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Feb 15, 2022 24 tweets 9 min read Read on X
Uma thread sobre como a geografia desempenha um papel fundamental na disputa entre Rússia e Ucrânia:
A Rússia é enorme. Literalmente o maior país do mundo, com 1/8 de toda a área terrestre do planeta.

Para você ter noção do quão grande é esse lugar, eu estou falando da mesma área de superfície de Plutão.

Quando o sol nasce no leste da Rússia, está se pondo no oeste.
A Rússia é aquilo que conhecemos como país transcontinental - faz parte de dois continentes: a Europa e a Ásia.

E a Rússia é tão grande que a sua parte asiática é grande o suficiente para transformá-la no maior país da Ásia, e sua parte europeia faz o mesmo na Europa.
Acontece que 75% do território russo está na Ásia, mas somente 22% dos russos vivem ali.

É na Ásia que está parte importante da riqueza natural russa - como petróleo e gás - mas os russos estão na Europa, e é esta região a maior preocupação militar de Moscou.
Este território todo, claro, não caiu dos céus para a Rússia. Foi conquistado.

Por séculos, a Rússia teve diferentes autocratas. E a relação dessas figuras com o poder está intimamente ligada:
1) à obsessão em proteger o território,
2) à influência nos países vizinhos (são 14).
Este cara aqui - Pedro, o Grande (1672-1725) - foi o primeiro imperador da Rússia e grande expoente do expansionismo russo.

Sua biografia escrita por Robert K Massie - mil páginas que fazem Game of Thrones parecer Cinderela - é material obrigatório e imperdível sobre este país.
Nos últimos séculos, a Rússia foi invadida diversas vezes pelo oeste:

Pelos poloneses, em 1605.
Pelos suecos, em 1707.
Pelos franceses, em 1812.
Pelos alemães, em 1914 e 1941.
Essa é a razão por que os russos não menosprezam a possibilidade de serem invadidos.

Desde 1812, os russos lutaram para proteger seu território, no oeste, em média, uma vez a cada 33 anos.

Como o Kremlin reage a esse risco? Expandindo ainda mais seu território.
A União Soviética resolveu essa vulnerabilidade dominando os países do Leste da Europa.

Eles formavam um bloco militar chamado Pacto de Varsóvia. Seu adversário era a OTAN, a organização militar liderada pelos EUA para proteger aliados de um possível ataque soviético.
Quando a União Soviética acabou, em 1991, esta cortina de ferro, que protegia Moscou, se desmanchou.

Milhões de habitantes de países dominados pelos russos foram às ruas pedir independência. O Pacto acabou.

Putin chama este capítulo de “maior catástrofe geopolítica do século”.
Desde então, a OTAN incorporou estes países do extinto Pacto de Varsóvia:

- República Tcheca, Hungria e Polônia, em 1999;
- Bulgária, Estônia, Letônia, Lituânia, Romênia e Eslováquia, em 2004;
- Albânia, em 2009.

Moscou, claro, reclama.
Hoje, essa é a relação dos países da extinta União Soviética com Moscou:

Neutros: Uzbequistão, Azerbaijão e Turcomenistão.
Pró-Rússia: Cazaquistão, Quirguistão, Tadjiquistão, Bielorrússia e Armênia.
Pró-Ocidente: Todos que estão na OTAN.
Não citei três países: Moldávia, Geórgia e Ucrânia.

Os três estão num limbo - até desejam fazer parte da OTAN, mas têm medo da briga com Moscou.

Dos três, ninguém representaria maior vulnerabilidade geográfica à Rússia, em caso de aliança com a OTAN, do que a Ucrânia.
Rússia e Ucrânia dividem 2 mil quilômetros de fronteira, equivalente à distância de São Paulo a Salvador. Mas esta não é uma relação pacífica.

