Pensar a História Profile picture
May 7, 2022 24 tweets 9 min read Read on X
Há 78 anos, em 7/5/1944, nascia a militante marxista Iara Iavelberg, integrante da luta armada contra a ditadura. Iara atuou em diversas organizações revolucionárias e foi companheira de Lamarca, com quem se relacionou até ser assassinada por agentes da ditadura em 1971.

1/24
Iara Iavelberg nasceu em São Paulo, em uma família afluente de origem judaica. Casou-se com um médico quando tinha apenas dezesseis anos de idade. Muito conturbado, o relacionamento chegaria ao fim três anos depois. Iara passaria então a se dedicar aos estudos.

2/24
Em 1964, mesmo ano em que ocorreu o golpe militar, ingressou no curso de psicologia da USP. Ocupou-se do estudo do marxismo e começou a atuar no movimento estudantil. Namorou por um breve período com José Dirceu, então vice-presidente do DCE da PUC-SP.

3/24
Reagindo ao agravamento da repressão, Iara aderiu às organizações da esquerda radical. Militou na Organização Revolucionária Marxista Política Operária (Polop), na Vanguarda Popular Revolucionária (VPR) e na Vanguarda Armada Revolucionária Palmares (VAR-Palmares).

4/24
Em abril de 1969, iniciou um relacionamento amoroso com Carlos Lamarca, ex-capitão do Exército Brasileiro e um dos principais líderes da guerrilha. Os dois começaram a viver juntos e tiveram de passar meses se escondendo dos aparelhos repressivos.

5/24
Em 1970, após o assassinato de Carlos Marighella, Iara, Lamarca e um grupo de guerrilheiros deixaram a capital paulista e partiram para o Vale do Ribeira, onde estabeleceram um núcleo de treinamento de guerrilha.

6/24
Iara recebia treinamento militar e administrava aulas de teoria marxista aos guerrilheiros. O núcleo teve de ser abandonado pouco tempo depois, após ser atacado por uma incursão do II Exército.

7/24
Poucos meses depois, Lamarca coordenaria o sequestro do embaixador suíço Giovanni Bucher, libertado em troca da soltura de 70 presos políticos. A ação foi bem sucedida, mas resultou no agravamento da repressão, que dearticulou por completo a VPR.

8/24
Em 1971, Iara e Lamarca ingressaram no Movimento Revolucionário Oito de Outubro (MR-8). Iara passou a atuar na cúpula da organização e Lamarca foi incumbido de organizar uma nova célula revolucionária no interior da Bahia.

9/24
Em junho de 1971, Iara e Lamarca estiveram juntos pela última vez. O ex-capitão seguiu para a região da Chapada Diamantina e Iara estabeleceu-se em Salvador, em um apartamento no bairro da Pituba.

10/24
Pouco tempo depois, a polícia do RJ prendeu o guerrilheiro José Carlos de Souza, que, sob tortura, entregou a localização de Iara. O exército montou então uma ofensiva, dita Operação Pajussara, articulada em conjunto com o DOI-CODI baiano e chefiada pelo delegado Fleury.

11/24
Na madrugada do dia 20 de agosto, o coronel Luiz Arthur de Carvalho e seus agentes cercaram e invadiram o prédio onde Iara residia em Salvador e atacaram o apartamento com bombas de gás lacrimogêneo.

12/24
Conforme o relato dos militares, Iara teria se suicidado com um tiro no peito para evitar sua prisão. Tinha 27 anos de idade. Na mesma operação, os militares prenderam Nilda Carvalho Cunha, uma jovem de 17 anos, também militante do MR-8, que morava no mesmo local.

13/24
Nilda seria submetida a severas torturas, morrendo 3 meses depois. A mãe de Nilda, Esmeraldina, denunciou as atrocidades cometidas contra a filha e também morreu em circunstâncias suspeitas. Em 2006, a Comissão da Verdade reconheceu a participação do Estado em sua morte.

14/24
Lamarca, por sua vez, seria executado pela ditadura em 19 de setembro de 1971.
O corpo de Iara foi deixado por um mês em uma gaveta no IML e posteriormente entregue à família em um caixão lacrado, com sua abertura sendo expressamente vetada.

15/24
Iara foi sepultada na ala dos suicidas do Cemitério Israelita do Butantã, com os pés voltados para a lápide, de costas para os demais jazigos, em referência à "desonra" do ato do suicídio.

