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Feb 15 19 tweets 4 min read
Na segunda-feira, o presidente do @medicina_CFM emitiu uma nota técnica sobre o uso de máscaras para a ANVISA afirmando que as evidências sobre a recomendação do uso destas pra prevenção do SARS-CoV-2 fazem o tema controverso. Será?

Esse é um fio sobre ciência e política. 🧶
A pandemia nos apresentou uma sequência de posicionamentos inacreditáveis do CFM. No caso dessa semana, a nota técnica diz versar sobre o impacto da adoção da recomendação ou obrigação do uso de máscaras de forma geral e em aeroportos e aviões, onde a exigência ainda se mantém.
Na nota, o autor apresenta argumentos científicos que provariam que "não há evidência científica de que o uso de máscaras de forma banalizada e disseminada na comunidade tenha algum impacto sobre a transmissão de COVID-19 ou mesmo redução de adoecimento" (retirado do texto).
Essa nota, no entanto, não pode ser analisada de forma isolada: ela vem amparada pela publicação da metanálise pela Cochrane Library, que está circulando fora do meio acadêmico como tendo "concluído que não existem evidências pro uso de máscaras".

Prato cheio pra negacionistas.
No entanto, não é isso que diz a metanálise. Eles afirmam que há pouca "evidência de qualidade" para justificar a recomendação do uso de máscaras.

Essas evidências de qualidade, para eles, são somente ensaios clínicos randomizados, os RCTs.
Como realizar um ensaio clínico randomizado sobre o uso populacional de máscaras? Seria ético expor parte do grupo ao vírus? Como averiguar a aderência do uso - sem o nariz para fora, usando sempre? Como lidar com a transmissão dentro de casa, sem máscaras?
Alguns dos estudos apontados por eles como inconclusivos, por exemplo, mostram um uso intermitente da máscara. É claro que não é possível garantir a proteção de forma significativa para o estudo a partir de um uso intermitente.
Essa revisão sistemática, por exemplo, mostra que o uso de máscaras ajuda na prevenção da transmissão.

No entanto, toda essa "controvérsia" se dá porque as perguntas erradas estão sendo feitas. sciencedirect.com/science/articl…
É claro que máscaras funcionam. É claro que máscaras de tecido protegem muito menos do que respiradores. Nós temos evidência sobre isso, porque nós sabemos como o vírus funciona e sabemos como máscaras funcionam.

Não precisamos de ensaios randomizados para isso.
As perguntas científicas a serem feitas deveriam ser "de que forma a adesão coletiva ajuda a diminuir a transmissão?", "como podemos fazê-la de forma mais eficaz?", "como aumentar a adesão", etc.

(para a última já temos resposta: a obrigatoriedade é fundamental)
Perguntar se funcionam ou não é um desserviço, inclusive porque a resposta não está nos ensaios clínicos ou no escopo do CFM: cientistas do campo dos aerossóis sabem como partículas se comportam e a eficácia da filtragem de diferentes materiais.

Não é do escopo médico.
Isso já seria o bastante para repensar o impacto disso, mas precisamos olhar rapidinho para os autores.

Tom Jefferson, o primeiro autor, é conhecido por ser defensor da teoria da imunidade de rebanho e do "isolamento vertical", como propostos por Bolsonaro.
John Conly, outro autor, é conhecido por ter afirmado que não deveríamos recomendar N95 (PFF2) porque causam acne.

Isso mesmo. Além do aumento do nível de CO2 dentro da máscara como se fosse prejudicial - o mesmo argumento que Bolsonaro também levantou...
Eles negam e diminuem abertamente a transmissão por aerossóis do SARS-CoV-2 e sabemos que #Covidpeganoar. Esses autores são envolvidos com a OMS, tem seus estudos financiados pela organização, o que pode ter a ver com a falta de reconhecimento dessa via de transmissão.
Poderia falar sobre essa relação escusa entre pesquisadores e financiadores o dia inteiro, porque é um dos temas da minha tese de doutorado.

