O cenário de um filme é mais do que só um lugar onde se passa a história. Ele pode sozinho dizer mais do que muitos diálogos. Vamos dar uma olhada no que é possível expressar pela locação e pela direção de arte 👇🧶
THE BEAR é ótimo exemplo do uso de cenário e iluminação pra expressar muita coisa!! (que baita série, aliás)
Primeiro episódio / último episódio
O arco daquele pessoal, naquele restaurante, está todo expresso pela locação e pela ambientação que muda completamente
Pra quem estuda mais, tem até classificação de tipos de cenários de um filme, como realista, impressionista e expressionista, feita pelo Martin. Mas não é o tipo de assunto que cabe aqui, o fio é pra abrir a cabeça de como pode atuar
BELEZA AMERICANA é exemplar, apesar de não ter cenários suntuosos e a direção de arte ser "simples". É como se usa ela, não do que ela é feita. Aqui, por exemplo, tudo se trata de montar o cenário de forma simétrica, e enquadrar ele de forma simétrica também
Tudo ali remete a uma vida de "faz de conta", como a flor do título, a "American Beauty", linda por fora, mas sem perfume. Os personagens vivem num mundo teoricamente perfeito, mas dentro desse mundo, estão todos murchando, fingindo felicidade
QUE HORAS ELA VOLTA mostra a Val sempre separada do ambiente dos patrões. A gente vê a vida dela a partir da cozinha, que é o seu lugar. Quando vamos para o quartinho, que é menor que o quintal do cachorro, a gente vê ela de fora, e ela parece estar presa pelas grades da janela
Em LUZ DE INVERNO o Bergman coloca um padre que questiona a fé e um fiel em crise, temendo pela violência no mundo. Enquanto ele aparenta estar preso na sua situação, pelas grades atrás dele, o padre parece pressionado pela figura de Cristo na cruz
Essa cena de THE CROWN mostra bem a situação em que se encontra CHARLES - acho que aqui é terceira temporada. Nessa reunião familiar, ele está sendo pressionado, mas não só pela família real ATUAL, mas pela própria história, pelo imenso quadro atrás dele
O cenário pode ajudar a dizer coisas sobre o momento a partir da forma como vc coloca os personagens no ambiente. SHYAMALAN usa ele em SINAIS para cada vez mais falar do isolamento dos personagens, e como eles ficam sem saída com a invasão, colocando "molduras" no entorno deles
Aliás, basta comparar o tratamento dado ao quarto do personagem no início e no final para perceber como, naquela cena final, a simples exposição do ambiente já mostra a transformação do personagem. Essa é parte da função, dizer algo sem que necessariamente alguém precise dizer
Wong Kar Wai usa molduras a todo momento no maravilhoso AMOR À FLOR DA PELE. Seus personagens estão presos pelos valores morais, estão angustiados entre o que querem e o que devem fazer. Em TODO o filme, Kar Wai os filma em ambientes apertados e pela moldura de portas e janelas
CARRIE, A ESTRANHA usa de maneira exemplar o cenário para nos passar a opressão religiosa da personagem. A casa em que mora com a mãe é adornada por motivos religiosos que, com a ausência de luz, só enfatizam a prisão ideológica em que ela vive
Aliás, o cenário da própria casa é construído para lembrar uma cripta, com seus arcos. É como se estivéssemos dentro de uma Igreja. Numa cena importante, em meio aos relâmpagos, a discussão delas no jantar é observado pela ÚLTIMA CEIA, do DaVinci
Lá no início do filme, a gente já percebe, antes de conhecer Carrie, que ela está isolada do mundo. De novo a ideia de uma prisão, essa psicológica também. Ela é exposta atrás ou ao lado de elementos do cenário que lembram grades. Sua vida é um inferno
PARASITA deve muito ao cenário. Primeiro pelos contrastes, expostos na casa apertada, situada abaixo do nível da rua, com a janela gradeada que expõe a prisão em que eles vivem, e o choque com a grande casa ampla e a janela aberta para o quintal sem poluição, apenas o verde
Claro que o detalhe é ver que os personagens vivem abaixo do cocô do cachorro, literalmente, no subsolo. Tão no subsolo que estão abaixo até do próprio vaso sanitário. Na própria casa, as tensões ocorrem abaixo de onde moram os patrões, e eles se escondem EMBAIXO do sofá
Quando eles correm para casa na chuva, a cena mostra eles descende, descendo, descendo, descendo. Descem até o nível mais baixo da escala social, onde eles vivem. O abismo entre classes é o grande tema que move o filme e a questão "afinal, quem é o parasita?"
