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Aug 3 27 tweets 9 min read Twitter logo Read on Twitter
Com as MUDANÇAS CLIMÁTICAS se acentuando, QUAIS SURTOS DE DOENÇAS podemos ver NOS PRÓXIMOS ANOS? Quais possíveis epidemias, e até mesmo pandemias, podemos ver por aqui, na América do Sul?

Fio sobre clima, saúde e nossa relação com o planeta e seus ecossistemas 🧶👇
Julho foi um período marcado com recordes de temperaturas no mundo e, apesar de ter chamado muita atenção, é um fenômeno que estamos vendo já há algum tempo e que tem sido alertado por décadas, ao menos: as mudanças climáticas estão se acentuando.

Temperaturas extremas podem causar impactos diretos sobre o corpo: “problemas de pele, exaustão e ao descontrole de problemas cardiovasculares, o calor favorece a transmissão de doenças por meio de vetores como os mosquitos”
saude.abril.com.br/medicina/com-m…
No verão de 2022, na Europa, foram registradas mais de 61 mil mortes relacionadas ao calor extremo, com destaque para as regiões da Itália e Alemanha.

10 anos antes, em 2003, mais de 70 mil mortes em excesso ocorreram na Europa durante o verão.
nature.com/articles/s4159…
Como a @KariLimaX, climatóloga que recomendo todo mundo seguir, menciona em um de seus fios, existe um viés nas mudanças climáticas que são as ações do homem, ditas antropogênicas, que podem acelerar e agravar essas mudanças - e já estão fazendo isso.
As mudanças climáticas também afetam agentes infecciosos, eseu envolvimento pode ter afetado a mudanças de dinâmica da Candida auris, um fungo importante para a saúde humana, que tem se tornado mais presente e resistente. E a Candida é só um dos exemplos: tempo.com/noticias/cienc…
Outros estudos mostram que as temperaturas mais altas levaram a rápidas mudanças genéticas e adaptações na forma como os genes são usados e regulados no fungo patogênico humano Cryptococcus, o qual pode provocar doenças graves euronews.com/green/2023/02/…
Com o aumento do período/frequência de chuvas, podemos ver um favorecimento da reprodução de vetores, como 🦟. Um exemplo é a Dengue, que surpreendeu com seus números em 2023, e causou recentemente um surto difícil no Peru
tempo.com/noticias/actua…
No Peru, também vimos um surto de casos de Síndrome de Guillain-Barré (SGB), que um dos causadores pode ser a própria Dengue, Zika, mas tem sido bastante relacionada com infecções pela bactéria Campylobacter jejuni. Comentei para a @MeteoredBR tempo.com/noticias/actua…
Em um estudo concluiu que “as mudanças climáticas, por si só, podem resultar em uma média de 145 casos anuais excedentes de Campylobacter até 2040-2049 e quase 1.500 até o final da década de 2080 em cada país por ano”
.nature.com/articles/s4159…
Outras doenças transmitidas por mosquitos, como Zika, Chikungunya, Dengue nos centros urbanos, bem como Febre Amarela nas áreas próximas a matas, podem se agravar nas Américas, com o favorecimento da reprodução de seus vetores por climas mais quentes. medscape.com/viewarticle/99…
Além das doenças transmitidas por mosquitos, temos aquelas transmitidas por carrapatos, como a Febre Maculosa, que ganhou mais atenção ainda no primeiro semestre deste ano. Climas mais quentes também favorece o ciclo reprodutivo desses carrapatos

