Argentina em 22, as 2 Champions recentes do Real, a libertadores do Fluminense e do Botafogo, ou a Libertadores e CdB do Fla 22. Nos últimos anos, quando tive convicção de um título, não errei. Até com anos de antecedência. Pois digo: Brasil será hexa.
1. FUTEBOL DE SELEÇÕES
Nos clubes, os jogadores treinam e jogam por muito tempo, mantêm base, executam um sistema; muitas vezes, preferem perder a autonomia, e simplesmente repetir o mecanismo. No futebol de clubes, muitos jogadores parecem melhores do que realmente são.
No futebol de seleções, não há engano. As competições são por copa, não se joga junto o ano inteiro, os mecanismos não são tão decorados. Não se joga primeiramente por dinheiro, mas por épica. Vale mais o talento individual, a personalidade, saber resistir sem cair no difícil.
O futebol de seleções é o último refúgio do talento, do ídolo, dos grandes personagens. Ninguém se apaixona por um sistema hermeticamente construído por um treinador, mas pelos grandes jogadores, pelo talento disruptivo que quebra todas as expectativas.
2. COPA DO MUNDO
A Copa do Mundo é o maior evento da história da humanidade. Nenhum jamais atrairá tanta atenção universal e mexerá tanto com o imaginário de toda a espécie. Aqui a necessidade de talentos supremos e uma personalidade resiliente se multiplicam infinitamente.
3. QUEM A COPA PREMIA?
A Copa tem premiado todos os grandes gênios (Pelé, Garrincha, Beckenbauer, Maradona, Zidane, Messi, Romário, Ronaldo etc) e as grandes gerações (Ronaldo & Rivaldo & Ronaldinho, Bebeto & Romário & Dunga, Mbappé & Griezmann & Pogba, Pirlo & Totti &Buffon etc
Quando não premia com título, crava na história como um símbolo mais poderoso do que grandes campeões: Puskas e a Hungria 54, Cruyff e a Holanda 74, Zico e o Brasil 82. A Copa do Mundo do Futebol de seleções é dos grandes talentos.
As grandes gerações de cada época costumam construir encontros socioafetivos, o que há de realmente mais importante num time de futebol. Quando os jogadores se encontram, se associam, sentem-se confiantes, se entendem melhor, confiam mais na vitória, criam mais resiliência.
Quando a partida vira um drama, quando o adversário é tão bom quanto você, esses apoios mútuos fazem a mínima e decisiva diferença, criam internamente uma certeza inabalável no título, uma confiança transcendente para resistir a tudo e todos.
O socioafetivo também cria associações primordiais dentro de campo que nenhum treinador pode criar, repetir ou sistematizar. O encontro entre Bebeto e Romário, um entendia o outro, o encontro deles com Dunga, o complemento ideal para dupla.
Essas associações que envolvem características, cultura, o imaginário, o que carregamos da sociedade em nós, determinam muito do resultado.
4. POR QUE O BRASIL?
A. Encontro socioafetivo entre o time e o povo
Mais do que uma decisão técnica e tática, o evento “convocação do Neymar” nos relembrou dos grandes gêneros novelísticos que formam a alma de “brasilidade” que bebeu o futebol brasileiro pentacampeão.
Como nos capítulos finais, o povo parado diante da TV, torcendo pelo herói errante que capengou, sofreu, foi humilhado e, em certo momento, virou até o bobo da corte para o resto do mundo, mas que não perdeu a graça e está pronto para o último ato de redenção.
O evento foi do balacobaco como nós somos. Brega com orgulho. Uma daquelas comédias pastelonas, com muita gritaria e confusão, dignas das tramas inesquecíveis de Silvio de Abreu.
Após o evento, a expectativa da Copa cresceu entre os brasileiros. Quem não gosta disso, quem torce o nariz para essa catarse dramática, no fundo talvez quisesse que o povo brasileiro fosse alemão, norueguês, australiano... qualquer coisa, menos brasileiro.
B. NEYMAR & ENDRICK
O menino Ney não existe mais. Não tem mais físico para pegar a bola, duelar, driblar em sequência. Com o desprezo recente, ele começou a aprender que tem um novo corpo, que precisa soltar a bola, , ritmar o jogo, fazer diferença com passes e ações decisivas.