MEU PAI deve DEMAIS ao cenário. Ele representa as idas e vindas da memória do protagonista, pela maneira como diferentes momentos da vida vão se mesclando em pequenas mudanças no cenário. A entrada do apto, em dado momento, é igual à entrada da clínica
Da mesma forma, o quarto dele, em sua casa, é a cópia, na disposição dos móveis, do quarto que ele ocupa na clínica em que ele passa a viver quando a filha não consegue mais cuidar dele.
Os responsáveis pelo cenário e pela direção de arte promoveram, como elemento discursivo principal do filme, pequenas variações entre as muitas cenas do filme de forma a misturar lembranças, referências, tempos, para expressar a confusão mental do personagem de forma sutil
Em FOGO CONTRA FOGO o cenário expressa muito sobre a vida pessoal e o modo de ser dos personagens. O Hana, personagem do Al Pacino, tem família, tem uma mulher e uma filha, atua dentro da lei e construiu um espaço em que se percebe elementos ligados a um longo tempo vivendo ali
Já Neil, do Robert DeNiro, precisa estar pronto para partir. É um ladrão de bancos e não tem raízes em lugar nenhum – é o que se torna fatal pra ele no filme, aliás. Seu apartamento é um reflexo dele: vazio, frio, sem nada que remeta a qualquer lembrança ou objeto pessoal
Opressão, prisão, dificuldades, podem ser passadas usando o cenário. Em Se7en, um jovem policial pegando de cara o pior caso da carreira, está perdidão nas investigações. A maneira como a gente vê ele na casa dele – e em outros locais - já deixa perceber isso
Vários filmes fazem uso do cenário para criar microcosmos. É o caso de filmes como SNOWPIERCER, do Bong Joon Ho. E mesmo locações naturais podem servir como microcosmo, como a floresta que espelha a regressão social que vivem os garotos de O SENHOR DAS MOSCAS
Exemplo de como uma locação natural pode desempenhar função em um filme está em A BRUXA. O uso de muitos planos gerais mostram o tamanho da floresta e o quão pequenos são os personagens. A impressão é que a própria floresta vigia e observa aquela família isolada
Quando a gente fala de cenário, o entorno dele pode ser usado para vários fins. Nessa cena de O SOM AO REDOR alguém diz “olha só, essa vista maravilhosa” e a gente vê a personagem abrir uma espécie de grade (a porta da varanda) para a “vista”, um outro tipo de prisão...
É absurda a importância do cenário no clássico O TERROR DAS MULHERES, de Jerry Lewis. O ator/diretor mandou construir o que parece uma casa de bonecas em tamanho real, onde personagens transitam por vários espaços numa mise-en-scène por vezes absurda. Lewis era genial
UM LIMITE ENTRE NÓS, um filme que eu defendo muito, usa bem o cenário ínfimo da produção pra expressar os personagens e seus dramas. A personagem de Viola Davis é constantemente enquadrada de forma a parecer aprisionada nos limites das molduras da casa. Sua vida resume a isso
Os enquadramentos do lado de fora continuam usando o cenário pra acentuar isso: em vários momentos, a pequena janela da cozinha é a janela pela qual ela vê o mundo, ainda mantendo a ideia de que ela vive em uma prisão, sob o jugo do Troy, personagem do Denzel Washington
Não à toa, quando os dois, por motivos que não cabe dizer aqui, se afastam de forma que não é possível recuperar o casamento, o Denzel – que é diretor do filme – use o cenário da casa, em mais de um momento, para representar essa separação entre eles
A SEPARAÇÃO do Farhadi em vários momentos vai fazer uso do cenário para colocar os personagens... separados. Vivem na mesma casa, mas estão em um processo de afastamento. Colocar eles em lados opostos separados pelo cenário é a forma visual de dizer isso
Entre detalhes mas enriquecedores - e o uso discursivo mais amplo, o cenário e a direção de arte são ferramentas poderosas para que um filme possa conversar com o espectador atento - ou não, já que muitas vezes a gente reage a isso de forma inconsciente.
