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Jan 14, 2025 9 tweets 8 min read Read on X
O legado autoritário de Justin Trudeau 🧶

Depois de quase uma década no cargo, após tentativas de diplomacia fotogênica e desculpas chorosas, Justin Trudeau está deixando o cargo de primeiro-ministro do Canadá, deixando para trás um legado tão divisivo quanto dramático. Para alguns, ele era o garoto-propaganda da liderança progressista, um líder que defendia a ação climática e a diversidade, ao mesmo tempo em que colocava o Canadá para sob os holofotes globais. Para outros, ele era um político polido demais, cujo mandato foi definido pela censura, má gestão econômica e uso do poder do Estado contra seus próprios cidadãos. Sua renúncia marca o fim de uma era – definida tanto pela retórica elevada quanto por políticas que deixaram uma marca profunda nas liberdades civis e na confiança pública.

Então, o que é o Canadá de Trudeau depois de quase dez anos? Uma terra de aspirações progressistas ou um exemplo de distopia?Image
Censura: numa versão autocrata amigável

Poucas coisas refletem melhor o mandato de Trudeau do que a guerra legislativa de seu governo contra a liberdade de expressão. Vamos começar com a dupla dinâmica do abuso digital:

Projeto de Lei C-10: “Regulando o não regulamentável”

A saga do Projeto de Lei C-10 começou inocentemente. O governo de Trudeau propagandeou o projeto de lei como sendo um esforço nobre para modernizar a Lei de Radiodifusão. Afinal, a lei não era atualizada desde 1991, quando locadoras de vídeo estavam prosperando e a internet era apenas o sonho de um nerd. O objetivo, disseram eles, era “nivelar o campo de jogo” entre as emissoras tradicionais e gigantes do streaming como Netflix e YouTube.

Parece justo, certo? Não tão rápido.

O diabo estava nos detalhes – ou na falta deles. O projeto de lei deu ao regulador de radiodifusão do Canadá, a Comissão Canadense de Rádio-televisão e Telecomunicações (CRTC), autoridade abrangente para policiar o conteúdo online. Originalmente, o conteúdo gerado pelo usuário, como vlogs, danças do TikTok ou filmes independentes, deveria ser isento. No entanto, no meio do processo legislativo, o governo de Trudeau removeu silenciosamente essas isenções. De repente, o vídeo do seu gato pode ser classificado como “conteúdo de transmissão“, dando aos burocratas o poder de decidir se ele atende aos padrões culturais canadenses.

Os críticos, incluindo juristas e grupos de direitos digitais, soaram o alarme. Eles argumentaram que a linguagem do projeto de lei era tão vaga que poderia permitir que o governo ditasse o que os canadenses viam, compartilham ou criam online. O espectro de algoritmos controlados pelo Estado escolhendo o que é promovido nas plataformas estava muito próximo da censura para ser tolerado.

Mas o governo descartou as preocupações, pintando os críticos como alarmistas. No Canadá de Trudeau, querer limites claros ao poder do governo aparentemente fez de você um teórico da conspiração.Image
Projeto de lei C-36: discurso de ódio ou assassino de debate?

Não contente em apenas supervisionar o que os canadenses poderiam criar, o governo de Trudeau deu um passo adiante com o Projeto de Lei C-36, uma suposta arma contra o discurso de ódio online. Se o Projeto de Lei C-10 era sobre o controle do meio, este projeto era sobre o controle da mensagem.

O que ele fez?

• Reintroduziu uma seção controversa da Lei de Direitos Humanos do Canadá, permitindo que as pessoas registrem queixas sobre discurso de ódio online.

• Permitiu que os tribunais impusessem multas pesadas e até prisão para os infratores.

• Deu ao governo o poder de penalizar preventivamente indivíduos suspeitos de potencialmente cometer discurso de ódio – uma espécie do sistema encontrado no filme Minority Report para crimes de pensamento.

O problema? A definição de “ódio” do projeto de lei era tão ampla que poderia criminalizar opiniões impopulares ou ofensivas. O projeto de lei não visava apenas incitações claras à violência; visava qualquer coisa considerada provável de expor os indivíduos ao “ódio ou desprezo”. Os críticos temiam que “ódio ou desprezo” pudesse significar qualquer coisa, desde dissidência política até críticas contundentes às políticas do governo.

Ainda mais alarmante era a perspectiva de uma “cultura de delatores”. O projeto de lei incentivou os cidadãos a denunciarem uns aos outros por suspeita de discurso de ódio, potencialmente transformando divergências em batalhas legais.

David Lametti, ministro da Justiça de Trudeau, defendeu o projeto de lei, alegando que ele atingiu o equilíbrio certo entre liberdade de expressão e proteção contra danos. Mas quando especialistas jurídicos e grupos de liberdades civis se uniram na oposição, ficou claro que o equilíbrio não era o forte do governo.
O congelamento de contas que repercutiu em todo o mundo

O Comboio da Liberdade – o momento em que a fama do Canadá passou de ser de protestos educados e da rede de fast-food Tim Horton para contas bancárias congeladas e repressão policial.

Em 2022, quando os caminhoneiros e seus apoiadores se dirigiram a capital Ottawa para protestar contra os decretos do COVID-19, Trudeau não os recebeu com diálogo ou mesmo com seu sorriso e aceno de marca registrada. Em vez disso, ele tirou a poeira da Lei de Emergências, algo que nenhum primeiro-ministro ousou tocar antes. Da noite para o dia, as instituições financeiras se tornaram os executores pessoais de Trudeau, congelando contas de manifestantes e de qualquer um que ousasse apoiá-los.

A vice-primeira-ministra Chrystia Freeland, a segunda em comando de Trudeau na época e uma conexão ambulante e falante do LinkedIn com as elites globais, avidamente fez o papel de policial má. Sob sua direção, a repressão financeira transformou o sistema bancário do Canadá em uma arma política. Não passou despercebido aos críticos que os laços estreitos de Freeland com financistas globais faziam a coisa toda parecer uma repressão internacional à dissidência.

E o precedente? A mensagem de Trudeau foi clara: discorde do governo e você pode perder o acesso às economias de sua vida. Foi uma aula magistral sobre como transformar sistemas financeiros em algemas, deixando as liberdades civis em frangalhos.
Subsidiando a obediência da mídia

Também na lista de corte estava a independência jornalística. O governo de Trudeau lançou uma legislação forçando os meios de comunicação a se registrarem em um órgão governamental para se qualificarem para financiamento. Superficialmente, isso foi propagandeado como uma tábua de salvação para o jornalismo em dificuldades. Porque nada é mais parecido com “liberdade de imprensa” do que repórteres dependentes de esmolas do governo, certo? É um movimento clássico: ofereça ajuda financeira com uma mão e segure a coleira com a outra.

Os críticos foram rápidos em apontar os perigos envolvidos nisso. Quando a mesma entidade que paga as contas também define as regras, a linha entre jornalismo e relações públicas do governo fica embaçada rapidamente. Trudeau, é claro, propagandeou isso como apoio à democracia, mas o resultado foi um cenário da mídia nervosamente de olho em seu próximo salário enquanto andava na ponta dos pés em torno das críticas a seu benfeitor.
Big Brother ganha uma conta no Twitter

Então veio a vigilância. Sob a supervisão de Trudeau, as agências de inteligência canadenses expandiram drasticamente seu monitoramento de mídia social. Inicialmente, isso foi enquadrado como uma ferramenta necessária contra o extremismo. Mas “extremismo”, assim como “desinformação”, é um termo flexível nas mãos daqueles que estão no poder. Ativistas e grupos de protesto – vozes tradicionalmente centrais no discurso democrático – de repente se viram sob o microscópio.

Imagine entrar no X para desabafar sobre uma nova política habitacional, apenas para perceber que seu tweet foi sinalizado por um algoritmo do governo. A mensagem era clara: a dissidência pode não ser ilegal, mas certamente era inconveniente.Image
Desinformação: a nova palavra da moda do governo

A pièce de résistance de Trudeau foi sua cruzada contra a “desinformação“. Essa palavra se tornou o canivete suíço das desculpas, usado para deslegitimar os críticos e encurralar a opinião pública. Você tem algum problema com as políticas governamentais? Desinformação. Questiona os pandêmicos decretos? Desinformação. Não ficou impressionado com a última foto de Trudeau? Você adivinhou – desinformação.

