Thiago Krause Profile picture
Professor de História do Brasil Colonial (@historiaunirio), interessado na história global dos séculos XV-XIX, desigualdade e política. Social-democrata.
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16 Sep
@jcaetanoleite @historianess @ktgerbs @romulopredes Certamente dá pra falar em abolicionismos.
1) O Haiti afeta de duas formas. Por um lado, bota terror no coração dos senhores. Por outro, estimula revoltas. De ambas as formas, tensiona a escravidão.
redalyc.org/pdf/1670/16701…
@jcaetanoleite @historianess @ktgerbs @romulopredes 2) O abolicionismo nunca veio de cima, mas sim foi impulsionado por movimentos populares e interclassistas com intensa participação negra, que forçou os grupos dominantes a fazer algo. Como citei num Tweet, “Power concedes nothing without a demand”, disse Douglass.
@jcaetanoleite @historianess @ktgerbs @romulopredes A abolição no México foi feita por um presidente afro-indígena (depois fuzilado) e em todas as repúblicas hispano-americanas dependeu do apoio negro aos liberais; na Grã-Bretanha, a “Guerra Batista” dos escravizados em 1831-2 da Jamaica foi essencial.
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15 Sep
O grande historiador inglês Lawrence Stone uma vez escreveu que processos importantes são multicausais, e certamente foi o caso da abolição. É politicamente interessante para alguns entender a abolição como resultado do cristianismo e do Iluminismo, mas é mais complexo que isso👇
O texto acima é um resumo disso no meu próximo livro.
1) O cristianismo era a gramática através da qual as pessoas expressavam sua visão de mundo, então era usado para tudo, tanto pelos radicais defendendo a transformação social quanto pelos conservadores que queriam preservá-la.
2) Então o cristianismo dissidente pôde ser usado para criticar a escravidão, pelo menos desde o século XVII. A tendência dominante foi, porém, sua legitimação, aqui como no mundo anglo-americano. Vide os trabalhos de @historianess, @ktgerbs e Zeron.
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15 Sep
Não, o crime do passado é ter sido criminoso mesmo, @JoelPinheiro85 - pelos nossos padrões, é verdade, mas frequentemente pelos deles também.
www1.folha.uol.com.br/colunas/joel-p…
Não tenho opinião sobre a mudança de nome da ex-torre David Hume, mas também não entendo o pânico moral. Ninguém está propondo queimar os seus livros ou deixar de estudá-lo.
Mas só escrevi esse minifio por causa da ignorância (muito comum) do último parágrafo: @JoelPinheiro85, o Haiti aboliu a escravidão e condenou o racismo primeiro, graças à ação dos escravizados (e não do Hume ou do Smith), antes do Reino Unido sequer ter abolido o tráfico.
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26 Jul
Eu leio e cito o trabalho do @CEClynch, e agradeço o tempo gasto em comentar nosso artigo. Pena, porém, que ele parece não tê-lo lido. Não vale a pena escrever uma tréplica, mas vou fazer apontamentos sobre o Império, deixando as considerações metodológicas para o @phpacha.
Sob o disfarce de um “comentário”, Lynch nos critica por assumirmos uma visão plebiscitária: Império x República. O curioso, porém, é que não fazemos um único elogio à República: chegamos mesmo a mencionar seus fracassos no texto como uma explicação para o apelo da monarquia.
Já que o comentário não é ao nosso texto, vamos aos equívocos de Lynch. Ele começa com uma “incrível salada” para poupar o Império: recua para a Colônia e mistura bandeirantes (cuja mitologia só foi cristalizada no séc. XX) e senhores de engenho (constituintes de outra mitologia)
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19 Jul
Não deveria responder em respeito à regra dos dois desvios (@lmonasterio), mas...
1) Não dizemos que a monarquia foi a culpada pela escravidão, mas que foi um regime que viveu em simbiose com ela
2) Não passamos pano para os problemas atuais, explicitamente reconhecidos no texto
3a) 1822-1850 foi o auge do tráfico transatlântico para o Brasil: quase 1.440.000 africanos escravizados foram embarcados para cá, mais que em qualquer outro período equivalente.
Fonte: slavevoyages.org.
3b) A 1a tentativa de acabar com o tráfico atlântico foi em larga medida resultado da pressão britânica, que culminou no tratado de 1827. Entretanto, não foram tomadas medidas efetivas, de modo que após um período de declínio o comércio se recuperou para abastecer a cafeicultura.
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7 Jul
O @cenevivaricardo me fez ficar pensando na bibliografia do curso sobre História da Desigualdade (séculos XIV-XXI), então vamos procrastinar um pouco em vez de escrever.
Eu começaria com grandes interpretações: uma introdução com @WalterScheidel (introdução e cap. 10), @PikettyLeMonde (introdução), talvez @BrankoMilan (cap. 3) e @DrDaronAcemoglu & Robinson (caps. 3-4).
Depois, Europa Moderna com o grande Braudel, pareado com o Piketty (cap. 2). Eu gostaria de passar o @guido_alfani, mas acho que ele não tem nada em português ou espanhol. Ele e o Jaime Reis ficariam como leituras complementares.