Em setembro de 2021, 81% dos ucranianos disseram ter uma opinião negativa em relação a Putin.

ratinggroup.ua/research/ukrai…
Há diversos motivos para a rejeição a Moscou. Um deles é o trauma com o genocídio de ucranianos (não apenas um gentílico, mas uma minoria étnica) liderado por Joseph Stalin em 1932/1933.

Milhões de ucranianos morreram. E a Ucrânia não esquece essa dor.

veja.abril.com.br/cultura/o-bril…
Cada país envolvido nessa briga age na defesa de seus interesses.

A Rússia julga ter o direito natural de dominar o Leste da Europa.

Os EUA desejam enfraquecer Moscou e manter sua hegemonia global.

A Ucrânia busca melhores condições na economia e na segurança nacional.
Putin se inspira na jornada de Pedro, o Grande. E age para intimidar seus vizinhos apelando para diferentes táticas, dignas de um dos mais bem sucedidos impérios da História.

Moscou nega a países soberanos o direito de determinar seu próprio futuro.

foreignpolicy.com/2022/01/11/bal…
E o Exército não é a arma mais poderosa de Moscou - mas o gás e o petróleo. A Rússia só fica atrás dos Estados Unidos como maior fornecedor de gás natural do mundo, e não abre mão de usar esse recurso para atingir seus objetivos militares.
No meio dessa disputa está o Nord Stream 2, da estatal russa Gazprom: um gasoduto que liga a Rússia à Alemanha, ainda inativo, com capacidade de transportar 55 bilhões de metros cúbicos de gás natural por ano.

A Alemanha, maior economia da Europa, ainda depende da energia russa.
Os EUA, e seus aliados, são contrários ao Nord Stream 2 porque dizem que a Europa ficará ainda mais refém da Rússia, em troca de gás natural.

Washington acredita que Putin usará essa dependência como ferramenta de pressão em disputas com o Ocidente.
Biden promete fechar o Nord Stream 2 caso a Rússia decida invadir a Ucrânia, com sanções que tornariam o projeto inviável.

Seu governo diz que EUA e Alemanha são aliados e darão "os mesmos passos e eles serão muito, muito difíceis para a Rússia".

bbc.com/portuguese/int…
Desde novembro, a quantidade de gás natural que chega à Alemanha da Rússia despencou, elevando os preços.

Esse aumento pode jogar pressão dos consumidores no governo alemão, fortalecendo Putin.

27% da energia consumida na Alemanha vem do gás natural.

nytimes.com/2022/02/14/wor…
Vender seu excedente de gás de xisto para a Europa parece ser a solução dos EUA.

Só que esse gás precisa ser liquefeito e enviado pelo Atlântico, o que exige a construção de terminais para gás liquefeito no litoral europeu para receber essa carga e transformá-la de volta em gás.
Essa é, enfim, uma batalha baseada na geografia.

Gás, clima e terra são indispensáveis para entender este conflito político. Nós chamamos isso de geopolítica.

Se haverá uma guerra, só o tempo dirá. Mas a natureza não deixará de ser protagonista nessa história. Mais uma vez.

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Jul 23
A galera do @siteptbr publicou esse tweet mais cedo. E eu decidi explicar como funciona a eleição americana de um jeito tão fácil que mesmo o pessoal do @siteptbr conseguirá entender.

Segue a thread: Image
Pense na eleição americana como se fosse um jogo de tabuleiro.

Imagine que o mapa dos EUA seja esse tabuleiro, com os seus 50 estados.

Os dois jogadores que estão na disputa – ou seja, os candidatos a presidente – tentarão conquistar esses estados. Mas cada estado tem um peso diferente.

Ganhou a Flórida? 30 pontos pra você. Levou o Texas? Soma mais 40.Image
Como fazer pra ganhar os pontos dos estados?

Imagine que, nesse jogo de tabuleiro imaginário, você dispute cada estado recorrendo às cartas de um baralho.

Exceto em dois estados (o Maine e o Nebraska), nos demais, se você tiver uma carta maior que o seu oponente, você ganha todos os pontos disponíveis no estado. É o que a gente chama de “o vencedor leva tudo”.