Para enfatizar o ponto, seu governo lançou uma série de campanhas de conscientização pública, ostensivamente para educar os canadenses sobre os perigos da desinformação online. Essas campanhas, repletas de condescendência paternalista, muitas vezes borravam a linha entre a verificação de fatos e a propaganda direta. O que estava nas entrelinhas era claro: a dissidência, mesmo que enraizada em preocupações genuínas, era uma ameaça à coesão nacional.
O novo normal do Canadá: o medo de falar livremente

O efeito cumulativo dessas políticas não foi sutil. Todos os dias, os canadenses começaram a se censurar, não por respeito aos outros, mas por medo de pisar nos pés burocráticos errados. Os criadores de conteúdo hesitaram em abordar tópicos divisivos. Os ativistas se perguntaram se seu próximo comício os colocaria em uma lista de observação do governo. O que antes era um mercado robusto de ideias começou a se assemelhar a uma prateleira escassamente abastecida.

E, no entanto, os defensores de Trudeau permanecem leais, argumentando que suas políticas foram tentativas nobres de proteger a sociedade. No entanto, como a história tem mostrado repetidamente, o caminho para a censura é pavimentado com a promessa de segurança, mas seu destino é uma sociedade com muito medo de se expressar.Image
O legado da expressão controlada

Então, qual é o veredicto? Trudeau é um guardião incompreendido da democracia ou é o lobo que rondava sob o disfarce de pastor? É difícil defender a inclusão e a diversidade quando menos vozes podem participar da conversa. O Canadá pode um dia se dar conta de todas as implicações dessas políticas, mas os danos já são visíveis.

E enquanto os canadenses andam na ponta dos pés quando navegam nas suas plataformas digitais, uma pergunta permanece: quão livre é uma democracia onde todos sussurram?Image

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Dec 24, 2025
A grande fraude do colesterol e os perigos das estatinas 🧶

Por Um médico do Centro-Oeste

Explorando as causas reais e tratamentos das doenças cardíacas

Resumo:

• Existe uma crença generalizada de que o colesterol elevado é a “causa” das doenças cardiovasculares. No entanto, um grande conjunto de evidências mostra que não há associação entre os dois e que o colesterol mais baixo aumenta significativamente o risco de morte.

• Um modelo alternativo (que a indústria médica enterrou) propõe que os coágulos sanguíneos que o corpo usa para curar danos arteriais, uma vez cicatrizados, criam as lesões ateroscleróticas características associadas a doenças cardíacas. As evidências para esse modelo, por sua vez, são muito mais fortes do que a hipótese do colesterol e fornecem muitos insights importantes para o tratamento de doenças cardíacas.

• A principal abordagem para tratar doenças cardíacas é prescrever estatinas para reduzir o colesterol (a ponto de já terem sido gastos mais de um trilhão de dólares com estes medicamentos). Infelizmente, os benefícios desses medicamentos altamente tóxicos são mínimos (por exemplo, no máximo, tomá-los por anos prolonga sua vida em alguns dias) e os danos são vastos (estatinas são um dos medicamentos mais comuns que causam lesões graves aos pacientes).

• Neste artigo, vamos explorar as lesões específicas causadas por estatinas, as causas esquecidas das doenças cardiovasculares e nossos tratamentos preferidos para doenças cardíacas e vasculares.

Quanto mais estudo ciência, mais percebo com que frequência fatos fundamentais acabam sendo alterados para que uma indústria lucrativa possa ser criada. No caso das doenças cardíacas, acredito muito que seja esse o caso e, nesta publicação, tentei expor as informações erradas que predominam em nossa compreensão desse assunto (por exemplo, já discuti anteriormente por que nosso modelo de como o coração bombeia sangue no corpo está incorreto e, em um artigo que será lançado em algumas semanas, vou detalhar os principais equívocos sobre o controle da pressão arterial).

Dentro da cardiologia, acredito que uma das mentiras mais prejudiciais é que o colesterol causa doenças cardíacas e que tomar estatinas (ou seus equivalentes mais novos), que reduzem o colesterol, é a chave para prevenir doenças cardíacas. Isso porque, além desses “fatos” estarem incorretos, as estatinas também são alguns dos medicamentos farmacêuticos mais perigosos e amplamente utilizados no mercado.Image
Colesterol e doenças cardíacas

Frequentemente, quando uma indústria prejudica muitas pessoas, ela cria um bode expiatório para livrar sua cara. Quando isso acontece, vários outros setores que também se beneficiam desse bode expiatório existente embarcam nessa onda. Logo, uma crença falsa que prejudica a sociedade se torna um dogma inquestionável que se torna muito difícil de derrubar porque muitas partes corruptas têm interesse em manter a mentira.

Por exemplo, vários fatores facilmente abordáveis (que muitas vezes existem porque beneficiam uma indústria) são responsáveis pelas doenças crônicas que enfrentamos na sociedade e por nossa vulnerabilidade a doenças infecciosas (por exemplo, obesos e diabéticos tinham muito mais chances de contrair COVID-19). No entanto, ao dizer que todas as doenças resultam de vacinação insuficiente, isso tira a responsabilidade de todas essas indústrias destrutivas e cria um enorme mercado para a venda de vacinas e tratamentos para essas doenças. Assim, como existem tantos interesses encastelados por trás do paradigma da vacina, é muito difícil revertê-lo — apesar de as evidências existentes mostrarem que as vacinas são responsáveis pela enorme epidemia de doenças crônicas que está varrendo nosso país.

Nas décadas de 1960 e 1970, surgiu um debate sobre o que causava as doenças cardíacas. Por um lado, John Yudkin argumentou efetivamente que o açúcar adicionado aos nossos alimentos pela indústria de alimentos processados era o principal culpado. Por outro lado, Ancel Keys (que atacou o trabalho de Yudkin) argumentou que isso se devia à gordura saturada e ao colesterol.

[Nota: também se pode argumentar que a adoção em massa de óleos vegetais levou a esse aumento de doenças cardíacas. Da mesma forma, alguns acreditam que o advento da cloração da água foi responsável por esse aumento.]

Ancel Keys venceu, o trabalho de Yudkin foi amplamente ignorado, e Keys tornou-se dogma nutricional. Grande parte da vitória de Key baseou-se em seu estudo de sete países (Itália, Grécia, Ex-Iugoslávia, Holanda, Finlândia, EUA e Japão), que mostrou que, à medida que o consumo de gorduras saturadas aumentava, as doenças cardíacas aumentavam de forma linear.

No entanto, o que muitos não sabem (já que este estudo ainda é frequentemente citado) é que esse resultado foi simplesmente um produto dos países escolhidos por Keys (por exemplo, um autor ilustrou que, se Finlândia, Israel, Holanda, Alemanha, Suíça, França e Suécia tivessem sido escolhidos, o oposto teria sido encontrado).

Felizmente, foi gradualmente reconhecido que Ancel Keys não relatou com precisão os dados que usou para fundamentar seus argumentos. Por exemplo, recentemente foi descoberto um estudo randomizado não publicado de 56 meses com 9.423 adultos vivendo em hospitais psiquiátricos públicos ou em casas de repouso (que possibilitou controlar rigidamente suas dietas), do qual Keys foi o principal pesquisador. Este estudo (inconvenientemente) descobriu que substituir metade das gorduras animais (saturadas) que eles consumiam por óleo vegetal (por exemplo, óleo de milho) reduzia o colesterol, e que para cada 30 pontos que ele caía, o risco de morte aumentava 22% (o que equivale aproximadamente a cada queda de 1% no colesterol aumentando o risco de morte em 1 %) — então, como você pode imaginar, este estudo nunca foi publicado.

[Nota: o autor que desenterrou esse estudo também descobriu outro estudo (não publicado) dos anos 1970 com 458 australianos, que constatou que substituir parte de suas gorduras saturadas por óleos vegetais aumentava o risco de morte em 17,6% .]

Da mesma forma, recentemente, um dos periódicos médicos mais prestigiados do mundo publicou documentos internos da indústria açucareira. Eles mostraram que a indústria açucareira usou subornos para fazer com que os cientistas colocassem a culpa das doenças cardíacas na gordura, para que o trabalho de Yudkin não ameaçasse a indústria açucareira. Por sua vez, agora é geralmente aceito que Yudkin estava certo, mas, mesmo assim, nossas diretrizes médicas ainda são amplamente baseadas no trabalho de Key.