16/24
A família de Iara, entretanto, nunca acreditou no relato oficial, conjecturando que o suicídio fora forjado. Em 1997, durante o depoimento do jornalista Bernardino Furtado à Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos, a suspeita se confirmou.

17/24
O jornalista revelou que o sargento Rubem Otero, que participara da operação em 1971, afirmou ter disparado contra Iara. A informação foi posteriormente inclusa no livro "Lamarca - O Capitão da Guerrilha", escrito por Emiliano José e Oldack Miranda.

18/24
A presença de marcas de tiros nas paredes do apartamento onde Iara morava foi confirmada pela dona do imóvel. Além disso, arquivos da Polícia Federal na Bahia traziam o registro de que Iara havia gritado "eu me entrego" aos agentes antes de sua morte.

19/24
A família de Iara exigiu na justiça a exumação do corpo. Os restos mortais foram analisados por Daniel Romero Muñoz, professor de medicina legal da USP, que concluiu que o tiro que matou a guerrilheira foi disparado de longa distância, descartando a hipótese de suicídio.

20/24
Com base nas novas informações, a família conseguiu obrigar a Federação Israelita de São Paulo a reposicionar os restos mortais de Iara, removidos da ala dos suicidas do Cemitério Israelita.

21/24
Em 2004, no segundo ano do governo Lula, a Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos do Governo Federal reconheceu oficialmente a responsabilidade do Estado brasileiro pela morte de Iara Iavelberg.

22/24
A militante foi homenageada emprestando seu nome ao Centro Acadêmico do Instituto de Psicologia da USP. Sua trajetória foi extensamente detalhada no livro "Iara: Reportagem Biográfica", de Judith Lieblich Patarra.

23/24
Em 2014, Mariana Pamplona, sobrinha da guerrilheira, lançou o documentário "Em Busca de Iara", com novas informações que desmentem a farsa montada pela ditadura militar para encobrir o assassinato da militante. A obra recebeu menção honrosa do festival "É Tudo Verdade".

24/24

• • •

Missing some Tweet in this thread? You can try to force a refresh
 

Keep Current with Pensar a História

Pensar a História Profile picture

Stay in touch and get notified when new unrolls are available from this author!

Read all threads

This Thread may be Removed Anytime!

PDF

Twitter may remove this content at anytime! Save it as PDF for later use!

Try unrolling a thread yourself!

how to unroll video
  1. Follow @ThreadReaderApp to mention us!

  2. From a Twitter thread mention us with a keyword "unroll"
@threadreaderapp unroll

Practice here first or read more on our help page!

More from @historia_pensar

Jan 19
Há 81 anos, as forças soviéticas libertavam os sobreviventes do Gueto de Lodz, na Polônia. Lodz foi o segundo maior gueto nazista da Europa, atrás apenas de Varsóvia. Mais de 210 mil pessoas foram encarceradas no local. Leia mais no @operamundi

1/25

operamundi.uol.com.br/pensar-a-histo…
Logo após a invasão da Polônia em 1939, os ocupantes nazistas instituíram uma violenta política de segregação dos judeus. Na cidade de Lodz, conhecida por ter uma significativa comunidade judaica, os alemães reservaram um distrito para confinar a população judia.

2/25 Image
A ordem para criar o gueto foi dada por Friedrich Übelhör, o interventor nazista. Para intimidar a população e forçá-la ao deslocamento, os alemães perpetraram uma série de chacinas e massacres — nomeadamente a "Quinta-Feira Sangrenta", quando 350 judeus foram assassinados.

3/25 Image
Read 26 tweets
Jan 9
O governo brasileiro anunciou o envio de 100 toneladas de medicamentos e insumos médico-hospitalares à Venezuela. A ação ocorre após um bombardeio dos Estados Unidos destruir o maior centro de distribuição de medicamentos do país vizinho.

1/7 Image
A iniciativa prioriza o atendimento a cerca de 16 mil pacientes venezuelanos que dependem de hemodiálise, cujo tratamento foi comprometido após o ataque. A primeira remessa, com 40 toneladas de materiais essenciais, deve partir ainda hoje para Caracas.

2/7 Image
O material inclui filtros, linhas arteriais e venosas, cateteres, soluções para diálise e medicamentos de uso contínuo. Os insumos foram arrecadados com doações de laboratórios públicos, hospitais universitários e organizações filantrópicas brasileiras.