Se a sua carta for muito maior que a do seu adversário, ou pouco maior, pouco importa. Se você venceu, você leva todos os pontos. O seu oponente fica com nada.

No final, considerando todas as disputas em todos os estados, quem conseguir reunir pelo menos 270 pontos, vence.Image
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Jun 26
A Bolívia está sofrendo uma tentativa de golpe de história.

Conto aqui embaixo por que essa é a sina da América Latina (e o que está acontecendo na Bolívia):
Foi como uma onda.

Desde a eleição de Hugo Chávez, em 1998, a América Latina viu a ascensão de inúmeros líderes da esquerda socialista – um período chamado pela própria esquerda de pós-neoliberalismo.

Num curto intervalo, os socialistas foram capazes de eleger presidentes no Brasil 🇧🇷, na Argentina 🇦🇷, na Bolívia 🇧🇴, no Equador 🇪🇨, no Chile 🇨🇱, na Costa Rica 🇨🇷, em El Salvador 🇸🇻, na Guatemala 🇬🇹, em Honduras 🇭🇳, na Nicarágua 🇳🇮, no Paraguai 🇵🇾, na República Dominicana 🇩🇴 e no Uruguai 🇺🇾.

Quase todos os presidentes eleitos nesses países têm algo em comum: o Foro de São Paulo.

O Foro de São Paulo é uma conferência de partidos e grupos de esquerda da América Latina e do Caribe.

Ao contrário do que possa parecer, não há nada secreto ou conspiratório a seu respeito. O Foro tem um site oficial, eventos públicos e ampla cobertura da imprensa.


A organização foi fundada em 1990 por iniciativa do Partido dos Trabalhadores, em conjunto com o Partido da Revolução Sandinista, da Nicarágua, o Partido Comunista de Cuba e outros grupos políticos da região.

O principal objetivo do Foro de São Paulo é reunir forças de esquerda da América Latina para debater estratégias e ações conjuntas, e alcançar o poder.

O Foro surgiu em um contexto de queda do Muro de Berlim e do colapso da União Soviética, eventos que forçaram uma reconfiguração das forças políticas de esquerda em todo o mundo. Na América Latina não foi diferente.

Ao longo dos anos, o Foro de São Paulo tem sido alvo de críticas e controvérsias.

Enquanto alguns veem a organização como uma plataforma importante de articulação da esquerda latino-americana, outros a criticam pela promoção de agendas populistas e autoritárias.

O que não dá pra negar é que o Foro tem desempenhado um papel significativo na política da América Latina nas últimas décadas.

Esses são os membros mais importantes da organização:

- o Partido dos Trabalhadores, do Brasil;
- o Movimento para o Socialismo, da Bolívia;
- o Partido Comunista de Cuba;
- a Frente Sandinista de Libertação Nacional, da Nicarágua;
- o Movimento Regeneração Nacional, do México;
- a Frente Ampla, do Uruguai;
- o Partido Socialista Unido da Venezuela;
- o Partido Liberdade e Refundação, de Honduras;
- o Partido Revolucionário Moderno, da República Dominicana;
- o Partido Revolucionário Democrático, do Panamá
- o Partido Trabalhista de Santa Lúcia.

Todos esses partidos governaram os seus países nessa década. Muitos estão no poder nesse momento.

Todos comungam de uma rejeição à influência dos Estados Unidos na América Latina.

E a origem desse sentimento é bastante justificável.forodesaopaulo.orgImage
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Nos primeiros anos do século 20, os Estados Unidos promoveram um capítulo da história conhecido como Guerra das Bananas. Washington interviu diretamente na política de inúmeros países da América Central – muitas vezes militarmente – para defender os seus interesses.

Muitos dos países da região são chamados até hoje de República das Bananas porque, nesse tempo, parte importante da economia deles dependia da produção de banana.