No entanto, apesar de uma quantidade significativa de dados que agora mostram que a redução do colesterol não está associada à redução das doenças cardíacas (por exemplo, este estudo, este estudo, este estudo, esta revisão, esta revisão e esta revisão) a necessidade de reduzir o colesterol ainda é um dogma dentro da cardiologia. Por exemplo, quantos de vocês já ouviram falar desse estudo de 1986 publicado na Lancet e que concluiu:

“Durante 10 anos de acompanhamento, de 1º de dezembro de 1986 a 1º de outubro de 1996, um total de 642 participantes faleceu. Cada aumento de 1 mmol/L no colesterol total correspondia a uma diminuição de 15% na mortalidade (razão de risco 0–85 [95% Cl 0,79–0,91]).”

[Nota: quando as pessoas são diabéticas (o que faz com que o fígado precise processar açúcar em excesso), ele se converte em gordura e depois gera mais colesterol para transportar parte dessa gordura. Nesses casos, eu diria que o verdadeiro problema é o excesso de açúcar, e não os níveis elevados de colesterol que ele causa.]Image
O marketing das estatinas

Um dos padrões consistentes que observei na medicina é que, uma vez identificado um medicamento que pode “beneficamente” mudar um número, as diretrizes de prática médica gradualmente passam a priorizar esse número e, logo depois, racionais são criados que exigem que cada vez mais pessoas da população estejam sujeitas a esse regime. No caso das estatinas, antes de serem descobertas, era difícil reduzir o colesterol de forma confiável, mas quando chegaram ao mercado, pesquisas surgiram rapidamente indicando que o colesterol era cada vez mais perigoso e, portanto, que cada vez mais pessoas precisavam usar estatinas.

Como era de se esperar, aumentos semelhantes também ocorreram nos EUA. Por exemplo, em 2008-2009, 12% dos americanos com mais de 40 anos relataram ter tomado estatina, enquanto em 2018-2019 isso aumentou para 35% dos americanos.

Dado o quanto esses medicamentos são usados, surge uma questão simples — quanto benefício eles produzem?

Acontece que essa é uma pergunta notavelmente difícil de responder, já que os estudos publicados usam uma variedade de métricas confusas para obscurecer seus dados (o que significa que os ensaios publicados com estatinas quase certamente inflacionam os benefícios da terapia com estatinas) e, mais importante, praticamente todos os dados sobre terapia com estatinas são mantidos por uma colaboração privada de pesquisa que publica consistentemente avaliações positivas sobre estatinas (e ataca qualquer um que afirme o contrário), mas simultaneamente se recusa a liberar seus dados para pesquisadores externos, o que levou esses pesquisadores a tentarem obter esses dados faltantes dos reguladores de medicamentos.

[Nota: como você deve ter imaginado, essa colaboração exige muito dinheiro da indústria farmacêutica.]

No entanto, quando pesquisadores independentes analisaram os ensaios publicados (que quase certamente inflacionaram o benefício da terapia com estatinas), descobriram que tomar uma estatina diariamente por aproximadamente 5 anos resultava em você viver, em média, 3 a 4 dias a mais. Ainda mais triste, grandes ensaios descobriram que esse “benefício” minúsculo só é visto em homens. Em resumo, a maior parte do benefício das estatinas vem de maneiras criativas de reorganizar dados e causas de morte, não de nenhum benefício real.

[Nota: isso é muito semelhante ao teste da vacina contra a COVID da Pfizer, que afirmou ser “95% eficaz” contra a COVID-19, mas na realidade criou apenas uma redução de 0,8% nos sintomas leves da COVID (por exemplo, dor de garganta) e uma redução de 0,037% nos sintomas graves da COVID (com “grave” nunca sendo definido pela Pfizer). Isso, por sua vez, significava que era necessário vacinar 119 pessoas para prevenir um caso leve (e sem importância) de COVID-19, e 2711 para prevenir um caso “grave” de COVID-19.Image
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Dec 10, 2025
Dois estudos históricos, abrangendo 8,7 MILHÕES de pessoas, descobriram que as “vacinas” contra COVID-19 aumentam o risco de SETE grandes tipos de câncer:

Mama: +54%
Bexiga: +62%
Pulmão: +53%
Próstata: +69%
Tireoide: +35%
Estômago: +34%
Colorretal: +35%

Tudo explicado pelos 17 mecanismos oncogênicos do mRNA.
Governo brasileiro é o único que obriga injetar bebês com a inútil e perigosa “vacina”contra COVID

rothbardbrasil.com/governo-brasil…
Quanto dano a vacinação em massa causou à sociedade?

rothbardbrasil.com/quanto-dano-a-…
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Sep 29, 2025
Trump escancara debate sobre autismo 🧵

O autismo tem sido um assunto intocável. Durante décadas, agências governamentais andaram na ponta dos pés, direcionando a pesquisa para a genética, evitando cuidadosamente questões ambientais ou farmacêuticas controversas.

Isso acabou indo parar na Casa Branca esta manhã, quando o presidente Donald Trump quebrou o tabu com uma performance contundente e às vezes incendiária que deixou até mesmo seus próprios dirigentes de saúde para traz.

Ao lado do secretário de Saúde Robert F. Kennedy Jr., do diretor do NIH Jay Bhattacharya, do comissário da FDA Marty Makary, do administrador do CMS Dr. Mehmet Oz e outros altos funcionários, Trump declarou que o autismo era uma “crise horrível, horrível” e contou a história de sua ascensão de modo surpreendente.

“Apenas algumas décadas atrás, uma em cada 10.000 crianças tinha autismo … agora é uma em 31, mas em algumas áreas, é muito pior do que isso, se você conseguir acreditar, um em 31 e… para os meninos, é um em cada 12 na Califórnia”, disse Trump.

O presidente insistiu que a tendência foi “induzida artificialmente”, acrescentando: “Não tem como irmos de uma em 20.000 para uma em 10.000 e depois para 12, você sabe, há algo artificial. Elas estão tomando alguma coisa.”Image
O aviso contundente de Trump sobre Tylenol

O momento que foi parar nas manchetes veio quando Trump se concentrou no paracetamol, o analgésico comum vendido como Tylenol.

Enquanto Kennedy e Makary descreveram um processo cauteloso de mudanças de rótulos e conselhos médicos, Trump dispensou nuances.

“Não tome Tylenol”, disse Trump categoricamente. “Não tome a menos que seja absolutamente necessário … lute feito um louco para não tomá-lo.”

Kennedy expôs a base de evidências, citando “estudos clínicos e laboratoriais que sugerem uma associação potencial entre o paracetamol usado durante a gravidez e resultados adversos do neurodesenvolvimento, incluindo diagnóstico tardio de TDAH e autismo”.

Makary reforçou o ponto com referências à Coorte de Nascimentos de Boston, ao Estudo de Saúde das Enfermeiras e a uma recente revisão de Harvard, antes de acrescentar: “Para citar o reitor da Escola de Saúde Pública de Harvard, existe uma relação causal entre o uso pré-natal de paracetamol e distúrbios do neurodesenvolvimento do TDAH e transtorno do espectro do autismo. Não podemos esperar mais.”

Mas onde as autoridades falaram de “menor dose eficaz” e “menor duração possível”, Trump trovejou por cima: “Eu só quero dizer como é, não tome Tylenol. Não tome se você simplesmente puder não tomar. Quero dizer, diz, lute feito um louco para não tomá-lo.”Image
As vacinas de volta ao centro do palco

O presidente então se voltou para as vacinas, revivendo argumentos que o establishment médico há muito procura enterrar. Ele criticou a prática de dar injeções múltiplas aos bebês em uma única visita.

“Eles bombeiam tanta coisa para aqueles lindos bebezinhos, é uma vergonha … você recebe um tanque de 80 vacinas diferentes, eu acho, 80 misturas diferentes, e eles bombeiam”, disse Trump.

Sua solução foi simples: “Vá ao médico quatro vezes em vez de uma, ou cinco vezes em vez de uma vez… isso só pode ser benéfico.”

Sobre a vacina contra sarampo, caxumba e rubéola, Trump insistiu: “A MMR, acho que deveria ser tomada separadamente … Quando você as mistura, pode haver um problema. Portanto, não há desvantagem em tomá-las separadamente.

O momento foi surpreendente – ecoando argumentos que já fizeram médicos como Andrew Wakefield serem excomungados dos círculos médicos.