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Clint Eastwood faz 95 anos no final de semana. Que tal ver em detalhes o que faz de OS IMPERDOÁVEIS não só uma das obras-primas do homem, mas um dos grandes filmes americanos das últimas décadas e da história do western? Segue 👇🧵
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O ESTRANHO SEM NOME (71) traz, de Leone, o cinismo, a ambiguidade moral e uma melancolia que se inserem no contexto do tempo em que foi feito, quando outros diretores olhavam para o oeste da América com o mesmo amargor (+)
Em 2025 se completam 20 anos do lançamento de Seven, quando as pessoas se chocaram no cinema com a resposta para a pergunta “O QUE TEM NA CAIXA?”
Se7en é filmaço de David Fincher e nessa análise eu ilustro alguns motivos (para mim) com imagens 👇🧶
Basicamente, vejo um filme sobre dois homens com visões de mundo opostas confrontados em suas visões. Um não vê futuro para a humanidade, outro ainda é ingênuo e acha que pode salvar o mundo. No meio desse embate de visões, tem um psicopata, que vai assinar a sentença (+)
Antes mesmo de conhecer alguém, entramos no filme pelo som. OUVIMOS primeiro a cidade, buzinas, o caos, enquanto Sommerset se ajeita. Já ali tem destaque o tabuleiro de xadrez, junto da organização metódica do veterano na sua vida pessoal (+)
Pequeno GUIA SOBRE ESCALA DE PLANOS E ENQUADRAMENTOS no CINEMA, em imagem e vídeos - atualização anual desse conteúdo básico essencial para iniciantes.
Segue 🧶👇
Uma das coisas mais básicas no cinema é a chamada escala de planos, a maneira como dispomos o que enquadramos na câmera dentro do espaço que a gente chama de quadro (o que é visível). É a chamada ESCALA DE PLANOS (+)
O GRANDE PLANO GERAL mais do que estabelecer a locação, nos insere no mais amplo cenário de importância para a narrativa, mostrando o ambiente macro onde se passa a ação, como o início de O ILUMINADO(+)
Sempre que eu preciso mostrar aos alunos como é possível estabelecer relações pelo enquadramento eu gosto de usar, entre várias cenas, essa aqui de GÊNIO INDOMÁVEL do Van Sant. De uma maneira simples e sutil, o diretor aproxima personagens que estavam se chocando 🎬📷 👇
Depois de tentar alcançar Will, um jovem tão genial quanto rebelde e inalcançável por vários psicólogos e pelos professores de uma universidade que o "descobrem", o terapeuta interpretado por Robin Williams o leva para uma conversa à beira de um lago (+)
Will é agressivo, um mecanismo de defesa. Suas armas são o deboche, o pouco caso, a brincadeira travestida de sarcasmo e, sempre, muito agressiva. A câmera, então, foca em Sean, e nós não vemos mais Will. Eles estão separados mas a câmera se move BEM devagar pro lado (+)
A última visão de Val Kilmer no cinema foi uma imagem que todos sabiam que aconteceria em breve, e eu pensei naquele momento em como ELE via aquela cena, sabendo que ela logo aconteceria, de certa forma. A participação dele em Maverick é emocionante até nesse ponto, e (+)
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poderia ter uma carreira ainda maior se tivesse sido mais maleável em certo ponto da vida, mas ainda assim faz parte de alguns momentos bem marcados pra mim. Todo mundo lembra da cena do tiroteio em FOGO CONTRA FOGO mas tem outra cena melhor, aquela em que (+)