Esse último gênio da antiga brasilidade se encontrou com outro gênio em franca ascensão: Endrick. Um prodígio que poderá chegar ao nível de Romário, ou até melhor. Endrick traz a potência, a força bruta, a velocidade e a fome de gols que o corpo de Neymar já não consegue entregar
O encontro de dois gênios em tempos distintos, onde a cadência de um alimenta a explosão do outro. Endrick vai ganhar espaço como força da natureza. Neymar pode ser como Falcão com paralisia facil no Mundial, pronto para ação final:
Para ajudar os dois, temos ainda ótimos jogadores como Vinicius Júnior, e jovens em ascensão como Rayan e Igor Thiago.
C. ENCONTROS SOCIOAFETIVOS
Além do encontro de gênios, novos encontros socioafetivos estão sendo descobertos e começam a dar cara de campeão a esse time.
Ancelotti afirmou que sua equipe sempre defende em 442, e que ataca sem esquema definido, dependendo das características dos seus jogadores. A solução é tão simples quanto perfeita: Se o extremo prefere atacar pela ponta, ataca pela ponta; se o extremo é um meia, vira meia.
Em geral, ele tem usado um meia como extremo (antes, Cunha; agora, Paquetá), e um atacante pela outra extremidade. Antes de geometria, a tática é cultura, sociedade, afetividade, vida, imaginário, mentalidade. No final do banquete, dessa grande festa, chega a geometria.
Vejamos a sintonia entre Danilo e Paquetá. Quando o Brasil joga com Casemiro, Bruno e Matheus Cunha, os dois volantes estão sempre atrás da linha da bola, e Cunha está sempre na frente da bola, falta mobilidade, intercâmbio entre eles. Já Danilo e Paquetá são pura dinâmica.
Eles jogam de trás para frente, quando um vem receber a bola atrás, o outro se projeta na frente para receber, criando fluidez e movimentos de ajustes finos que só a socioafetividade deles no campo e na hora podem encontrar. Socioafetividade que não se treina e não se ensina.
Em outro setor, vemos a nascente sociedade entre Rayan e Ibañez. O encaixe é natural: Ibañez se posiciona como um lateral defensivo, Rayan explora o corredor com passada longa, potência, força, velocidade, engano, como um ponta/ala efetivo.
Quando Rayan corta pra dentro com a canhota, Ibanez compensa e passa na linha de fundo. Um não atrapalha o outro, dá espaço, sabe entender um o movimento do outro.
O Brasil achou muitos encontros socioafetivos, mas ainda não tem transformado isso em time titular. Terá de adaptar o time durante a competição, que é sempre melhor do que começar com uma fórmula pronta do bolo. Esse é o time, com Neymar fazendo gols e ações decisivas no 2º tempo
D. ANCELOTTI
Para reger essa orquestra, Ancelotti mostra-se, de novo, muito espirituoso e em total sintonia com a essência do nosso futebol. Desde os chistes e as ironias para tratar do assunto Neymar, a sua última e espetacular coletiva quando falou sobre 424 e afins.
Depois de 2 anos um tanto quanto sem charme, Ancelotti está de novo subvertendo em seus discursos a obsessão moderna pelo tatiquismo geométrico, a tendência a um futebol pós-humano, onde competem estruturas e não personagens.
Futebol se constrói a partir das características dos jogadores, que soa angelicamente para a história da Seleção. Valorização das características dos jogadores, do encontro socioafetivo, da intuição.
A Copa do Mundo é destino, mas o destino não está escrito. Em qual destino você vai escolher navegar? O Brasil casou com a fortuna após a convocação de Neymar, e está navegando num destino muito promissor.
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1) Quando, em 2022, Lillo falou que a mundialização da sua metodologia melhorou os piores jogadores e piorou os melhores jogadores, estava completamente correto. Poucos jogadores hoje são distintos, ou seja, fazem coisas muito diferentes dos demais.