Era o tipo de linha de questionamento que o establishment passou décadas tentando banir do debate mainstream.Image
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Sep 26, 2025
Javier Milei e a Escola Austríaca 🧵

Introdução

Um dos políticos mais comentados hoje é o presidente argentino, Javier Milei. Ele é retratado e se retrata como um libertário e um seguidor da escola austríaca, invocando, especificamente, Mises, Rothbard e Hoppe, entre outros. Foi a leitura de Rothbard sobre o monopólio que primeiro alertou Milei para a escola austríaca, e ele leu Ação Humana de Mises repetidamente e fez tantas marcações que teve que comprar uma segunda cópia legível. Durante um período de tempo, ele até restringiu seu consumo de outros bens ao mínimo, a fim de comprar o maior número possível de livros sobre economia austríaca. Ele narrou essa história de conversão repetidamente, no Encontro Hayek em Hamburgo e no prefácio do livro A era Milei, de Philipp Bagus.

Esta é uma história encantadora, mas resta saber que tipo de ciência econômica Milei realmente propaga para seus seguidores e usa como guia para suas políticas. Seu programa político geral e sua retórica têm revelado cada vez mais que Milei não passa de um conservador comum, em vez de um revolucionário libertário, como evidenciado em seus crescentes gastos militares, sua reforma e aumento do tamanho da polícia argentina e sua busca por relações muito estreitas com o Estado americano. Talvez o mesmo seja verdade para sua economia: que a economia austríaca de Milei, assim como seu libertarianismo, é apenas um verniz fino com pouca base na realidade.

Embora as políticas econômicas de Milei tenham sido frequentemente criticadas, poucos examinaram criticamente sua relação com a escola austríaca,[1] e alguns até celebraram essa suposta relação. Mas a ciência econômica de Milei é realmente inspirada por Mises e Rothbard, como sua retórica levaria a acreditar? Como é provavelmente bem conhecido oara os leitores deste instituto, quando o Prof. Hoppe criticou o programa político de Milei no ano passado, a resposta foi uma torrente de abusos que equivalia à alegação de que Hoppe não conhece a ciência econômica. Essa afirmação foi repetida em 8 de junho deste ano no Fórum Econômico de Madri e novamente no twitter, com Milei acrescentando que Rothbard discordaria de Hoppe.

Não vou aqui entrar muito nos detalhes da disputa entre Milei e Hoppe sobre principalmente a natureza do banco central, mas sim examinar uma questão mais geral: Milei é um economista austríaco? Ele é um representante fiel de nossa tradição, a saber, a de Ludwig von Mises e Murray N. Rothbard, e é justo e razoável associar a escola austríaca, para o bem ou para o mal, com a economia de Milei? Vou me concentrar principalmente nos escritos e discursos de Milei sobre economia e apenas secundariamente em suas políticas. Um defensor de Milei pode alegar que ele é realmente “um de nós”, mas seu poder político é limitado, ele não pode fazer tudo o que quer fazer e assim por diante. Mas talvez seu programa econômico não seja austríaco pela simples razão de que Milei não é austríaco e seu envolvimento com a escola é apenas superficial.Image
O pensamento econômico de Milei

Crescimento econômico

O lugar ideal para começar a examinar a economia de Milei é sua teoria do crescimento econômico. Isso ocorre por duas razões: primeiro, Milei era e se apresentava como um economista desenvolvimentista antes de descobrir a escola austríaca, e foi o fracasso da economia desenvolvimentista mainstream em explicar os últimos séculos de crescimento econômico que fez ele se conscientizar dos problemas da economia neoclássica e o fez se voltar para Rothbard; e segundo, até onde pude encontrar, o único escrito acadêmico de Milei[2] desde sua virada austríaca descreve precisamente esse fracasso da economia neoclássica e a solução que ele encontrou em Rothbard e na Escola Austríaca.

Ao se preparar para sua primeira apresentação em Davos em 2024, Milei usou o trabalho de Angus Maddison[3] para uma visão geral do desenvolvimento econômico global. Com Maddison, ele aprendeu que até 1800 basicamente não havia desenvolvimento – as pessoas eram basicamente tão pobres em 1800 quanto no ano 1. Então, nos 200 anos seguintes, a riqueza se multiplicou. Isso significa que houve um período de retornos crescentes, mas retornos crescentes não podem se encaixar nos modelos de crescimento neoclássicos – na verdade, como veremos, a economia neoclássica é positivamente hostil à explicação de Milei. Milei se volta primeiro para Adam Smith[4] em busca de respostas, como qualquer economista faria. Apesar da conhecida crítica de Rothbard a Smith,[5] isso também parece aceitável do ponto de vista austríaco, mas é crucial examinar o que Milei encontrou em Smith.

Em sua leitura, Smith identifica cinco causas do desenvolvimento econômico: acumulação de capital, mercados livres, inovação tecnológica e aprendizagem experiencial, e retornos crescentes de escala, que Milei vê como a realidade por trás do famoso exemplo da fábrica de alfinetes (ou parábola, como Milei o chama). De fato, Milei resume ainda mais as ideias-chave de Smith:

“o modelo do Pai da Economia baseia-se em duas ideias fundamentais: a fábrica de alfinetes (retornos crescentes de escala) e o conceito da mão invisível (cooperação social sob ordem espontânea).”[6]

Qual é então a fonte de retornos crescentes de escala? Aqui, a leitura de Milei de Smith se torna idiossincrática. Adam Smith, é claro, quis destacar a importância da divisão do trabalho com seu exemplo de fábrica de alfinetes, mas Milei não localiza a fonte de retornos crescentes nisso. Em vez disso, retornos crescentes só podem vir de “estruturas de mercado concentradas”, ou seja, de monopólios. É aqui que Milei vê a crise da economia neoclássica: o monopólio explica o aumento dos retornos e, portanto, o desenvolvimento econômico, mas o monopólio é uma externalidade negativa que deve ser evitada por meio da intervenção para alcançar o resultado ótimo de Pareto.[7]

Nessa crise do neoclassicismo, Milei se volta para a análise de Rothbard sobre o monopólio em Homem, Economia e Estado.[8] Citando a definição de monopólio de Lord Coke como privilégio legal, Milei conclui que não há nada de errado com o monopólio, a não ser que seja o resultado de intervenção violenta e que a livre troca versus intervenção violenta é a distinção importante ao analisar um mercado, não o número de vendedores.[9] Tudo isso é verdade, é claro, e uma tradução fiel da posição de Rothbard, mas deixa a análise de Milei sobre o desenvolvimento econômico intocada: o monopólio traz retornos crescentes e, portanto, progresso. Ele apenas descarta a conotação negativa de monopólio e, em seguida, afirma que as intervenções destinadas a quebrar os monopólios levarão a um ciclo de intervencionismo que acabará por terminar no socialismo. Tal análise do intervencionismo é bem conhecida a partir do trabalho de Mises,[10] mas Milei apenas cita O Caminho da Servidão de Hayek e Planning for Freedom de Mises, ele não se envolve em nenhuma descrição ou análise do processo pelo qual a legislação antimonopólio leva ao socialismo.

Exatamente como os monopólios levam a retornos crescentes também não está claro além de sua necessidade matemática no modelo neoclássico, como Milei o lê. Suspeita-se que eles sejam cruciais na introdução de novas tecnologias, já que a inovação é a explicação padrão do crescimento na economia mainstream moderna, seja em modelos exógenos na tradição de Solow[11] ou, sem dúvida, também nos modelos endógenos que Milei defende.[12] Essa impressão é reforçada quando Milei destaca a inovação em sua leitura de Adam Smith.

Desnecessário dizer que não é “austríaco” afirmar que os monopólios são os motores do desenvolvimento econômico. As explicações austríacas padrão do desenvolvimento são muito “clássicas” em seus argumentos: a divisão do trabalho pode gerar retornos crescentes, mas especialmente a acumulação de capital é fundamental. A diferença entre um país rico e um pobre, como diz Mises, se deve à diferença no capital acumulado por pessoa, que por sua vez determina a produtividade por pessoa.

“Somos os afortunados herdeiros de nossos antepassados, cuja poupança permitiu a acumulação de bens de capital com os quais estamos trabalhando hoje. Nós, os filhos privilegiados da era da eletricidade, continuamos a nos beneficiar da poupança original dos primeiros pescadores que, ao produzirem as primeiras redes e canoas, dedicaram uma parte do seu tempo de trabalho para o aprovisionamento de um futuro mais remoto…. Estamos, hoje, melhores do que as gerações anteriores, porque dispomos dos bens de capital que elas acumularam para nós.”[13]

A tecnologia também não é uma explicação alternativa, uma vez que o conhecimento técnico não é um fator limitante na produção, mas sim a quantidade de capital e os bens de capital disponíveis determinam quais dos possíveis planos técnicos de produção serão seguidos.[14]

A importância da acumulação de capital é hoje negada pela economia neoclássica mainstream, como é evidente nos modelos de crescimento com os quais Milei está familiarizado. Economistas clássicos como Smith e Ricardo enfatizaram esse ponto, e hoje em dia os austríacos estão virtualmente sozinhos em manter esse ponto de vista “clássico”. No entanto, Milei não aprendeu isso nem com Smith nem com Mises.

