Agora que as crianças pararam de dar chilique, vamos ter um papo de adulto sobre COMUNISMO? Segue o fio.

Só fica a dica: meu compromisso sempre é com a crítica. Se vc veio aqui buscando conforto ideológico, recomendo procurar em outro lugar. Talvez na frente de um espelho.
Vou me deter ao webcomunismo, a militância comunista nas redes.

Como vcs sabem, estou há mais de dez anos falando de quadrinhos e cultura pop nas redes. Sou professor universitário. Atuo nas áreas de cultura e estética na graduação e pós. E sim, dou aula de teoria marxista.
Uma coisa que é estudada (e as feministas em mto ajudaram nisso) é a obsolescência do homem. Percebam: o masculino é um mito fundamental de intervenção no mundo. Por isso, culturalmente, mulheres são associadas à natureza. Já o homem supostamente penetra a natureza, a transforma.
Por mais criticável que seja esse mito, ele deu lugar e sentido ao homem por muito tempo. Ocorre que hj cada vez menos homens fazem a diferença. As máquinas, a independência da mulher, a complexidade dos processos e a guerra por drones e teleguiados tornou o homem inútil.
Se até ontem o macho se afirmava consertando um fusca, hoje nem mesmo um mecânico experiente vai conseguir consertar um tesla. Por isso, diante da inutilidade, só sobrou pro homem a performance. Algo óbvio entre reacionários (motociatas, clubes de tiro, "orgulho hetero" etc)
O ponto é que todo homem, do espectro político que for, está sujeito a essa crise de identidade. Daí que vem minha crítica ao webcomunismo. Como disse, estou na internet há mto tempo. E conheço bem retórica de incel. Por isso o meu espanto qdo vejo ela entre webcomunistas.
Notem, não estou falando das mesmas gírias, mas sim de mimetismo comportamental. De uns tempos pra cá comecei a reparar certas coisas.

1. a presença desproporcional de homens na militância webcomunista. Ao menos, naquela que dá em grito nas redes.
2. a reabilitação sistemática da figura do Stalin (daí Losurdo ser pra alguns tão fundamental e "incriticável"). É curioso como fotos pró-Stalin lembram a estética channer. São homens (mtas vezes jovens) em uma foto propositalmente tosca e felizes por sentirem que estão chocando.
3. a necessidade de agredir e "zoar" a Hannah Arendt com um vocabulário e práticas que se assemelham a de um incel. Intrigante como q diante de tantas pessoas que o comunismo poderia criticar e zoar, sobrou para uma mulher judia, que sequer era de direita, receber tanta porrada.
4. negação de valor de literaturas ou pensamentos externos aos "autores da esquerda radical" (uma lista que, cabe dizer, é bastante discutível). Isso pode parecer coerência ideológica, mas resulta apenas em desculpas para dogmatismos de pensamento e falta de erudição.
Inclusive a ofensa "fulano é pós-moderno" virou uma coisa elástica e sem qq rigor, atribuída a qq pensamento mais recente não alinhado e, por isso, supostamente sem valor.

5. O entendimento quase religioso de "radical" de esquerda. O que é ser radical?
Aparentemente radical virou muito mais um sentido de pertença do que de ação. Ser radical, nesse contexto, serve pro sujeito sentir-se excepcional. Daí o narcisismo evidente: para o radical só é radical quem é igual a ele. O diferente, portanto, vira algo de "menor valor".
6. Ainda sobre radicalidade (ou a falta dela), chama a atenção como o discurso (na maioria das vezes feito por homens, reitero) cada vez menos vai na direção de desativar aparatos repressivos. A rigor, isso seria algo radical, "ir na raiz do problema". Mas não.
O que fica cada vez mais presente na retórica é um assenhoramento destes mesmos aparatos de repressão. Nem que seja na base de meme. Pouco importa. O humor é um sintoma social, como td mundo bem sabe.

Então, para sintetizar e concluir, a minha análise e crítica são a seguinte:
A impotência do homem não é algo imune a um comunista na internet. Pelo contrário, o imaginário de poder que a revolução traz parece preencher essa crise de identidade masculina. Afinal, "graças à causa, eu tenho algo a fazer". Mas essa fantasia de poder cobra seu preço.
Primeiramente, por um machismo, ou para sermos mais precisos, um masculinismo que se encanta com "homens fortes". A dificuldade de se criticar Stalin, esquivando-se em comentários contextualistas, ou mesmo o venerando, é o sintoma mais óbvio. Assim como as agressões à Arendt.
Já o narcisismo, como apontei, é uma espécie de defesa identitária. É como se o sujeito repetisse a si a td momento "eu sou forte, sou radical, eu sou, não você, eu". Daí a ojeriza por pensamentos distintos, excluídos do campo da "radicalidade" (no caso, da identificação de si).
Por tudo isso que digo que o webcomunista, caso siga refratário a críticas, corre o risco de se tornar um novo channer. Na verdade, conforme mostrei, isso já está acontecendo. Obviamente não estou generalizando, existem mtos webcomunistas que fogem a isso.
Mas seria negacionismo fechar os olhos para os sintomas e fenômenos perceptíveis nas redes.

Aliás, os possíveis ataques que seguirão a esse fio vão servir de exemplo. "Isso é anti-comunismo, pós-moderno, é ferradura, falta radicalidade, Stalin matou foi pouco" etc.
E apesar de não ter nada a ver com a minha crítica, me antecipo à pergunta. "Vc é comunista?". E a minha resposta é sempre a mesma: até posso ser, mas se as críticas que faço são critérios para NÃO ser, então eu não sou. Não sou adolescente pra brigar por aceitação de tribo.
Atualização. Esqueci de acrescentar quem lê tudo isso e fala "é pauta moral". 1. seria bom saber a diferença entre moral e ética. 2. imagina esse povo no séc XIX: "Marx esse papo de reificação, fetichização, ideologia, subjetivação etc é pós-moderno, pauta moral, nada a ver".

