O cinema deve à pintura muito de suas características visuais, mesmo dotado de algo que é só seu, o movimento e a relação de sentido entre os planos. Mas é fácil olhar os filmes e perceber a influência e a referência (ou reverência?) à milenar pintura. 🧶👇 Image
Uma pintura é um mundo fechado, e o cinema se compõe do que está fora de campo. Isso muda tudo. Eu posso pensar "o que a Mona Lisa está olhando", mas o quadro é composto por aquilo que eu vejo, e acabou. O filme não, o que o personagem olha importa para a imagem... (+) ImageImage
O filme, mesmo visto de forma bi-dimensional, tem uma percepção tri-dimensional pelas suas características: eu SEI que esse personagem olha para algo que eu preciso incluir no contexto e sei e que será mostrado em breve. Um mundo é fechado... o outro é aberto... (+) Image
Mas o cinema também herdou da pintura a composição, uso da perspectiva, profundidade, noções de enquadramento, sombra, luz, uso de cores... O cinema aprendeu até a quebrar a parede entre ele e o espectador... com a pintura, séculos antes!!! (+) Image
Alguns filmes homenageiam esse legado. Barry Lyndon, do Kubrick, tem momentos em que o filme poderia ser parado, impresso, emoldurado e pendurado. Semelhante a esse frame aqui, há pinturas com sentimento e composição semelhantes, como Tête à Tête (1743) de William Hogarth’s (+) ImageImage
Idem, por exemplo, OS DUELISTAS, do Ridley Scott. A luz e o uso de paisagens naturais remete a pinturas do movimento realista, próximo da época em que se passa o filme - até pinturas de natureza morta são aludidas pelo diretor e o diretor de fotografia Frank Tidy (+) ImageImageImageImage
Victor Erice, um diretor que infelizmente fez MUITO menos filmes do que deveria, parece ter se baseado em pinturas da Escola de Delft, em nomes Como Rembrandt, De Hooch e Vermeer para orientar a direção de fotografia de obras como EL SUR (1983) (+) Image
Vermeer, aliás, foi inspiração assumida do diretor de fotografia John Seale em A TESTEMUNHA. O pintor holandês soube como poucos reproduzir a luz natural iluminando pessoas e ambientes escuros, quase sempre atrás de uma janela – como faz Seale no filme (+) ImageImage
Há filmes em que essa relação é explícita pelo tema. Para MOÇA COM BRINCO DE PÉROLA, refazer a iluminação e a cena pintada por Vermeer é parte da proposta – idem para filmes como "Com Amor Van Gogh" ou "No Portal da Eternidade" (+) Image
“RENOIR”, de 2012, que fala sobre o artista constrói seus aspectos visuais de forma a estabelecer uma relação direta com os quadros do pintor impressionista. Parte da estética do filme acompanha o conteúdo a que ele se refere (+) Image
Shirley: Visions of Reality é um filme todo ele inspirado na obra de Edward Hopper. Toda a narrativa é construída para adequar a ela a reconstrução de quadros criados por Hopper, em uma unidade dramática coesa para ligar esses momentos (+) ImageImageImageImage
Quem conhece a obra de Hopper, que já influenciou outros filmes vai reconhecer as imagens em um filme cuja proposta é focar toda a experiência no aspecto estético e na alusão ImageImageImageImage
Mas há casos em que pinturas famosas são homenageadas pelos filmes e percebida quando o espectador tem conhecimento extra-diegético para ligar A com B. Aí vira um prêmio ao espectador, como a cena inicial de ENCONTROS E DESENCONTROS (+) Image
The Wicker Man, clássico de terror dos anos 70 que influenciou MIDSOMMAR faz uma alusão direta, na construção do imenso espantalho em que será ateado fogo a um desenho de Aylett Sammes do século XVII (+) Image
O LABIRINTO DO FAUNO de Guillermo DelToro alude a uma pintura de GOYA do episódio mitológico em que Saturno devora um de seus filhos na cena em que a criatura devora uma das fadas (+) Image
John Wayne deu suas investidas como diretor também, duas vezes de forma oficial. Uma delas foi O ÁLAMO (1960), que não deu lá muito certo, mas houve espaço para uma homenagem à EL JALEO, de Sargent, em uma cena perto do final (+) Image
O Monte Diogenes, na Australia, é chamado “Hanging Rock”. Está retratado em pinturas, em um livro famoso e em sua adaptação, PIQUENIQUE NA MONTANHA MISTERIOSA de Peter Weir – e Weir faz a ponte com a pintura, feita exatos 100 anos antes (+) Image
Alatriste (2005), com Viggo Mortensen, foi buscar na obra de Diego Velásquez "A Rendição de Breda", de 1635, a referência direta em detalhes para uma das cenas do filme (+) Image
A PIETÁ mais famosa é a escultura de Michelangelo, mas a cena obviamente foi inspiração para inúmeras pinturas. A cena foi recriada de maneira belíssima por Ingmar Bergman na obra-prima Gritos e Sussurros (1973) (+) Image