Esse modelo de intervenção ficou conhecido como Big Stick – grande porrete, em inglês – e teve o presidente Theodore Roosevelt (1901-1909) como principal expoente.

Num curto intervalo de tempo, tropas americanas desembarcaram no México, no Haiti, na República Dominicana, em Cuba, no Panamá e na Nicarágua.

Essas intervenções geraram imensa antipatia a Washington na região.

A política do Big Stick durou três décadas e só foi encerrada em 1933 quando outro Roosevelt, o presidente Franklin Delano Roosevelt (1933-1945), inaugurou a Good Neighbor Policy – ou seja, a Política da Boa Vizinhança – acabando com o modelo de intervenção direta na região.

Mas não se engane: essa decisão não afastou os Estados Unidos de participarem de outros golpes de estado na América Latina.

Na Guerra Fria, Washington travou uma batalha violenta no nosso continente contra os russos.

Em 1954, na Guatemala, a CIA orquestrou um golpe que derrubou o presidente Jacobo Árbenz, um coronel acusado de ter laços com os soviéticos.

Sete anos depois, em Cuba, os americanos patrocinaram a invasão da Baía dos Porcos: uma tentativa fracassada de derrubar o governo do ditador Fidel Castro.

Em 1973, no Chile, Washington apoiou o golpe militar que derrubou o presidente Salvador Allende e levou Augusto Pinochet ao poder.

Países do bloco socialista também têm a sua dose de influência no continente: dos sandinistas da Nicarágua aos chavistas na Venezuela, dos fidelistas cubanos ao Sendero Luminoso no Peru. Muito sangue já foi derramado no continente motivado pela promessa de uma revolução da classe trabalhadora.Image
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Jun 18
Três notícias dos últimos dias que escancaram a hipocrisia ideológica:
1.

Nessa semana, viralizou um vídeo de apoio de pastores evangélicos a Nicolás Maduro.

Maduro está transformando a Venezuela numa espécie de Evangelistão da América do Sul.

O ditador venezuelano diz que, ao contrário dos católicos, os evangélicos são “a verdadeira igreja de Deus”, e está transformando a religião num braço do Estado.

Em 2023, ele chegou a lançar um programa de governo chamado Mi Iglesia Bien Equipada, para prestar suporte financeiro aos pastores do país.
elpais.com/internacional/…
O governo venezuelano é hoje o mais terrivelmente evangélico da América Latina.

Nos últimos anos, Maduro instituiu o dia 15 de janeiro como o Dia do Pastor, e o 15 de junho como o Dia do Arrependimento e da Esperança em Cristo.

Há algum tempo, os evangélicos são consultados em qualquer iniciativa legislativa que envolva a família tradicional.


No mês passado, Maduro chegou a receber da comunidade evangélica o título de “Protetor da Família”, reconhecendo “o seu compromisso com a defesa da unidade familiar como força vital da sociedade”.
oglobo.globo.com/mundo/noticia/…
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Jun 16
Hoje, o governo brasileiro se recusou a assinar a declaração final sobre a Cúpula pela Paz na Ucrânia, assinada por 80 países.

A razão é uma só: o que Lula deseja na guerra da Rússia na Ucrânia não é um plano de paz, mas um termo de rendição da Ucrânia.

Conto aqui embaixo:
Lula nunca escondeu a sua subserviência à Rússia.

Em 2022, ele chegou a dizer que Zelensky era culpado pela Rússia ter invadido o território ucraniano.


Na ocasião, lamentou as críticas que a comunidade internacional fazia a Putin:

“As pessoas estão estimulando o ódio contra o Putin. Isso não vai resolver!”