O problema dos retornos decrescentes que Milei encontrou nos modelos neoclássicos também não é aplicável à análise austríaca, uma vez que a lei dos retornos só se aplica aos fatores individuais de produção, não ao capital como tal. À medida que o capital é acumulado, ele será investido em vários bens de capital concretos, cujo emprego, é claro, está sujeito à lei dos retornos decrescentes. Isso significa apenas, no entanto, que o retorno do trabalho aumentará e, à medida que o capital for acumulado, novas combinações de produção e uma nova divisão do trabalho se tornarão possíveis, levando a retornos crescentes.[15] Tudo isso aponta para a teoria distintamente austríaca do capital, mas Milei não discute o capital. Nisso sua leitura, ou pelo menos sua aplicação, da economia austríaca parece inexistente. Ele escreve puramente em termos neoclássicos e só aceita a visão de Rothbard sobre o monopólio. Ele realmente não escapou da armadilha neoclássica.

A economia desenvolvimentista de Milei não é apenas de interesse acadêmico. Ele também propagou essas ideias publicamente, com destaque em seu discurso em Davos em janeiro de 2024.Image
Teoria Monetária

A teoria monetária de Milei é talvez o mais conhecido de seus desvios da tradição austríaca que ele afirma seguir. Seu programa de reforma monetária chamou a atenção generalizada e foi a crítica do professor Hoppe às suas políticas reais sobre o assunto que provocou as primeiras explosões de raiva de Milei contra Hoppe. Milei propôs um programa de dolarização seguido pela abolição do banco central.[16] O programa de dolarização é defeituoso por dois motivos: equivale a um grande confisco de riqueza privada e é insuficiente em comparação com uma reforma mais simples.

Primeiro, o programa de dolarização com o qual Milei flertou em sua campanha e que pode, pelo que sei, ainda estar orientando a política, exige que o banco central da Argentina primeiro construa reservas em dólares. Uma vez que as reservas sejam adequadas, o dólar americano substituirá o peso e o banco central argentino poderá deixar de existir. No entanto, a construção de reservas em dólares só pode acontecer por meio de algum tipo de tributação, a menos, é claro, que os argentinos entreguem voluntariamente seus dólares ao banco central. Ou o governo argentino teria que usar os recursos obtidos através dos impostos para comprar dólares, o que dificilmente seria viável, pois pressionaria a taxa de câmbio; ou teria que forçar as empresas de exportação a entregar seus ganhos em dólares a uma taxa com desconto. Poderia também, como realmente foi feito, emprestar os dólares do FMI e de outras instituições internacionais, mas esta é apenas uma medida paliativa, uma vez que esses empréstimos geralmente têm de ser reembolsados a curto prazo.

Em segundo lugar, mesmo que a dolarização seja melhor do que um peso inflacionário, o dólar americano em si está longe de ser uma boa moeda. É verdade que a dolarização tornaria a política monetária na Argentina impossível, mas os argentinos ainda estariam sujeitos a uma grande perda de poder de compra, à medida que a inflação americana redistribui a riqueza de todos os detentores de dólares em todo o mundo para os destinatários favorecidos de dólares recém-criados em Washington e Nova York. Uma solução superior e mais simples seria simplesmente fechar o banco central argentino e, se isso se mostrar politicamente impossível, fazê-lo parar de emitir novos pesos e permitir total liberdade na escolha da moeda. Se a taxa de criação de dinheiro caísse para um mínimo ou mesmo para zero, as expectativas inflacionárias das pessoas provavelmente desapareceriam da noite para o dia e a qualidade do peso melhoraria substancialmente. Os argentinos também poderiam decidir usar outra moeda em vez do peso e, dadas as amplas participações em dólares na Argentina, o dólar seria o primeiro da fila, mas isso não é de forma alguma certo. Em vez disso, à medida que a qualidade percebida do peso aumentasse, as pessoas começariam a se livrar de seus dólares, pois é muito mais conveniente manter sua riqueza na mesma moeda que você usa para transações diárias.[17]

O fato de Milei não ter abolido completamente o banco central não é simplesmente uma consequência de seu programa de dolarização ou de suas limitadas possibilidades políticas. Quando questionado sobre o assunto, ele (infamemente) afirmou que o banco central é necessário para lastrear a moeda. O peso é um passivo do banco central, portanto, se você abolir o banco central, tornará o peso inútil. Esta é a chamada teoria de lastro da moeda, segundo a qual, longe de ser um motor da inflação, o banco central é necessário para salvaguardar o valor do dinheiro. A inflação é, nessa visão, uma questão de o banco central manter o tipo errado de ativos de baixa qualidade, que no caso da Argentina seriam títulos do governo argentino em vez de títulos do governo americano, presumivelmente.

Essa teoria é um desenvolvimento da doutrina falaciosa das letras reais, segundo a qual a expansão do crédito bancário não é inflacionária, desde que os bancos só emprestem dinheiro contra letras de câmbio que representam atividade econômica real. Da mesma forma, os bancos centrais não são inflacionários, desde que detenham ativos de alta qualidade. No entanto, os argumentos da escola monetária contra a doutrina das letras reais também se aplicam à teoria do lastro: o valor dos ativos que lastreiam uma moeda não é independente da quantidade de dinheiro em circulação ou do aumento da quantidade de dinheiro. O alegado limite à inflação é perfeitamente elástico.

Não deveria ser surpresa que essa teoria não tenha nada a ver com a teoria monetária de Ludwig von Mises e Murray N. Rothbard. O dinheiro é um bem econômico que é valorizado apenas por seu poder de compra.[18] Não é uma reivindicação sobre outros bens, mas um bem econômico em si e seu valor é determinado de acordo com a demanda (com base no poder de compra esperado) e a oferta. No mundo moderno, os bancos centrais criam dinheiro. Mises em 1949 chamou os bancos centrais de “meras ferramentas de expansão do crédito e inflação”[19] e em 1959, em uma palestra proferida na Argentina, ele descreveu o banco central simplesmente como um motor da inflação.[20] Rothbard argumentou que “o propósito essencial do banco central é usar o privilégio do governo para remover as limitações… na inflação monetária e de crédito bancário”.[21] Embora os ativos do banco central sejam importantes quando se trata de sua capacidade de conduzir a política monetária, eles são irrelevantes para o valor do dinheiro. A taxa de criação de dinheiro e as avaliações e expectativas do público são aqui os únicos fatores decisivos.[22]Image
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Sep 19, 2025
O liberalismo clássico e a Escola Austríaca

Por: Ralph Raico

O liberalismo, hoje frequentemente chamado de liberalismo clássico (veja o ensaio “Liberalismo: Verdadeiro e Falso”) baseia-se na concepção da sociedade civil como em geral auto-reguladora quando seus membros são livres para agir dentro dos limites muito amplos de seus direitos individuais. Entre estes, ao direito à propriedade privada, incluindo a liberdade de contrato e troca e a livre disposição do próprio trabalho, é dada alta prioridade. Historicamente, o liberalismo manifestou uma hostilidade à ação estatal, que, insiste, deve ser reduzida ao mínimo.