Mas posso resumir em uma frase: esses autores são chamados de "mercadores da dúvida" da Covid. Interesses, negacionismo e financiamento.
Acompanho esses autores e seus posicionamentos controversos desde 2021, para que fique claro. Não existe ciência (dentro ou fora da MBE) sem vieses e, nesse caso, o viés é tão evidente quanto prejudicial à saúde pública.

Não me espanta que a nota do CFM tenha se baseado nisso.
A ANVISA já se pronunciou reafirmando que o uso de máscaras protege a população. Parte importante da comunidade científica internacional está rechaçando a publicação.

A afirmação de que não há evidências de que o uso de máscaras tem impacto na redução do adoecimento é mentirosa.
Para quem quer saber mais sobre as conclusões do estudo, a @mellziland escreveu um fio sobre:
Ótimo argumento aqui: os testes pra uma N95 são mais rigorosos que a metanálise feita. :)

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Feb 1
Eu sei, são muitas mensagens contraditórias: dizem que a pandemia acabou e que não tem mais porque falar de Covid...

Infecções são inevitáveis? Se estamos procurando a informação científica mais atualizada sobre prevenção, quem devemos ouvir? 🧶 #covidisairborne #covidpeganoar
A lição mais importante dessa pandemia é a que muitas doenças se propagam por partículas aerossolizadas em situações cotidianas: sim, respirar, falar e tossir são as principais formas de transmissão do SARS-CoV-2.

Um vírus que age de forma imprevisível nos corpos.
Infelizmente, as instituições públicas falharam com a gente e não reconheceram amplamente essa via de transmissão. A OMS (@WHO) ainda evita o termo "airborne". Ainda evita falar que máscaras de tecido fazem pouco, muito pouco.
Read 8 tweets
Feb 1
O que ninguém fala sobre diminuir consumo de lactose é que se você tem alguma indisposiçãozinha prévia, ferrou. Fiquei muito tempo sem tomar leite e consumir creme de leite. Como uma vez e passo muito mal. Um pouco a mais de leite condensado? Passo mal. Desacostumei totalmente
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Ainda bem que queijo é tranquilo, ou eu já estaria desesperada...
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Jan 20
A maior prova de que a Americanas sabia o que estava fazendo eu não vi ninguém aqui comentar: no final do ano, eles fizeram uma promoção louca nos produtos com 90% de cashback AME de volta. Até coloquei aqui. Conheço gente que gastou 50, 60 mil, comprando pra revender.
Não fazia o mais remoto sentido aquilo. Foram umas duas semanas no auge, comprei até bastante coisa pra casa, mas nos grupos de promoções a gente se perguntava a razão daquilo. Só aumentar o uso do Ame não respondia satisfatoriamente.
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Depois do ápice, vieram as notícias: antes aceitavam pagamento de qualquer boleto, depois só contas de consumo, depois limite mensal. Gente chorando porque dependia do dinheiro pra pagar as faturas.
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Amigos, eu estou na ✨ crise do café da manhã ✨. Não gosto muito de pão, enjoei de crepioca. O que vocês comem no café? Me ajudem :(
Eu tô lendo as dicas de vocês e entendi PERFEITAMENTE que o meu problema é a falta do Matte Leão. Eu sou completamente viciada e tudo me parece gostoso mas não quero se não tiver Matte junto.

Ai, ai. Como uma viciada, fico me segurando pra não pagar dez dólares numa garrafa.
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Quando é uma viagem, por exemplo, eu consigo mais tranquilamente pensar que são poucos dias sem chiar muito. Mas seis meses… eu preciso melhorar disso
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Pode pegar?
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E não tem ninguém em casa.
Já era o plano pegar, só queria saber se vocês também concordavam hahahaha sei que é hábito aqui mas esse tá DENTRO do condomínio, então fiquei insegura!

Peguei esse carrinho na lixeira do condomínio… tava sem três rodinhas, arranquei a última, limpei MUITO e é nossa sapateira
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Jan 3
Esse ano eu quero fazer um cronograma de leitura. Não cumpri nem perto a minha meta do ano passado e acho que a falta de organização interna à meta foi o problema.

Recomendações de livros imperdíveis? Não leio ficção há anos (sim, chata) mas quero voltar…
Tô lendo Realismo Capitalista, do Mark Fischer (e amando).
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