2) A diferença entre o jogador de 100 milhões para o jogador de 10 milhões e o jogador de 1 milhão está se tornando cada vez menor, é consideravelmente inferior do que seria 30 anos atrás.
Os jogadores não são iguais, mas está todo mundo jogando parecido, cada vez mais igual, com poucas diferenças de tipo de técnica e de criatividade. Logo, a diferença é menor do que a sugerido pelo preço (10 vezes mais, 100 vezes mais).
Falamos da seleção brasileira, mas vamos para 1ª rodada do Brasileiro. Quem assistiu São Paulo x Sport, assustou-se com a falta de refino técnico em campo. Normalizamos os erros constantes de passes fáceis, de precisão, os domínios com a bola sempre escapando, os chutes bisonhos.
Havia mais qualidade técnica na série B de 2003 do que em muitos times da série A de 2025. Não só pelos grandes Palmeiras e Botafogo, mas se você pegar o Náutico de Joge Henrique, Kuki, Adriano (por vezes, titular do SP em 2002), Juliano (foi ao Flamengo em 04), o Sport e etc.
Mas a decadência técnica não é fenômeno local, mas mundial. O que mudou? Desconfio que não seja apenas a diminuição de treinos para os fundamentos, mas mudanças gerais na base que levam o jogador a executar o mesmo jogo com os mesmos fundamentos,
Matías Manna foi lapidar sobre o papel do analista: "El rol del 'analista' no existe. Es un entrenador, un asistente".
Pela visão de Manna, o papel de todo o corpo técnico é observar as relações, os comportamentos, os encontros dos jogadores para um jogo mais orgânico e natural, não ficar julgando com fotos e vídeos a partir de regras do que seria o 'futebol correto'.
Ficar focado apenas nos vídeos, nos cálculos de superioridade numérica e posicional, nos dogmas de como se deve jogar fragmenta a observação, afasta-nos do campo e da construção da equipe e perverte a sensibilidade ao negar a 'humanidade' do jogador.
MacAllister fala sobre La Nuestra; De Paul, dos potreros; Messi pede fidelidade à identidade após derrota contra Arábia. Eles defendem e se orgulham da história social do futebol argentino.
Já os jogadores brasileiros, na média, sentem alergia aos princípios da nossa história.
Diniz, que não teve nem 10 dias de treino na seleção, manteve o 424/325 de Tite quase intocável, e apenas inseriu alguns elementos do seu jogo, já gerou reações exacerbadas dos atletas.
Após a sua saída, Danilo comemorou que "cada um jogaria no seu lugar". Douglas Luiz deixou claro sua preferência por um sistema posicional. E Bruno Guimarães comemorou que o time jogaria com passes mais longos, esticados, e inversões.
A reconstrução dos fundamentos da seleção a partir da história social do futebol argentino pelos próprios, uma thread:
Scaloni:
“Nuestra cultura futbolística es la picardía, sacarse un jugador de encima, dos, tres, tirar un caño, buscar una pared. Si los manejamos con un joystick, es un error. Los prejuicios de decir: ‘ha cambiado el fútbol, el potrero no está más..."
Scaloni:
"Si yo estoy continuamente diciéndole a un niño: ‘Pasá la pelota, a dos toques’, le estoy sacando la inventiva, le estoy sacando lo mejor que tienen. Antes en Argentina los que más salían eran los enganches.
O time de Abel se resume a levar a bola para a extremidade, explorar alguma vantagem para ter tempo e espaço para cruzar a bola na área por baixo ou por cima, e depois ganhar a 2ª bola. Foram Estêvão e Endrick, com suas transgressões, que o salvaram da monotonia nos últimos anos.
O antológico gol de Endrick contra o Botafogo não teria ocorrido se ele tivesse passado a bola, chutado ou cruzado após o primeiro drible, e o Palmeiras não teria sido campeão brasileiro. Na declaração está implícita a ideia de que driblar não é uma "coisa", não tem importância.
Essa declaração também traz mais duas facetas. A primeira é a sua perversidade. Com essa instrução, o jovem perde confiança, astúcia, criatividade. Para de ler o contexto e de elaborar soluções criativas, e se concentra apenas em seguir a regra: um drible seguido de chute/passe.