Economia austríaca é o nome dado à escola, ou vertente, da ciência econômica que começou em 1871, com a publicação de Princípios de Economia Política de Carl Menger (Hayek 1968; Kirzner 1987; Salerno 1999). Desde muito cedo e continuamente, ela tem sido associada – tanto por adeptos quanto talvez ainda mais decisivamente por vários oponentes – à doutrina liberal.[1] O objetivo deste ensaio é examinar algumas das conexões que existem, ou foram consideradas existentes, entre a economia austríaca e o liberalismo.Image
Economia austríaca e wertfreiheit

Os autores às vezes se referem livremente à “posição ética austríaca” e à “postura moral e ética” dos economistas austríacos, denotando uma posição com fortes implicações (liberais) na política (Shand 1984: 221; Reekie 1984: 176). À primeira vista, isso é surpreendente, uma vez que os economistas austríacos têm se esforçado para afirmar a wertfreiheit (ausência de juízo de valor ou neutralidade de valor) de seus ensinamentos e, portanto, sua conformidade com as restrições de Max Weber sobre o caráter das teorias científicas (Kirzner 1992b). Ludwig von Mises, por exemplo (1949: 881) afirmou que: “a ciência economica não é política ou é apolítica. . . é perfeitamente neutra no que diz respeito aos julgamentos de valor, pois se refere sempre aos meios e nunca à escolha dos fins últimos.”[2]

Dito isso, no entanto, o fato é que todas as principais figuras do desenvolvimento da economia austríaca habitualmente assumiam posições sobre questões políticas que consideravam de alguma forma fundamentadas em suas doutrinas econômicas. Mises, por exemplo, é amplamente reconhecido como provavelmente o principal pensador liberal do século XX. Em sua obra-prima, Ação Humana, ele lançou luz sobre a conexão entre economia livre de valores e política liberal:

“Enquanto a praxeologia e, portanto, também a economia empregam os termos felicidade e diminuição do desconforto num sentido puramente formal, o liberalismo lhes confere um significado concreto. Pressupõe que as pessoas prefiram a vida à morte, a saúde à doença, o alimento à fome, a abundância à pobreza. indica ao homem como agir em conformidade com essas valorações. . . . os liberais não afirmam que os homens deveriam empenhar-se para alcançar os objetivos mencionados acima. o que sustentam é que a imensa maioria prefere uma vida de saúde e abundância à miséria, à fome e à morte.” (1949: 154, ênfase no original)

De acordo com Mises, então, a ciência econômica ensina os meios necessários para a promoção dos valores que a maioria das pessoas endossa. Esses meios compreendem, basicamente, a manutenção de um mercado livre, uma economia de propriedade privada. Assim, o economista enquanto economista não faz julgamentos de valor, incluindo julgamentos de valor políticos. Ele apenas propõe imperativos hipotéticos: se você deseja alcançar A, e B é o meio necessário para a realização de A, então faça B (Rothbard 1962, 2: 880-81). Uma questão que nos preocupará é se a divisão entre a teoria austríaca e os princípios liberais é tão cirurgicamente clara quanto Mises parece sugerir.Image
Individualismo metodológico

O individualismo metodológico tem sido uma pedra angular da economia austríaca desde o início (Christainsen 1994).[3] Em seu Investigações, Menger escreveu:

“A nação como tal não é um grande sujeito que tem necessidades, que trabalha, pratica economia e consome. . . . Assim, os fenômenos da ‘economia nacional’ . . . são, antes, os resultados de todos os inúmeros esforços econômicos individuais da nação e. . . também devem ser teoricamente interpretados sob essa luz. . . . Quem quiser entender teoricamente os fenômenos da ‘economia nacional’. . . deve, por essa razão, tentar voltar aos seus verdadeiros elementos, às economias singulares da nação, e investigar as leis pelas quais as primeiras são construídas a partir das últimas.” (1985: 93; ênfase no original)

O individualismo metodológico foi endossado pelos outros líderes do austrianismo[4] a ponto de Fritz Machlup (1981: 9) poder listá-lo como o primeiro dos “requisitos mais típicos de um verdadeiro adepto da escola austríaca”.

Provavelmente por causa das conotações do substantivo, os austríacos enfatizaram que o que está em questão é o individualismo metodológico. Israel Kirzner (1987: 148), ao citar o critério de Machlup sobre o austrianismo, adverte que isso “não deve ser confundido com individualismo político ou ideológico”; refere-se apenas “à afirmação de que os fenômenos econômicos devem ser explicados regredindo às ações dos indivíduos”. Lawrence H. White (1990: 356) também deseja distanciar o individualismo metodológico de qualquer indício de política. White critica Max Alter por aludir a uma batalha “política” a esse respeito, comentando: “na verdade, a frase individualismo metodológico foi cunhada precisamente para distingui-lo de outras variedades de individualismo, incluindo a variedade política”.

Mas a questão interessante não é se o princípio metodológico característico da escola austríaca é idêntico ao individualismo no sentido político (geralmente mais ou menos um sinônimo de liberalismo). Obviamente, não é. A questão é se o próprio princípio possui ramificações políticas.

Certamente é possível que alguém adote o individualismo metodológico e não endosse o liberalismo (Böhm 1985: 252-53). Jon Elster, por exemplo, é capaz de insistir na necessidade do individualismo metodológico nas ciências sociais, enquanto continua a se ver como uma espécie de marxista (1985: 4-8).[5] No entanto, é significativo que Elster rejeite certas afirmações de Marx com base em sua incompatibilidade com o individualismo metodológico. Em geral, parece claro que a abordagem austríaca na metodologia tende a excluir certas ideologias holísticas que também são inconsistentes com o liberalismo, como o marxismo clássico e algumas variedades de racismo e hipernacionalismo.[6] Nessa medida, então, o individualismo não é simplesmente metodológico.

Fatores políticos desempenharam um papel no debate sobre a metodologia austríaca desde o início. O próprio fato de que “nação” e “estado” entendidos como entidades holísticas não eram primários em seu sistema diferenciava Menger de importantes correntes de pensamento econômico no mundo de língua alemã de seu tempo. De fato, foi com base na metodologia de Menger que Gustav Schmoller, líder da Escola Historicista Alemã, politizou instantaneamente todo o debate no início da famosa Methodenstreit (disputa sobre métodos) (Bostaph 1978 e 1994). Revendo o Investigações, Schmoller (1883: 241) acusou Menger do pecado capital de aderir a Manchestertum (laissez-faire), uma vez que seu método abstrato e “atomístico” poderia ser melhor chamado de método “individualista manchesterista”.[7]

Friedrich von Wieser, junto com Böhm-Bawerk, o líder da “segunda geração” da escola austríaca (após Menger), introduziu uma curiosa nota política ao discutir suas origens. Wieser lembrou como, quando eram jovens economistas, ele e Böhm-Bawerk ficaram impressionados com a contradição na economia clássica:

“Embora a principal acusação levantada na época contra os economistas clássicos na Alemanha se referisse ao seu individualismo [político], descobrimos que eles se tornaram infiéis ao seu credo individualista desde o início. Como verdadeiros individualistas, eles teriam que explicar a economia a partir do significado dos indivíduos envolvidos na atividade econômica que estavam unidos na economia. . .” (1923: 87)

Muitas décadas depois, F.A. Hayek, em certo sentido, concordou com Schmoller e Wieser. A ideia central de sua obra mais extensa sobre metodologia, A Contra-Revolução da Ciência, é precisamente as conexões teóricas e históricas entre a negação do individualismo metodológico e o crescimento do socialismo. Hayek atacou o “coletivismo metodológico” por

“sua tendência de tratar o todo como ‘sociedade’ ou ‘economia’, ‘capitalismo’. . . ou uma ‘indústria’ ou ‘classe’ ou ‘país’ em particular como objetos definitivamente dados sobre os quais podemos descobrir leis observando seu comportamento como um todo. . . . A visão ingênua que considera os complexos que a história estuda como totalidades dadas leva naturalmente à crença de que sua observação pode revelar ‘leis’ do desenvolvimento dessas totalidades.” (1955: 53, 73)

Além disso, de acordo com Hayek, a suposta descoberta de tais leis resultou na construção de filosofias da história sobre as quais grandes projetos socialistas foram erguidos – o marxismo, é claro, mas particularmente o saint-simonianismo, o sistema que ele disseca em seu livro. Os seguidores do primeiro socialista “utópico”, Henri de Saint-Simon, eram praticantes por excelência do cientificismo, a aplicação ilegítima ao estudo da sociedade dos métodos das ciências naturais. E é o cientificismo – a negação do individualismo metodológico – que “por meio de seus popularizadores fez mais para criar a atual tendência ao socialismo do que todos os conflitos entre interesses econômicos…” (1955: 100–01). Os oponentes do liberalismo, ao criticar Hayek por seu individualismo metodológico, também assumiram que ele estava intimamente ligado à sua filosofia política.[8]

Alguns críticos marxistas criticaram ainda mais a metodologia austríaca por atrofiar nossa compreensão da realidade social. De acordo com Ronald L. Meek, por meio da revolução marginalista na teoria econômica, a economia “burguesa” – incluindo o austrianismo – refugiou-se em um esquema centrado na psicologia de indivíduos atomísticos isolados. Dessa forma, (inconscientemente) desviou a atenção das questões cruciais da economia política que haviam sido o foco da economia clássica, incluindo o marxismo. Como resultado, questões da “vida real”, como a divisão do produto social entre classes concorrentes – “aqueles grandes problemas da realidade capitalista que preocupavam o homem da rua – foram sistematicamente ignoradas” (1972: 505).