tempo.com/noticias/actua…
Outro exemplo é a doença de Lyme, “que aflige mais de 475.000 americanos a cada ano - e os carrapatos transmissores estão expandindo sua área geográfica (para Canadá, Noruega e o Ártico, p. ex.), e a mudança climática é um dos motivos.” time.com/6262408/climat…
Com o aumento de casos dessas doenças transmitidas por vetores, temos problemas como a suscetibilidade dessas populações, a sobrecarga nos sistemas de saúde e o fato de não termos tratamentos específicos para essas condições medscape.com/viewarticle/99…
Estamos falando de doenças conhecidas transmitidas por esses vetores, mas podemos estar vendo novas DOENÇAS desconhecidas. Nos EUA, novos agentes infecciosos foram descobertos ou introduzidos durante 2004 e 2018, estando relacionados com esses vetores.
cdc.gov/ncezid/what-we…
Com a invasão dos ecossistemas, aumenta-se o risco de eventos zoonóticos, ou pulos de agentes infecciosos de uma espécie para a outra. O próprio SARS-CoV-2, da pandemia da COVID-19, pode ter se aproveitado disso, junto dos mercados de animais silvestres
E podemos sim ver novos surtos de SARS-CoV-2 e outros SARS-CoVs à medida que novas variantes surgem, novos hospedeiros passam a ser infectados e a distribuição geográfica de morcegos, um dos prováveis reservatórios desses vírus, passa a se ampliar. ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/P…
Estamos aqui falando sobre possíveis surtos e pandemias futuras, mas quase 60% de todas as doenças infecciosas conhecidas (e isso inclui doenças transmitidas por carrapatos, mosquitos, alimentos e água), foram agravadas pelas mudanças climáticas
As temperaturas mais altas e o aumento das atividades recreativas em torno da água também podem trazer doenças como diarreia, infecções intestinais e, em casos raros e mais graves, infecções como meningoencefalite amebiana primária, causada por uma ameba
As mudanças climáticas podem tornar populações mais vulneráveis a doenças novas e pré-existentes, a partir “da necessidade de deslocamento por causa das secas, e que podem trazer insegurança alimentar e incêndios florestais, piorando a qualidade do ar” yaleclimateconnections.org/2023/02/climat…
As desigualdades sociais, que já colocam populações em situações de risco, somando-se à doenças negligenciadas e a falta de recursos terapêuticos para elas, podem se tornar ainda mais graves com as mudanças climáticas. E não se enganem: países ricos também pagarão esse boleto.
Um estudo modelando cenários de aquecimento global no Brasil mostra que, “a leishmaniose visceral encontrou condições climáticas mais favoráveis nas regiões SE e S, enquanto o clima nas regiões N e CO tornou-se gradualmente mais favorável à febre amarela” periodicos.unb.br/index.php/sust…
“Nos cenários de malária, observou-se um aumento das condições climáticas favoráveis à sua alta incidência na Mata Atlântica, onde atualmente ocorrem casos extra-amazônicos” segundo o estudo acima.
Em suma, é possível perceber que mudanças climáticas causam problemas não só para a economia, sociedade e ambiente, mas também para a saúde e falamos pouco aqui, mas também para o bem estar psicossocial, algo que o @jonathanvicent vem tratando bastante (sigam ele!)
As mudanças climáticas, HOJE, já ameaçam a saúde e bem estar das populações sul-americanas. Em paralelo, estamos vendo o agravamento de doenças já conhecidas, como a Dengue nas últimas décadas, e estamos vulneráveis ao surgimento de novas doenças também.
thelancet.com/journals/lanam…
As mitigações das mudanças climáticas não devem ser algo a ficar na esfera da discussão. Já temos impactos que precisamos mitigar, pois para prevenir, deveríamos ter agido antes. Quanto mais iremos esperar até olhar para isso como o principal problema da nossa geração?
Outro fio que tu pode se interessar

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Aug 2
COMO O USO DE TELAS E CONTEÚDOS DIGITAIS PODE IMPACTAR O NEURODESENVOLVIMENTO?

Com tantas discussões sobre substituir livros físicos por conteúdos digitais, ou ampliar a presença desses conteúdos, torna-se importante considerar seus impactos no desenvolvimento 🧶👇
Que a tecnologia fará cada vez mais parte da nossa vida, nem precisa ser dito. Mas refletir sobre impactos e a ampliação de sua presença no ensino, principalmente no contexto de crianças e jovens, precisa ser considerada, também, no neurodesenvolvimento
Ainda não existe um consenso dentro da neurociência em relação a todos os possíveis impactos das telas sobre o aprendizado, desenvolvimento e outros parâmetros. Mas mais estudos tem investigado esses aspectos e podemos olhar para esses resultados para enriquecer a discussão
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Jul 30
Com estimativas de prevalência que variam entre 5% e 8% a nível mundial, esse transtorno tem apresentado um aumento de diagnósticos em diferentes faixas etárias, nos últimos anos

Fio sobre a neurobiologia do Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH) 🧶👇
O TDAH é um transtorno do neurodesenvolvimento que é caracterizado por 3 principais sintomas:
🔹Desatenção;
🔹Hiperatividade;
🔹Impulsividade.