3/7 Image
Read 7 tweets
Jan 5
A polícia de São Paulo desconfia que um assalto a um laboratório da USP ocorrido durante o Réveillon tenha sido motivado por espionagem científica industrial. Dois computadores com HD e software desenvolvidos na USP foram levados durante a ação.

1/8 Image
O assalto ocorreu na madrugada de 1º de janeiro de 2026. Quatro homens armados invadiram a sede do Instituto de Energia e Ambiente da Universidade de São Paulo (IEE-USP) e renderam os dois seguranças de plantão. Os vigilantes foram presos na cozinha do instituto.

2/8 Image
Uma van branca foi utilizada para transportar o material subtraído. Os criminosos levaram 8 bobinas de fios de cobre, 80 metros de cabos plásticos e aparelhos celulares. Diversos equipamentos e instalações foram destruídos ou danificados.

3/8 Image
Read 8 tweets
Dec 4, 2025
Há 66 anos, o general Lott esmagava a Revolta de Aragarças, levante golpista contra o governo de Juscelino Kubitschek. A revolta foi conduzida por militares que já tinham tentado um golpe 3 anos antes, mas receberam anistia. Leia no @operamundi

1/25

operamundi.uol.com.br/pensar-a-histo…
Candidato à presidência pelo PSD na eleição de 1955, Juscelino Kubitschek (JK) se apresentou ao eleitorado como herdeiro político de Getúlio Vargas, prometendo trazer ao Brasil “50 anos de desenvolvimento em 5 anos de mandato”.

2/25 Image
JK conseguiu herdar os votos de Vargas e foi eleito presidente. O mesmo ocorreu com João Goulart, ex-Ministro do Trabalho de Vargas, que foi eleito como vice em votação separada.
Mas, ao mesmo tempo, JK e Goulart também herdaram a fúria do antigetulismo.

3/25 Image
Read 26 tweets
Nov 13, 2025
O Ministério Público de Milão anunciou abertura de uma investigação formal contra cidadãos italianos suspeitos de terem participado de "safáris humanos" durante a Guerra da Bósnia. Os turistas europeus pagavam até R$ 600 mil para matar civis por diversão.

1/15 Image
O caso ocorreu durante o Cerco de Sarajevo, episódio dramático da Guerra da Bósnia, que se estendeu de 1992 a 1996. Considerado um dos mais violentos cercos militares do século 20, a ofensiva contra a capital bósnia deixou cerca de 12.000 mortos e 60.000 feridos.

2/15 Image
Conforme a denúncia, o serviço era ofertado pelo exército sérvio-bósnio, chefiado por Radovan Karadzic, preso desde 2008. O Tribunal Penal Internacional para a ex-Iugoslávia o condenou a 40 anos de prisão por genocídio e crimes contra a humanidade.

3/15 Image
Read 15 tweets
Nov 7, 2025
Há 129 anos, uma expedição militar era enviada para destruir Canudos. Convertida em um "paraíso dos pobres", a comunidade foi rotulada como uma ameaça à ordem vigente e submetida a um massacre que deixou 25.000 mortos. Leia mais no @operamundi

1/27

operamundi.uol.com.br/pensar-a-histo…
No fim do século 19, o sertão nordestino estava mergulhado em uma grave crise social. A terra seguia concentrada nas mãos dos latifundiários, os trabalhadores sofriam com o flagelo da seca e os ex-escravizados vagavam implorando por trabalho nas fazendas da região.

2/27 Image
Nesse cenário desolador, muitos sertanejos buscavam na fé a força para enfrentar o sofrimento cotidiano. Nas áreas remotas, onde a igreja também era ausente, essa dinâmica fortaleceu o messianismo rústico, muito influenciado pelas tradições religiosas populares.

3/27 Image
Read 28 tweets

Did Thread Reader help you today?

Support us! We are indie developers!


This site is made by just two indie developers on a laptop doing marketing, support and development! Read more about the story.

Become a Premium Member ($3/month or $30/year) and get exclusive features!

Become Premium

Don't want to be a Premium member but still want to support us?

Make a small donation by buying us coffee ($5) or help with server cost ($10)

Donate via Paypal

Or Donate anonymously using crypto!

Ethereum

0xfe58350B80634f60Fa6Dc149a72b4DFbc17D341E copy

Bitcoin

3ATGMxNzCUFzxpMCHL5sWSt4DVtS8UqXpi copy

Thank you for your support!

Follow Us!

:(