No entanto, essa reclamação marxista é equivocada. A abordagem abstrata do austríaco pertence – necessariamente – à sua teoria. Alguns austríacos, pode-se admitir, negligenciaram a aplicação de sua teoria à compreensão de questões concretas da “vida real”. No entanto, foi demonstrado que essa falha não é intrínseca à economia austríaca – para citar apenas um exemplo – pelo notável economista austríaco, Murray N. Rothbard, que dedicou grande parte de sua carreira extremamente produtiva não apenas à “ciência econômica pura”, mas também a questões altamente importantes da economia política, tanto em um nível teórico quanto em contextos históricos específicos (ver, por exemplo, Rothbard 1963, 1970, 1995a, 1995b, 2002).[9]Image
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Aug 1, 2025
O grande mistério do Holocausto: reconsiderando as evidências 🧵

Por: Thomas Dalton

Apresentação do Tradutor

“A História é escrita pelos vencedores.” Trata-se de uma frase que se tornou ubíqua, onipresente, dita de forma corriqueira e irrefletida pela vasta maioria dos intelectuais — os quais, na sua maior parcela, apesar de proferirem essa frase (aliás com frequência em tom arrogante e condescendente), não se colocam a questionar a versão dos vitoriosos e dos poderes constituídos, especialmente se tais vencedores e poderes estabelecidos estiverem situados no espectro ideológico ao qual dão preferência.

A História oficial/institucionalizada, infelizmente, contém inúmeras inverdades (falsidades; “fatos” falsos, inverídicos) e incontáveis interpretações tendenciosas, enviesadas. A tarefa dos historiadores revisionistas, assim, encontra-se — conforme o significado do próprio adjetivo “revisionista” — na revisão da História dita oficial: na busca objetiva e imparcial dos fatos e na realização, igualmente objetiva e imparcial, de interpretações adequadas, apropriadas, desses mesmos fatos.

Na verdade, a ideia de efetuar a revisão de tudo a todo momento consiste na convocação a nutrirmos a humildade de deixar de lado a absurda ilusão (autoenganação) da perfeição e de reconhecer a condição falha e limitada da nossa natureza de seres humanos. Faz-se necessário termos em mente (1) a realidade de que o conhecimento humano possui limitações (i.e., não é onisciente; se fosse onisciente, não seria humano, mas sim divino) e, além disso, (2) a realidade de que esse conhecimento humano pode sofrer deturpação por vieses e interesses pessoais. Devemos sempre levar em conta as falhas e limitações humanas tanto na capacidade cognitiva quanto na imparcialidade — e até mesmo na integridade de caráter.

Por exemplo, no caso do meu trabalho de escritor/tradutor, vejo que sempre há algo a ser revisto, revisado: uma sentença a ser aprimorada; um erro (de digitação, de gramática) a ser corrigido; uma palavra — inclusive em língua portuguesa — a ser aprendida e assimilada.

Retornando ao assunto da História oficial/institucionalizada: o normal é vermos os vencedores e os poderes constituídos se apresentarem como paladinos e luminares da justiça, da honestidade, da decência, da virtude, da ética, da conduta perfeita e ilibada, da ciência, da sabedoria. E é comum recebermos dos vitoriosos e dos poderes estabelecidos a apresentação dos seus inimigos e opositores como sendo a absoluta encarnação da maldade, da ignorância, da crueldade, da falta de escrúpulos — apresentação essa que propicia justificativas a quaisquer crimes e excessos criminosos que os vencedores e os poderes constituídos praticaram e praticam contra os inimigos e opositores e, mais notadamente, contra a população civil dos territórios desses inimigos e opositores (assim como contra quaisquer indivíduos inocentes que estejam ou apenas aparentem estar relacionados com tais inimigos e opositores).

A ação de alimentar ceticismo e postura defensiva sempre se revela necessária diante de todas as manifestações intelectuais dos seres humanos; e essa ação se revela muitíssimo mais necessária perante as ideias e informações que provenham do poder político institucionalizado. A maioria das pessoas diz não acreditar nos políticos; fala que eles não prestam, que só mentem e roubam. Mas, apesar disso, a maioria das pessoas acredita em praticamente tudo que é proveniente da instituição do poder político: o estado. Acreditam nas autoridades estatais — dentre as quais se encontram os políticos —, na legislação estatal (vista como a concretização perfeita, absoluta, da ética e da justiça), na História oficial, nas estatísticas oficiais, nas narrativas oficiais, na “ciência” oficial. E, em tempos de crise, acreditam ainda mais nisso tudo.

São poucos os indivíduos que, diante das coisas consideradas oficiais, buscam pensar de maneira profunda, sem superficialidade; que procuram cavar mais a fundo; que não se contentam com raciocínios rasos e informações superficiais; que exercitam aquilo que o consultor brasileiro Stephen Kanitz chama de “vigilância epistêmica”.

Infelizmente, nos estabelecimentos oficiais de ensino (escolas e universidades) e nos veículos oficiais de mídia, ocorre aquilo que denomino de institucionalização da mentira e da estupidez. “Uma mentira proferida mil vezes se torna uma verdade.” De tanto se repetir uma mentira, ela passa a ser considerada algo verdadeiro: institucionaliza-se como verdade. De tanto se repetir um raciocínio falho, errôneo, incompleto, superficial, ele passa a ser visto como digno de aceitação e imitação: institucionaliza-se como inteligência.

Já foi dito que a primeira vítima da guerra é a verdade. Já foi dito que a guerra é a continuação da política por outros meios. E percebe-se com frequência a constatação de que a política é o terreno mais fértil para a propaganda e a manipulação.

A Segunda Guerra Mundial é considerada o maior conflito bélico da História humana. Nos dias atuais, ainda se sente, de maneira bastante nítida, a influência desse conflito no cenário político do planeta. Nada mais natural, portanto, que a literatura revisionista se debruce sobre o assunto nos seus vários detalhes. Em especial, (a) sobre as verdadeiras causas desse conflito; (b) sobre a alegação de atrocidades perpetradas pelos estados do Eixo (dentre as quais, a alegada atrocidade denominada de Holocausto judaico); e (c) sobre os fatos que realmente ocorreram durante a ocupação militar realizada pelos Aliados nos territórios dos estados do Eixo.

Na realidade, o estado alemão, por exemplo, agiu em defesa do povo germânico e de si próprio perante os estados da Polônia, da Grã-Bretanha, da França (guerra iniciada em 1939) e da URSS (guerra iniciada em 1941). O estado polonês, tendo a garantia do estado da Grã-Bretanha de que receberia o apoio britânico em caso de guerra contra o estado alemão, estava praticando enormes atrocidades contra a minoria étnica germânica residente no seu território. Assim que o estado alemão invadiu o território do estado polonês, os estados britânico e francês declararam guerra ao estado alemão. A invasão do estado alemão ao território da União Soviética foi um ataque preventivo; o estado stalinista estava se preparando, numa escala maciça, para invadir a Europa.

Os crimes perpetrados pelos Aliados contra a população civil alemã durante e após a Segunda Guerra Mundial — bombardeios aéreos genocidas; estupros em massa e escravidão sexual; expulsão (e consequente morte) de milhões de indivíduos de etnicidade germânica, principalmente mulheres e crianças, dos seus lares ancestrais na Europa Oriental; escravização em massa de milhões de alemães; fome generalizada — são gigantescos, colossais, inenarráveis em seu horror e tamanho.

Por óbvio, não se nega a possibilidade de que o estado alemão tenha praticado crimes e excessos criminosos antes da Segunda Guerra Mundial e durante esse conflito. O que recebe críticas é o direcionamento de hostilidades contra a população civil alemã. A propaganda dos Aliados diz que as Potências Aliadas efetuaram a “libertação” da Alemanha em relação ao Terceiro Reich; mas tal “libertação” significou, na verdade, a submissão do povo germânico a imensas crueldades.

Durante e após a Grande Guerra de 1914–1918, aconteceu a transição do estado de propriedade privada (monarquias; principados) para o estado de propriedade pública (repúblicas democráticas; ditaduras socialistas/populares). Essa transição fez com que a população civil passasse a ser considerada parte do aparato estatal inimigo, inclusive na condição de fonte de recursos humanos (soldados) e econômicos. A guerra do estado de propriedade pública — guerra essa que atingiu o seu ápice no Segundo Grande Conflito Mundial — é uma guerra total, de maldade ilimitada, de absoluta desconsideração da humanidade e dos direitos humanos da população civil do estado inimigo, o qual é visto como uma coletividade monolítica, indiferenciada.

