrome respiratória aguda grave (SARS-CoVs) foram encontrados, de fato, em cães guaxinim durante o surto de SARS, que foi facilitado pelo contato animal-humano em mercados de animais vivos na China.
Mas não estava claro se a aparente preponderância de casos de COVID-19 hospitalizados associados a este mercado refletia verdadeiramente o surto inicial. Para entender isso, vamos olhar vários eventos cruciais que ocorreram em dezembro de 2019 e no início de janeiro de 2020.
📍Em 30/12/19, a Comissão Municipal de Saúde de Wuhan (WHC) emitiu 2 avisos de emergência para circulação interna em hospitais locais, alertando-os para pacientes com pneumonia inexplicada - vários dos quais trabalhavam no Mercado de Huanan.
📍O primeiro relatório público oficial foi o anúncio do WHC no dia seguinte de que eles haviam realizado buscas de casos e investigações retrospectivas relacionadas ao Mercado de Huanan e encontrado 27 pacientes.
📍41 dos 1ºs pacientes conhecidos estavam no estudo que mostrou que 66% - ou seja, nem todos os 1ºs casos - tinham um vínculo com o merc. Huanan. Na trasnferência, tínhamos a apres. clínica, mas não as informações epidemiológicas, como conexões com Huanan ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/P…
Os relatórios começaram somente depois dessa transferência dos 41 pacientes de outros hospitais para o Hosp. Jinyintan. Mas é possível que um nº desproporcional de casos ligados ao Merc. de Huanan tenham sido transferidos para o Hosp. Jinyintan por causa do foco inicial dos casos
Mas como entender o que aconteceu nesse momento? Precisamos entender o que aconteceu nos hospitais que primeiro descobriram que um novo surto viral estava em andamento.
Worobey comenta que "embora não seja mencionado pelo nome em publicações científicas, relatos da mídia revelam que o Hosp. Provincial de Hubei de Medicina Integrada Chinesa e Ocidental (HPHICWM) foi o primeiro hospital a alertar as autoridades distritais" ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/34594812
📍Um paciente com imagens semelhantes de tomografia computadorizada, um trabalhador do Merc. Huanan, foi admitido em 27/12. Especialistas relataram esse e outros casos (4) aos funcionários do hospital, que alertaram o CDC do distrito de Jianghan no mesmo dia.
📍Durante os dias 28 e 29/12, mais três pacientes, todos trabalhando no Mercado de Huanan, foram internados e reconhecidos como portadores da mesma doença respiratória desconhecida.
Uma reunião de emergência foi feita em 29/12, e concluiu-se que a situação era extraordinária. Ao saber de pacientes semelhantes, também vinculados ao Mercado Huanan, nos hospitais Tongji e Union (Xiehe), os CDCs de Wuhan e Hubei foram alertados em 29/12.
Mas ainda antes de tudo isso...
📍Uma situação notavelmente semelhante aconteceu no Hospital Central de Wuhan, em 18/12, quando a diretora do dep. de emergência, encontrou seu primeiro paciente com pneumonia inexplicada, um homem de 65 anos que adoeceu em 13 ou 15/12.
Na época, não se tinha o conhecimento que o paciente era um entregador no Mercado Huanan. Uma tomografia computadorizada revelou infecção em ambos os pulmões e ele não respondeu a antibióticos ou medicamentos anti-influenza
📍Em 24/12, uma amostra foi coletada dele e enviada para sequenciamento. Foi identificado um novo SARSr-CoV em 26/12 e transmitiram a descoberta por telefone ao hospital em 27/12. Em 28/12, o Hosp. Central de Wuhan identificou 7 casos, 4 estavam relacionados ao Mercado de Huanan
📍No distrito de Wuchang de Wuhan, a 15 km do mercado de Huanan, casos inexplicáveis ​​de pneumonia começaram a ser procurados, e o Departamento de Medicina Respiratória relatou 2:
👨morava no distrito de Wuchang, mas trabalhava no mercado de Huanan
👨não trabalhava no Mercado Huanan, mas tinha amigos que trabalhavam e que haviam visitado sua casa