Lula, no entanto, sempre estimulou ódio a Zelensky. Ele chegou a dizer que, ao pedir apoio internacional para que a Ucrânia não desaparecesse do mapa, Zelensky (“um bom comediante”) estava usando a guerra para “aparecer”:

“Eu não conheço o presidente da Ucrânia. Agora, o comportamento dele é um comportamento um pouco esquisito, porque parece que ele faz parte de um espetáculo. Ou seja, ele aparece na televisão de manhã, de tarde, de noite, aparece no parlamento inglês, no parlamento alemão, no parlamento francês como se estivesse fazendo uma campanha. Era preciso que ele estivesse mais preocupado com a mesa de negociação.”

“Ele quis a guerra. Se ele [não] quisesse a guerra, ele teria negociado um pouco mais.”

“Você fica estimulando o cara [Zelensky] e ele fica se achando o máximo. Ele fica se achando o rei da cocada, quando na verdade deveriam ter tido conversa mais séria com ele: ‘Ô, cara, você é um bom artista, você é um bom comediante, mas não vamos fazer uma guerra para você aparecer’.”

“Numa guerra não tem apenas um culpado.”


Qual é a negociação que Zelensky deveria adotar para encerrar a guerra? Para Lula, ceder às exigências russas e entregar o seu território a Moscou.

Em 2023, Lula criticou o presidente ucraniano dizendo que Zelensky não poderia “querer tudo” e deveria abrir mão de parte do território do seu país para as forças invasoras russas.


É exatamente o que o Kremlin deseja: o fim da guerra mediante a anexação do território ucraniano. A “paz” é apenas um instrumento retórico.em.com.br/app/noticia/po…
veja.abril.com.br/coluna/radar/p…
veja.abril.com.br/coluna/radar/p…
noticias.uol.com.br/ultimas-notici…
Lula nunca foi visto pela comunidade internacional como um líder político neutro em busca da paz, um chefe de estado que procura não se alinhar à Rússia e à Ucrânia para manter uma posição independente no conflito.

Nem Rússia e Ucrânia enxergam Lula dessa forma.

Em 2023, Sergey Lavrov, o ministro das Relações Exteriores russo, rasgou elogios a Lula dizendo que “Brasil e Rússia tem uma visão alinhada”.


O governo ucraniano, por outro lado, vive criticando Lula pela sua visão alinhada à Rússia.


Para Putin, Lula é um amigo. Para Zelensky, Lula é um propagador das narrativas russas.


A mera sugestão de que o governo brasileiro tem independência para intermediar este conflito demonstra o cinismo do chefe de estado brasileiro.

Lula pensa que todo mundo é otário, menos ele. Mas o seu papel em relação à Rússia é, no máximo, o de uma chacrete de Moscou.poder360.com.br/brasil/lavrov-…
gazetadopovo.com.br/republica/zele…
www1.folha.uol.com.br/mundo/2023/08/…
Read 6 tweets
Jun 12
Nessa semana, fui provocado no X a falar sobre a extrema-direita.

Muitos usuários dessa rede social não acreditam sequer que ela existe.

Será verdade? O que é a extrema-direita?

Essa é a maior thread que eu já publiquei aqui:
Em linhas gerais, esses são os maiores partidos de extrema-direita na Europa:

O Rassemblement National (conhecida até pouco tempo como “Front National”), da França. 🇫🇷

O Alternative für Deutschland (AfD), da Alemanha. 🇩🇪

A Lega Nord, na Itália. 🇮🇹

O Freiheitliche Partei Österreichs (FPÖ), na Áustria. 🇦🇹

E o Fidesz, na Hungria, sob a liderança de Viktor Orbán, o primeiro-ministro do país. 🇭🇺

Por que eles são considerados de extrema-direita – e o que define a extrema-direita – eu falarei mais à frente.

Mas é um fato que muitos dos eleitores conservadores brasileiros se sentem pessoalmente ofendidos quando esses partidos são chamados de extrema-direita.

A ironia é que essas organizações, e as suas lideranças políticas, estão umbilicalmente conectados a dois adversários geopolíticos históricos da direita: a Rússia e a China.