Esses sintomas podem ser comuns na rotina da pessoa, e podem se exacerbar em situações de maior estresse

.gov.br/saude/pt-br/as…
Se fizéssemos um "filme" do TDAH ao longo do tempo, veríamos que o nº de diagnósticos está aumentando, e hoje, temos uma incidência (que seriam os "quadros" de um filme, p. ex.) de 7,6% em crianças de 3 a 12 anos e de 5,6% em adolescentes de 12 a 18 anos. ijponline.biomedcentral.com/articles/10.11…
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Jul 21
POR QUE JULGAMOS OUTRAS PESSOAS?
Ainda, sabia que PRIMATAS e CÃES julgam humanos pela forma como tratamos uns aos outros?

Vamos falar sobre a neurociência por trás, e entender como tudo isso tem a ver com manifestações que tem raízes em redes também usadas para empatia 👇🧶
Um estudo recente mostrou que primatas, como macacos-prego, e cães tem tem preferência por pessoas que ajudam os outros, "e isso pode explicar as origens de nosso senso de moralidade".

Falei sobre moralidade nesse fio:

🔗https://t.co/VMkQDffb5C
newscientist.com/article/212090…
Os pesquisadores simularam uma situação em que uma pessoa tinha dificuldade de abrir uma caixa com um brinquedo dentro, enquanto os macacos-prego observavam. Um dos pesquisadores ficava responsável por ajudar ou se recusar a ajudar o colega que tentava abrir essa caixa
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Jul 19
"Turbo cancer" ou câncer turbo é uma acusação desinformativa que o movimento anti-vacina está fomentando contra as vacinas, especialmente as da COVID-19.

É mais do mesmo: postam vídeos ou fotos de profissionais alegando situações sem comprovação👇🧶
europeannewsroom.com/posts-link-cov…
Já houve checagens de conteúdos específicos ainda esse ano, como o link acima, e bem antes disso, já havia checagens também mostrando que não há evidências ligando vacinas com câncer.

Trata-se de um monte de desinformação reciclada.

factcheck.afp.com/doc.afp.com.32…
Um dos combustíveis desse movimento é justamente um conteúdo criado que tem muita desinformação, descontextualização e outras manobras desse ecossistema envolvidas, que comentei no passado:
Read 19 tweets
Jul 15
Sendo a terceira maior causa de perda da qualidade de vida entre os 15 e 44 anos segundo a @WHO, esse transtorno afeta cerca de 1,6 milhão de brasileiros e ainda tem muito estigma a seu respeito

Vamos falar da neurobiologia da ESQUIZOFRENIA nesse fio 🧶👇🏼 Arte de Karen May Sorensen, "Inocência sob ataque", de 2014. Karen possui diagnóstico de esquizofrenia e retrata alguns elementos visuais que podem ter influência do transtorno. Fonte: https://theodorecarter.com/constructing-new-realities-unique-vision-artists-schizophrenia/
Falar de esquizofrenia é sempre um assunto que me desperta imensa empatia, pois tenho pessoas próximas que convivem com esse transtorno. Infelizmente, essas e outras pessoas sofrem muito com estigmas e preconceitos que não deveriam existir. Precisamos falar sobre isso também
A esquizofrenia é um transtorno psiquiátrico que pode se tornar muito incapacitante, e segundo o DSM-V, é caracterizado por delírios, alucinações, falas e comportamentos desorganizados, e "sintomas negativos" (perda de interesse/motivação, p. ex.)

https://t.co/O1ZtpZMwcInhs.uk/mental-health/…
Enxerto de tabela retirado de uma página comparando as características clínicas da Esquizofrenia de acordo com o DSM-IV (à esquerda) e o DSM-V (à direita). Fonte: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/books/NBK519704/table/ch3.t22/
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Jul 10
POR QUE AQUELA MÚSICA NÃO SAI DA SUA CABEÇA?

Quem nunca passou por uma situação assim, não é? Existem elementos nessas músicas que colam na nossa mente que tornam elas mais propícias para tocar repetidamente na nossa cabeça.

Vamos falar da neurociência da cola musical? 🧶👇
Cerca de 90% das pessoas já experienciaram isso. Cunhado em 1979 como de "verme de ouvido", é conhecido por "segmento de música em loop que geralmente tem cerca de 20s de duração e que entra automaticamente em sua mente e continua tocando repetidamente"

news.harvard.edu/gazette/story/…
Existem características dessas músicas que colam na nossa mente que as tornam propícias para isso:
- repetição
- duração maior de certas notas
- se os intervalos entre as notas forem menores e por aí vai

O que isso tem em comum? Padrões!
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