Assim, 10 dos 19 primeiros casos de COVID-19 desses hospitais foram vinculados ao Mercado de Huanan.
Se o mercado de Huanan foi a fonte, por que apenas um a dois terços dos primeiros casos foram vinculados ao mercado? 🤔

Mas... por que alguém esperaria que todos os casos apurados semanas após o surto estivessem confinados a um mercado?
Vamos pensar juntos: Dada a alta transmissibilidade do SARS-CoV-2 e a alta taxa de propagação assintomática, muitos casos sintomáticos iriam inevitavelmente em breve perder uma ligação direta com o local de origem da pandemia
Não se deve esperar que os 1ºs casos conhecidos sejam necessariamente os 1ºs infectados/vinculados ao merc. de Huanan: podem anteceder o caso índice do surto por um período considerável (10) porque apenas ~ 7% das infecções levam a hospitalização pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/33617808/
O caso índice foi provavelmente um dos ~ 93% que nunca necessitaram de hospitalização e, de fato, segundo Worobey, poderia ter sido qualquer uma das centenas de trabalhadores que tiveram um breve contato com mamíferos vivos infectados
Se olharmos o famoso 1º caso de COVID-19, um contador de 41 anos, que vivia 30 km ao sul do merc. de Huanan e não tinha nenhuma conexão com ele, com início da doença relatado em 08/12, aparece ter adoecido com COVID-19 consideravelmente mais tarde thepaper.cn/newsDetail_for…
Mas ainda tem mais pontos importantes que Worobey nos traz dessa história, e irei falar deles nos próximos tuítes 👇🧶
Quando esse paciente foi entrevistado, ele relatou que seus sintomas de COVID-19 começaram com febre em 16/12; a doença de 08/12era um problema dentário relacionado aos dentes de leite retidos na idade adulta (tudo corroborado por prontuários médicos)
Worobey aponta que isso indica que ele foi infectado por transmissão na comunidade depois que o vírus começou a se espalhar do mercado de Huanan.
O início de seus sintomas ocorreu após vários casos em trabalhadores do Mercado de Huanan, tornando uma vendedora de frutos do mar de lá o primeiro caso conhecido, com início da doença em 11/12.
Amostras dos primeiros pacientes com COVID-19 em Wuhan foram sequenciadas e duas linhagens distintas de SARS-CoV-2, A e B, foram identificadas. Mas vejam só que curioso: segundo o relatório da OMS, temos um casal que foi conhecido como o primeiro cluster de caso da COVID-19
O marido teve a doença com início em 26/12, e deve ser a fonte da sequência da linhagem A mais antiga (número de acesso do GenBank MT291826), que ele provavelmente herdou de sua esposa, que adoeceu em 15/12.
Mell, por que isso é curioso?!