Como eu mostrarei na sequência, muitos dos militantes conservadores brasileiros estão tão cegos por ideologia que são incapazes de perceber, mas espalham propaganda russa e chinesa nessa rede social sob a pretensa desculpa de defender o pensamento político conservador.Image
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Vamos à Alemanha.

Maximilian Krah, um dos líderes do Alternative für Deutschland (AfD), membro do Parlamento Europeu, alimentou nos últimos anos laços inegáveis com a China.


No último mês de abril, o chinês Jian Guo, o seu assistente no parlamento, foi preso em Dresden, acusado de espionar para Pequim. Jian passava informações sobre as negociações e as decisões do Parlamento Europeu para o serviço de inteligência chinês.


Para os alemães, nada disso impressiona. Ao contrário dos líderes da direita alemã, Maximilian Krah é um defensor de longa data de Pequim. Para ele, a Alemanha deveria usar o dinheiro chinês para se fortalecer numa zona de livre comércio com a Rússia e fazer frente aos Estados Unidos. Ele acusa a União Europeia de ser “vassala” dos americanos.

Krah diz publicamente que todas as acusações que a China recebe da imprensa e de organizações internacionais não passam de “propaganda anti-chinesa”.

Diferentes pessoas que trabalharam com Krah nos últimos anos já receberam financiamento chinês. Jian Guo, o assistente preso, chegou a se infiltrar em grupos anti-Pequim na Alemanha para relatar o que acontece nesses movimentos para a inteligência chinesa.

Muitos dos líderes do AfD falam mandarim e visitam a China com frequência. Alguns até já moraram na China.


O próprio Maximilian Krah vive dando entrevistas para os jornais estatais chineses. E já produziu diferentes vídeos dando felicitações para o Partido Comunista Chinês (um deles pelo 70º aniversário da ocupação chinesa do Tibete).



No Parlamento Europeu, Krah foi o vice-presidente de um grupo chamado “EU-China Friendship Group”, que defendia uma cooperação mais estreita dos europeus com os chineses, financiado diretamente pelo Partido Comunista Chinês.

Uma reportagem publicada pelo Politico, de 2020, denunciou as intenções do grupo e, desde então, as suas atividades foram suspensas.


O grupo ficou impedido de usar o logotipo e o nome do Parlamento Europeu.


Adivinha só de onde vinha a maior parte dos seus membros? Pois é: da extrema-direita.


Em 2018, Maximilian Krah foi até a China palestrar para a Silk Road Think Tank Association (SRTA), uma organização liderada pelo Departamento Internacional do Comitê Central do Partido Comunista da China.


Segundo o Bundesamt für Verfassungsschutz (BfV, Gabinete Federal para a Proteção da Constituição), esse organismo é parte do aparelho dos serviços secretos chineses e desempenha um papel fundamental na “obtenção de informação política de alta qualidade e na influência dos processos de tomada de decisão no exterior”.

Em 2019, Krah voou até Pequim, na classe executiva, e passou seis dias em hotéis luxuosos. Essa viagem foi financiada por empresas chinesas ligadas ao Estado, como a Huawei e a China National Petroleum Corporation (CNPC).

Krah foi até o país para se reunir com o Departamento Internacional do Comitê Central do Partido Comunista da China.

No mês passado, Krah disse que o Ocidente não governa o mundo e deveria parar de ter paranoia com a China. Ele defende publicamente que a China reconquiste Taiwan e diz que as críticas contra os abusos de direitos humanos no país são “irrelevantes”.



Maximilian Krah, como muitos membros do AfD, nasceu na Alemanha Oriental e, há muitos anos, estudou na China. Ele é acusado por outros membros do Parlamento Europeu de ser o “vassalo mais barulhento” de Pequim na instituição.


Como relata a imprensa asiática, a China encontrou na extrema-direita europeia uma aliada no continente. O AfD não é o único grupo próximo de Pequim.


Viktor Orban, amigo de Trump e Bolsonaro, é um dos principais aliados da China na Europa. Sob o seu governo, a Hungria virou uma espécie de modelo de relacionamento para Pequim.