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Jan 26
Como sempre rola "disse me disse", vou fazer esse fio para explicar de uma vez por todas qual é a minha visão sobre O MERCADO DE HQs BR. Como vcs poderão constatar, é um diagnóstico e não uma troca de ofensas. Portanto, apreciaria que ninguém apelasse para isso.

Segue o fio. 🧶
Muitos fatores explicam o mercado que temos, mas o principal, a meu ver, é a concomitância de um mercado fraco (independentes, editoras pequenas q publicam autores nacionais etc) e um império (Mauricio de Sousa Produções). Isso obviamente vai produzir assimetrias nas relações.
Isso é algo bastante estudado na sociologia e na psicologia comportamental. Quando vc tem focos de poder em um grupo, as pessoas tendem, conscientemente ou não, a se alinhar a esse foco. Isso se aplica tb à CCXP e outros focos circunstanciais (influencers, artistas famosos etc).
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Jan 23
Mais uma vez sou vítima de difamações do coletivo Molotov HQ. Supostamente comunistas, eles dizem que a discordância é política piriri pororó. Não é verdade. 1ª ponto: eles inventam mentiras sobre mim, e só as fazem qdo eu ganho atenção da bolha comuna. Em suma, parece inveja.
Porém, o mais sério é o qto figuras do coletivo não esclarecem suas ligações diretas e indiretas com o alto empresariado de quadrinhos (leia-se, dentuça e gorduxa). Afinal, nada fizeram qdo fui violentamente atacado por fazer uma pesquisa sobre o problemático mercado de HQs.
Também não se manifestaram qdo critiquei evento milionário que convidou a classe artística p/ trabalhar de graça. Também não acharam ruim qdo agentes dependentes da reaçada que manda na cena de HQ estavam fazendo pirraça, dizendo que eu havia morrido com minha filha no hospital.
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Nov 9, 2022
Estamos chegando perto do fim do ano. Já dá pra fazer uma análise do mercado de quadrinhos do Brasil? Mais especificamente, lançamentos? Eu tenho já alguns pareceres. Comentem aí o que acham.

🧶
A Veneta é Hors Concours. Sempre lança materiais relevantes e surpreende. Porém, esse ano também foi uma surpresa a editora Comix Zone. O catálogo de 2022, tirando uma HQ mais fraca aqui ou ali, é excelente! Conrad tb foi bem esse ano, embora perdeu gás no 2ª semestre.
Nemo no ano passado lançou trabalhos excelentes, já esse ano me pareceu mais desencontrada. Mas lançou HQs boas. Figura segue sendo uma das melhores editoras do Brasil, com excelentes lançamentos. Mythos tb teve um ano bom. Devir foi boa, mas sem surpresas. Panini idem.
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Sep 23, 2022
Saiu a lista dos indicados do prêmio HQMix. Um prêmio de mercado, acima de tudo. Contudo, eles tb premiam obras teóricas sobre quadrinhos. E mais uma vez fica provado o quão ignorante é parte do mercado de HQs BR. Ou é ignorante, ou finge ser por malandragem

Segue o fio:
Entre os indicados está uma obra sem metodologia científica. Sequer poderia se chamada de "teórica", na medida que nada teoriza em seus panoramas. Inclusive essa obra é criticada pela falta de teorização na periodização dos eventos e também pela falta de referências teóricas.
Em compensação, uma obra como HISTÓRIA E QUADRINHOS, uma das mais importantes de 2021, e organizada pelos acadêmicos Márcio Rodrigues e Victor Callari, sequer foi indicada. E segundo os próprios, ela foi inscrita. Fica a pergunta: por que isso acontece? Eu vou lhes dizer.
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Sep 14, 2022
Não queria deixar passar. Morreu o cineasta que todos nós queríamos ser na faculdade de cinema. Ok, não todos. Só a maioria.

Quando descobri Jean-Luc Godard, tive uma sensação de maravilhamento. Não só por suas "cineteses", mas também por sua personalidade.
Quem aqui me acompanha, sabe do quanto sou ranzinza e brigão. E Godard quase me dizia, em silêncio, "somos assim mesmo e tá tudo bem".

Lembro de uma das tretas do Godard. Foi com Truffaut (outro que partiu cedo demais).
No filme A NOITE AMERICANA, Truffaut colocou a fala "o cinema é uma locomotiva". Godard, então, depois de ver o filme, foi até o Truffaut pra brigar com ele. "Cinema é uma locomotiva, mas quais são seus vagões, o seu combustível, quem é o maquinista?". Estou parafraseando.
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Sep 12, 2022
Acho a estratégia do Ciro Gomes muito ruim. Não tanto para essa eleição, mas para a carreira dele. Vamos por partes: para a eleição não chega a ser exatamente uma má notícia pro Lula ele começar a reter alguns votos bolsonaristas. Pode até ajudar a elegê-lo em primeiro turno.
Mas é uma estratégia de mão dupla. Afinal, pode ampliar o antipetismo e até mesmo converter apoiadores que antes tinham Lula em segunda opção e agora tem Bolsonaro. Hoje a candidatura do Ciro tem mais gente disposta a votar no Bozo do que no Lula. Mas td é especulação.
O fato é que Ciro colocou-se num lugar que ele dificilmente vai sair. Falando por mim. Eu votei nele em 2018 por pragmatismo (ele vencia Bolso no 2ª turno). Esse ano, pelo mesmo motivo, votarei no Lula. E Lula não exige amor de ninguém. A presença do Alckmin atesta isso a todos.
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