Segundo Worobey, isso levanta a possibilidade de que o mercado de Yangchahu que eles visitaram pode ter sido um local de transbordamento ("spillover" ou o famoso pulo entre espécies) de animais separado do visto no mercado de Huanan (!!!!)
Outra descoberta recente que aponta a possibilidade de não haver verdadeiros intermediários da linhagem A ou B em humanos também levanta a possibilidade as linhagens acima podem ter origens distintas, de transbordamentos/spillovers separados
virological.org/t/evidence-aga…
Os primeiros genomas da linhagem A conhecidos têm estreitas conexões geográficas com o Mercado de Huanan. Portanto, se a linhagem A tivesse uma origem animal separada da linhagem B, ambos provavelmente ocorreram no Mercado Huanan
E a associação com o Mercado Yangchahu, que não parece ter vendido mamíferos vivos, é provavelmente devido à transmissão da comunidade começando nas vizinhanças Mercado Huanan (!!!!!!)
Os mercados de animais vivos continuaram a vender animais infectados por muitos meses, permitindo que o transbordamento zoonótico fosse estabelecido como a origem e revelando vários saltos INDEPENDENTES de animais para humanos ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/34480864
Infelizmente, nenhum mamífero vivo coletado no Mercado de Huanan ou em qualquer outro mercado de animais vivos em Wuhan foi rastreado para vírus relacionados ao SARS-CoV-2, e o Mercado de Huanan foi fechado e desinfetado em 01/01/20 who.int/publications/i…
PORÉM a maioria os primeiros casos sintomáticos foram associados ao mercado de Huanan - especificamente à seção oeste, onde cães-guaxinim foram enjaulados, fornecendo fortes evidências de uma origem da pandemia no mercado de animais vivos.
Nas palavras (traduzidas) de Worobey, isso explicaria:
📍A extraordinária preponderância dos primeiros casos de COVID-19 em um dos poucos locais em Wuhan - população de 11 milhões - que vendem alguns dos mesmos animais que nos trouxeram a SARS
Embora nunca seja possível recuperar vírus relacionados de animais se amostras não foram coletadas no momento da emergência, evidências conclusivas de uma origem do Mercado Huanan podem ser obtidas através da análise de padrões espaciais de casos iniciais e de dados genômicos
Isso inclui amostras positivas para SARS-CoV-2 do mercado de Huanan, bem como por meio da integração de dados epidemiológicos adicionais.

Mell, qual a moral de toda essa historia então? Que precisamos melhorar e muito nossa vigilância, para evitar futuras pandemias.
O @g1cienciaesaude fez uma matéria bacana a partir desse artigo publicado por @MichaelWorobey na Science que pode também ser uma leitura interessante para quem quiser: g1.globo.com/saude/coronavi…
E, olhando toda essa linha do tempo incrivelmente reconstruída por Worobey, eu olho para alguns outros trabalhos que já identificaram vírus muito relacionados ao SARS-CoV-2 em outros locais, como explicado em:
E cada vez mais, isso para mim faz mais sentido: esse transbordamento, além de ter acontecido mais de uma vez, nos reafirma que eventos como este estão acontecendo com uma frequência maior do que conseguimos rastrear, atualmente
E existem muitos fatores, além da caça/venda de animais selvagens vivos, que podem estar propiciando esses eventos. São fatores que as próprias pandemias recentes ou do passado estão nos dizendo HÁ ANOS:
O alerta que fica, mais uma vez, é: estamos em risco de nos colocarmos em mais uma pandemia num futuro próximo se não mudarmos hoje questões críticas relacionados a desequilíbrios ecológicos, como desmatamento, deflorestamento

Esse alerta é MUITO pra nós:
E infelizmente, nós ainda estamos nos colocando nesse risco, aumentando mais e mais as chances de eventos como este acontecerem muito próximos de nós. Isso precisa ser prioridade, em algum momento, espero que não tarde demais

g1.globo.com/meio-ambiente/…
Parece apocalíptico o que eu tô falando, mas é a nossa realidade batendo na nossa porta. Tanto se falou em "por que não avisaram antes?" com os alertas gritando há anos. brasil.elpais.com/brasil/2021-11…
Inclusive, há décadas cientistas estão alertando sobre a próxima grande pandemia: nationalgeographic.com/science/articl…
Então por que insistimos em fingir que o perigo não é real sendo que tivemos uma amostra amarga e indigesta de como é viver quando esse perigo espreita nossas portas?

Precisamos investir em ciência. Precisamos escolher pessoas que tenham isso como prioridade, também.
Espero que alguns legados positivos prosperem no pós-pandemia: a proximidade da sociedade com a ciência, o senso de responsabilidade que devemos ter sobre nossas ações enquanto sociedade e a defesa de ações assertivas que estão alinhadas com o interesse e bem estar social.
Congratulations for the outstanding paper, @MichaelWorobey and thank you for all you efforts in tracking the earliest known cases in Wuhan!

Para quem se interessar, fio em seu perfil comentando da publicação:

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