O problema do coletivismo, da abordagem coletivista, é que ele “enxerga” algo inexistente: os coletivos. O que existe são indivíduos; há somente seres humanos individuais. O individualismo metodológico da Escola Austríaca de Economia está correto na sua perspectiva analítica. Indivíduos que agem em conjunto, como grupos, não compõem uma entidade coletiva que pensa e atua por si própria. Categorizações tais como “os homens”, “as mulheres”, “os negros”, “os brancos”, “os capitalistas”, “os poetas”, “os jogadores de futebol”, “os advogados”, “os judeus”, “os alemães”, “os árabes”, “os muçulmanos”, “os brasileiros”, “os argentinos”, “os corinthianos”, “os palmeirenses”, “os gremistas”, “os colorados” — e assim por diante — deixam de ver cada pessoa individual concreta; trata-se de meros estereótipos, de meros arquétipos, de coisas que, na verdade, existem meramente na imaginação.

Por exemplo, quando um estrangeiro pensa “nos brasileiros”, esse estrangeiro, com grande probabilidade, imagina especificamente os habitantes da cidade do Rio de Janeiro, com as suas praias, as suas escolas de samba e as suas favelas dominadas por traficantes. Não pensa no povo de ascendência europeia que vive na Região Sul (aliás, sequer sabe que um povo desses existe); no povo nordestino; no povo da Amazônia. Quando alguém pensa “nos capitalistas”, imagina provavelmente um homem em obesidade mórbida de smoking fumando charuto com os pés em cima duma mesa de escritório e maquinando maneiras de explorar o Proletariado (outra entidade coletiva imaginária).

Temos de analisar cada pessoa, cada indivíduo; o estereótipo/arquétipo, perante um ser humano específico, pode porventura estar certo na sua categorização, na sua descrição de comportamentos típicos; mas pode, por outro lado, estar bastante errado. A generalização muitas vezes acaba por se mostrar muito falha. Nisso reside o erro do coletivismo. A abordagem coletivista (e polilogista) do nacional-socialismo alemão, ao enquadrar como inimiga uma massa amorfa de milhões de “judeus”, é amostra perfeita desse modo extremamente rudimentar de raciocínio. Ludwig von Mises e Murray Newton Rothbard, referências máximas da Escola Austríaca de Economia, tinham ascendência judaica; isso, porém, não invalida os ensinamentos deles, as suas descobertas e façanhas intelectuais.Image
O texto a seguir aborda, do ponto de vista revisionista, as principais questões atinentes ao assunto do alegado Holocausto judaico (Shoah). Considero bastante importante o mapa abaixo, para que os leitores tenham noção da localização dos lugares aos quais o autor, Thomas Dalton, faz referência.

O alegado Holocausto judaico é associado a horrendas imagens de cadáveres nus e esqueléticos em covas coletivas. Mas tais imagens foram tiradas de campos de concentração (Konzentrationlager, em alemão; “KL”) situados na parte oeste do território alemão — notadamente, do KL de Bergen-Belsen. Mas essa associação a horrendas imagens deixa de levar em consideração o fato de tanto os historiadores tradicionais quanto os historiadores revisionistas dizerem que os judeus foram enviados/deportados para campos situados no leste. Esses cadáveres nus e esqueléticos em covas coletivas, além de provavelmente não serem de judeus, são o resultado do colapso da infraestrutura que abastecia os campos de concentração de itens básicos (alimentos, remédios) e do alastramento de doenças infecciosas, principalmente o tifo. Tal colapso da infraestrutura se deve aos constantes ataques aéreos dos Aliados a estruturas civis (ferrovias; instalações de água e esgoto e de eletricidade; etc.) da Alemanha.

Assevera-se que o alegado Holocausto judaico tenha ocorrido em “fábricas da morte”, com a utilização de câmaras de gás homicidas. Porém, do ponto de vista técnico-prático, essa afirmação não faz sentido. O texto a seguir centra a sua análise nesse enfoque técnico-prático, sobre a maneira como esse sistema industrial de assassinato e posterior eliminação de cadáveres teria funcionado. Com efeito, o mais estranho em relação ao alegado Holocausto judaico está na ausência de restos mortais. Ainda que os supostos cadáveres tivessem sido incinerados, a quantidade tanto de combustível utilizado (lenha e carvão betuminoso/hulha) quanto de cinzas resultantes teria sido de enormes proporções. Isso simplesmente não seria possível de ser acobertado, ocultado.

Na minha opinião, é bastante possível que tenha havido um destino diverso do assassinato em câmaras de gás homicidas. Caso, conforme a teoria revisionista, todos esses milhões de indivíduos judaicos — homens, mulheres, crianças; famílias inteiras, de fato — tenham sido deportados para regiões a leste da Polônia (regiões que faziam parte do território soviético), então é possível inferir que tenham sofrido, após a reconquista dessas regiões pelo Exército Vermelho, escravização em massa pelo regime stalinista, possivelmente tendo sido enviados para campos de trabalho forçado na Sibéria.

No Camboja, a partir de 1975, o regime do Khmer Rouge (Khmer Vermelho) de Pol Pot massacrou, por baixo, mais de 20% da população. Os restos mortais das vítimas foram encontrados em inúmeras, incontáveis covas coletivas. Os restos mortais estão aí para demonstrar o horripilante, pavoroso, indizível democídio.

No início do Capítulo 15 do seu opúsculo O Príncipe, escreve Nicolau Maquiavel: “No entanto, como a minha intenção é escrever algo útil para quem estiver interessado, mais apropriado me pareceu abordar a verdade efetiva das coisas, e não imaginá-las. Muitos já conceberam repúblicas e monarquias jamais vistas, e de cuja existência real nunca se soube.” A busca da ‘verdade efetiva das coisas’ é o que deve nortear a investigação de qualquer pessoa sobre qualquer assunto. Considero que o longo artigo a seguir, de Thomas Dalton, texto com o qual tive contato pela primeira vez no ano de 2016, apresenta-se, conforme esse critério, excelente.

— O Tradutor.Image
Publicado em 29/08/2014, no periódico “Inconvenient History”.

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O Holocausto constitui o maior mistério de assassinato do século XX. De acordo com o que nos é dito, seis milhões de judeus pereceram nas mãos dos nazistas — em câmaras de gás, em guetos e em campos de concentração. Foram mortos de fome, foram sufocados e fuzilados. Os seus corpos foram enterrados em covas coletivas; ou foram incinerados nos fornos de Auschwitz ou em fogueiras a céu aberto. E tudo simplesmente porque eram judeus. Foi a encarnação do mal, o maior crime já perpetrado.

Historiadores tradicionais alegam conhecer esse crime em grandes detalhes. Eles têm documentos, fotografias e provas robustas, evidências concretas. Possuem depoimentos incriminatórios de nazistas importantes. Algumas das câmaras de gás sobreviveram. E contam com inúmeras testemunhas oculares judaicas. De acordo com uma parcela desses historiadores, trata-se do “evento mais bem documentado da história”.[1]

E, todavia, quando fazemos perguntas detalhadas e específicas, os nossos historiadores se mostram aquém delas. Não sabem realmente quando, onde ou como os judeus morreram. Não possuem uma explicação técnica de como foi possível, por exemplo, gasear milhares de pessoas por dia numa única sala e, depois, descartar os corpos delas — de tal forma que não restasse vestígio algum. Não conseguem encontrar as covas coletivas que supostamente continham milhares de corpos. Não conseguem explicar fotografias aéreas do tempo da guerra que mostram um campo de Auschwitz perturbadoramente calmo. E recusam-se a sequer levar em consideração uma multiplicidade de evidências contraditórias. Na verdade, muitos aspectos da história tradicional simplesmente não fazem sentido. Quanto mais aprofundamos o olhar, mais intrigante o quadro se torna — e aí, portanto, o grande mistério.

Assim como em qualquer caso de assassinato, nós, na qualidade de investigadores, gostaríamos de examinar vários aspectos do crime; esses aspectos incluiriam o motivo, os meios pelos quais o crime foi cometido e os corpos das vítimas. Além disso, gostaríamos de considerar todas as evidências auxiliares e relacionadas que possam apoiar — ou refutar — a versão tradicional. Conforme veremos, todas essas áreas, do ponto de vista convencional, são problemáticas.
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