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May 18, 2023 17 tweets 6 min read Read on X
Há 50 anos, em 18 05/1973, a menina Araceli Crespo, de 8 anos, era sequestrada, estuprada e brutalmente assassinada em Vitória. Oriundos de famílias influentes do Espírito Santo e protegidos pela ditadura militar, os suspeitos acusados pelo crime jamais foram punidos.

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Araceli era a segunda filha de um casal de imigrantes radicados no Brasil — o eletricista espanhol Gabriel Crespo e a boliviana Lola Sánchez. A família vivia em uma residência modesta no bairro de Fátima, na cidade de Serra

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Em 18 de maio de 1973, Araceli desapareceu após sair do Colégio São Pedro. A princípio, os pais acreditavam se tratar de um sequestro. A polícia, entretanto, considerava a hipótese improvável, em função das limitações financeiras da família.

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Seis dias depois, os pais receberam a notícia de que o corpo de Araceli fora encontrado em um matagal nos fundos do Hospital Infantil de Vitória. A menina havia sido dopada, torturada e estuprada. Sua execução foi brutal.

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Conforme determinado pelo perito Carlos Eboli, a "causa mortis" foi intoxicação exógena por barbitúricos e asfixia mecânica por compressão. O corpo de Araceli apresentavas diversas lacerações a dentadas. Seu rosto foi desfigurado por ácido corrosivo.

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Com base nas evidências e depoimentos de testemunhas, a polícia identificou três suspeitos: Dante de Barros Michelini, vulgo Dantinho; o latifundiário Dante de Brito Michelini, pai de Dantinho; e Paulo Constanteen Helal.

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A família Michelini já esteve entre os maiores proprietários de terra do Espírito Santo, destacando-se na plantação e exportação de café, na indústria e no comércio. Próximos da cúpula da ditadura militar, tinham enorme influência política no estado.

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Igualmente próxima do regime, a família Helal se destacava pelas atividades comerciais e por negócios no ramo hoteleiro e imobiliário. Em Vitória, a Avenida César Helal, onde Araceli foi vista pela última vez com vida, homenageia um membro da família.

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Testemunhas afirmaram que os suspeitos tinham o costume de usar barbitúricos e assediar meninas. O crime teria ocorrido no porão do Bar Franciscano, de propriedade de Dante de Brito Michelini.

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Embora existissem evidências e testemunhas, os suspeitos nunca foram punidos. Conforme denúncia do promotor Wolmar Bermudes, os Michelini teriam usado sua influência junto a oficiais da ditadura para dificultar a investigação do crime.

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Ao longo da apuração, foram registradas 14 mortes de testemunhas e agentes que investigavam o caso. Dentre os mortos, está o sargento José Homero Dias, que foi executado com um tiro pelas costas quanto estava próximo de concluir as investigações.

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Também foram assassinados Fortunato Piccin e José Paulo dos Santos, duas das principais testemunhas do crime. Denúncias de álibis forjados e suborno a policiais também foram registradas.

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Dante e Paulo chegaram a ser condenados em 1980, quando o juiz Hilton Silly proferiu uma sentença de 18 anos de reclusão. Não obstante, as condenações foram anuladas logo em seguida. Em um novo julgamento, os réus foram absolvidos, sob a alegação de falta de provas.

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Uma CPI instalada na Assembleia capixaba por iniciativa do deputado Clério Falcão concluiu que houve omissão por parte das autoridades, visando proteger as poderosas famílias implicadas no crime, mas de nada adiantou.

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O jornalista José Louzeiro investigou o caso de forma independente e escreveu o livro "Araceli, Meu Amor", mas foi censurado pela ditadura militar e proibido de publicar a obra. Pouco tempo depois, sobreviveu a um atentado.

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Após a redemocratização, como forma de homenagem, a data do sequestro de Araceli tornou-se o Dia Nacional de Combate ao Abuso e Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes. O crime, entretanto, segue até hoje impune.

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Junto ao assassinato de Ana Lídia, outra menina morta em condições parecidas, o Caso Araceli permanece como um dos símbolos da impunidade da ditadura militar em relação às acusações envolvendo famílias ricas e poderosas.

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