Orban vive elogiando Pequim e diz que a China é “um dos pilares estruturais da nova ordem mundial”.


No mês passado, Xi Jinping foi recebido na Hungria literalmente num tapete vermelho. Ele e Orban assinaram 16 acordos de cooperação e Orban o chamou de “amigo de longa data”.


O presidente sérvio Aleksandar Vučić, outro líder da direita populista europeia, já chegou até a beijar a bandeira chinesa num evento público.



No mês passado,Vučić disse que nenhum outro país no mundo reverencia tanto Xi Jinping como a Servia:


“Eu disse a ele que, como líder de uma grande potência, ele será recebido com respeito em todo o mundo, mas a reverência e o amor que ele encontra na nossa Sérvia não serão encontrados em nenhum outro lugar.”

Da perspectiva chinesa, a cooperação com a extrema-direita do leste e da região central da Europa é uma grande oportunidade. Mas falarei sobre isso mais adiante.t-online.de/nachrichten/de…
bbc.com/news/world-eur…
rnd.de/politik/alice-…
globaltimes.cn/page/202211/12…
europeantimes.news/2021/05/member…
politico.eu/article/china-…
politico.eu/article/eu-chi…
sinopsis.cz/wp-content/upl…
spiegel.de/netzwelt/netzp…
ft.com/content/712a4a…
dw.com/en/china-court…
barrons.com/news/maximilia…
asia.nikkei.com/Politics/Inter…
politico.eu/article/xi-jin…
ft.com/content/5b55ef…
nytimes.com/2024/05/09/wor…
miniszterelnok.hu/en/statement-b…
eunews.it/en/2024/05/09/…
news.cgtn.com/news/2020-03-2…
thetimes.com/uk/politics/ar…
politico.eu/article/xi-jin…Image
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Jun 10
Nesse final de semana teve eleição para o Parlamento Europeu.

Qual foi o resultado? Para que serve esse negócio? É verdade que a extrema-direita veio com tudo? E a esquerda?

Conto nessa thread:
O Parlamento Europeu desempenha um papel significativo na vida dos cidadãos dos países membros da União Europeia (são 27 países).

Entre outras coisas, o grupo cria leis que regulam o mercado europeu (normas sobre concorrência, normas técnicas, direitos do consumidor, regulamentações empresariais, etc), leis ambientais, políticas comuns em agricultura e pesca, leis relacionadas a direitos fundamentais (como asilo e imigração), regulamentos sobre saúde pública e políticas de segurança*.

*Cabe registrar que a política externa e de defesa é principalmente da competência dos países, e não do Parlamento Europeu, e, por isso, o resultado das eleições para o parlamento não produz qualquer impacto imediato no apoio da União Europeia à Ucrânia.Image
As eleições para o Parlamento Europeu ocorrem a cada cinco anos. Qualquer cidadão de um país membro da União Europeia pode participar (até 370 milhões de pessoas estão aptas a votar).

Cada país membro da União Europeia organiza as suas próprias eleições para o parlamento, seguindo certas regras gerais, com algumas variações. A maioria dos países utiliza algum tipo de sistema de representação proporcional. Isso significa que o número de assentos que cada partido ganha é proporcional ao número de votos que eles recebem.

O Parlamento Europeu é composto por 720 membros, chamados de eurodeputados.

Esses 720 assentos são distribuídos entre os países membros com base na população, mas não de forma estritamente proporcional. Países menores têm proporcionalmente mais assentos do que países maiores. Por exemplo, Malta, um dos menores países da União Europeia, tem 6 assentos, enquanto a Alemanha, o maior país em termos de população, tem 96 assentos.

Na hora de votar, os cidadãos votam em partidos políticos nacionais.

Após as eleições, esses eurodeputados eleitos se juntam em grupos parlamentares (há sete deles), baseados em afinidades políticas, não em nacionalidade.Image
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