Pátio de Exercícios de Newgate (1872), de Gustave Doré, inspirou Van Gogh a criar “Prisioneiros exercitando (após Gustave Doré)” (1890) e a onda de homenagens terminou em Laranja Mecânica, de Kubrick (1974) (+) Image
A ÚLTIMA CEIA foi pintada por DaVinci na parede de um convento em 1498. Sobreviveu a um bombardeio e aparece aludida com diferentes funções em obras tão díspares como VÍCIO INERENTE (2014), WATCHMEN (2009) e num contexto bem mais crítico em PARADISE NOW (2005) (+) ImageImageImageImage
O BEIJO é a mais famosa obra de Gustav Klimt, pintada em 1908. O mosaico bizantino que compõe a obra e os detalhes que remetem a flores surgem na forma das cinzas no ar e detalhes do vestido em ILHA DO MEDO (2009) de Scorsese (+) Image
“Ofélia” (1852), de John Everett Millais representa a personagem de HAMLET que enlouquece e comete suicídio. Brian DePalma usou ela como referência em FEMME FATALE e Lars Von Trier alude a ela diretamente em MELANCOLIA (2011) (+) Image
A MORTE DE MARAT (1793) de Jacques-Louis David é reconstruída por Alexander Payne em “As Confissões de Schmidt” (2002). Coppola tb alude a ela ao mostrar o suicídio de Pentangeli em “O Poderoso Chefão Parte 2” (+) Image
Já mostrei em outro post uma referência a O NASCIMENTO DE VÊNUS no filme FILHOS DA ESPERANÇA, do Cuarón. Essa aqui é explícita, e aparece em AS AVENTURAS DO BARÃO MUNCHAUSEN, de 1989 (+) Image
Não acho que CINZAS DO PARAÍSO, de Mallick, um dos filmes mais bonitos do mundo, tente “replicar”, mas se inspira nas sensações que nos passa a casa isolada no horizonte em meio ao trigal de Christina's World, de Andrew Wyeth, uma das obras mais famosas do século XX (+) Image
Sylvia von Harden foi uma jornalista alemã proeminente que escreveu tb na Inglaterra. O pintor Otto Dix a retratou em 1926 e o diretor Bob Fosse recriou o quadro de Dix no musical “Cabaré”, de 1972 (+) Image
Akira Kurosawa foi pintor a vida inteira, o que explica a facilidade com que sempre manipulou a câmera, os espaços - e depois a cor. Em Sonhos, ele homenageia toda essa arte e faz várias referências – “Campo de Trigos com Corvos” de Van Gogh (1890) é uma delas, pintada (+) Image
A cena final do belíssimo OS DUELISTAS faz uma referência direta ao quadro Napoleon Bonaparte Musing at St. Helena, do pintor britânico Benjamin Robert Haydon (1830). A sorte de Scott: o sol saiu das nuvens inesperadamente, e o diretor aproveitou como pode a surpresa (+) Image
“Caçadores na Neve” é uma das obras mais famosas de Pieter Bruegel, o velho – e ele faz várias desse mesmo estilo. Uma cena de O ESPELHO usa a mesma construção em profundidade e o mesmo enquadramento (+) Image
A câmera de Michael Mann primeiro foca a arma na mesa e depois, muda de ângulo, para mostrar DeNiro em frente à janela e ao mar. O foco inicial na arma é a pista de que a cena em FOGO CONTRA FOGO é alusão direta a PACIFIC (1967) de Alex Colville (+) Image
Não encontrei relatos de possível influência de "Road with pollard willows and man with broom" (1881) de Van Gogh na magnífica cena final de O TERCEIRO HOMEM (1949), mas os paralelos só ajudam a entender como duas artes visuais podem se tocar de maneira tão perfeita (+) Image
Três figuras perto de um canal com moinho de vento, pintura de 1883 Vincent van Gogh parece ter sido uma inspiração para Bela Tarr em Sátántangó (1994) - a câmera seguindo personagens não é novidade no cinema de Tarr, mas a referência aqui parece clara (+) Image
Uma das mais famosas representações de Napoleão é Napoleão Cruzando os Alpes” (1805), de Jacques-Louis David, que teve diferentes versões diferentes pintadas. Sofia Coppola alude diretamente a ela em “Maria Antonieta” (2006) (+) Image
Barry Lyndon é maravilhoso. O esforço no desenvolvimento de câmeras para conseguir iluminar ele só com velas é um capítulo à parte. Mas as referências à arte estão ali, espalhadas. Malvern Hall, Warwickshire, de 1809 (John Constable) teria sido uma referência? (+) Image
Você acha todas essas referências – e mais - espalhadas pela web, e em canais como o Vulgar Efendi, que tem vídeos ótimos mostrando a comparação de cenas e imagens (+)
youtube.com/c/vugarefendi
Se liga: o curso reabre inscrições mês que vem com mais conteúdo novo além das mais de 80 aulas e 400 páginas digitais ilustradas. Deixa o email lá na página para receber notificações, a primeira edição teve mais de 500 alunos inscritos em três meses 🙂
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