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9 Jun
People all over the world are justly horrified by police killings in the US which desproportionately target blacks. The situation is, however, much worse in Brazil: here, police killed 5,800 people last year, about 3/4 of them black. Why doesn’t it garner as much media attention?
Will answer this later, but first the numbers: the US police killing rate is 3 per million; here in Brazil it’s 27.6. In Rio de Janeiro, the rate is 100 per million! Even accounting for much higher homicide rates here, it is an astonishing difference.
In both countries, police institutions were created in the nineteenth-century and molded by the need to control the enslaved and free people of color. There were many differences, of course, but extreme and persistent inequality is essential to understand these institutions.
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23 Apr
Dia de São Jorge, fogos me acordam às 5 da manhã, então decidi dar uma olhada no .ppt do PAC dos milicos.
1) Crianças escandinavas na capa. Faz sentido: negros e indígenas não importam pra esse governo mesmo. Ok, pontos pela honestidade!
2) Definição: integração e aprimoramento de “ações estratégicas”. Ok, dizem que os militares são bons em “estratégia - em grego strateegia, em latim strategi, os senhores estão anotando?” (Deu pra entender: mesma energia).
3) Se o ministro tivesse apresentado isso pra Tábata ela diria: “não é possível que o senhor apresente um Power Point com quatro desejos. Cadê os projetos? Cadê as metas? Quem são os responsáveis? Isso aqui não é um planejamento estratégico. Isso aqui é uma lista de desejos“.
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20 Apr
Por causa da frase do Bolsonaro (“Eu sou, realmente, a Constituição”), ele foi chamado de absolutista e Luís XIV entrou nos Trending Topics Brasil, com todo mundo fazendo referência à frase que ele supostamente teria dito: “O Estado sou eu”. Mas o Rei-Sol não disse isso!
A primeira vez que a frase foi referida foi em 1818, 163 anos supostamente ter sido dita e 103 anos após a morte do rei. No contexto pós-revolução, era uma forma de afirmar a diferença da monarquia constitucional ao suposto “absolutismo” que lhe precedeu.
(Bély, 2005, p. 77)
Segundo um aristocrata que testemunhou os últimos momentos do rei, ele disse exatamente o contrário em seu leito de morte: “Eu me vou, mas o Estado continua”. Mas essa frase era menos útil aos historiadores liberais do XIX, então acabou esquecida.
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16 Mar
Agora Guedes decidiu levar a epidemia a sério. A desculpa pra não tê-lo feito antes? Estava ocupado com as reformas (aquelas que sempre ficam pra semana que vem). Continua completamente perdido.
www1.folha.uol.com.br/mercado/2020/0…
PS: a desculpa que só percebeu a gravidade graças a um modelo do Banco Central (que sequer sabe precisar) é ridícula demais.
Eu voltei pra entrevista porque ela é tão absurda que merece mais destaque.
1) Defende o “foda-se” do Heleno. Ótimo pra pacificar a relação com o Legislativo, hein?
2) Bota a culpa do pibinho na Argentina - ué, quer dizer que a gente precisa da Argentina pra crescer, Guedes?
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15 Dec 19
Na matéria do @guimagalhaesf na @ilustrissima , eu e os demais entrevistados focamos na inserção do Novais na historiografia brasileira, mas como o Nicolas percebeu, ela também se inseria num debate sobre o papel da colonização e da escravidão na transição para o capitalismo.
E essa foi uma das grandes inovações da obra. A interpretação novaisiana é moldada pelo grande livro de 1944 do Éric Williams, futuro primeiro-ministro de Trinidad e Tobago. Em seu estudo do auge e declínio da escravidão no Caribe inglês, Williams afirmou que o tráfico atlântico+
Possibilitava a acumulação de capital por parte dos negociantes britânicos e abria um imenso mercado consumidor para os manufaturados metropolitanos, sendo descartada quando se tornou irrelevante para a Revolução Industrial já em curso.
scielo.br/pdf/ea/v26n75/…
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27 Nov 19
Esse tipo de argumentação foi reproduzido por muito tempo no ensino básico, ainda que com eufemismos: “não se adaptavam ao trabalho” ou então que resistiam a ele. Ao mesmo tempo que chamam os indígenas de preguiçosos, ofendiam os negros de passivos.
Outra concepção errada, mas comum, disseminada especialmente pelo clássico de Fernando Novais, é que a transição para a escravidão africana foi em prol da “acumulação primitiva de capital” na Europa, já que os comerciantes não se lucrariam com a escravidão indígena.
Outras visões conservadoras (como do Varnhagen) enfatizam a luta dos jesuítas (ignorando que eles também escravizaram indígenas, como destacou Zeron) e a legislação régia.
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29 Oct 19
Eu tou com preguiça de entrar no debate sobre percepções subjetivas, dados objetivos e revoluções, que começou sobre o Chile e acabou tocando nas Revoluções Francesa e, principalmente, Industrial. O @phpacha debate aqui com o @goescarlos e desenvolve excelentes argumentos.
Eu já falei com o @goescarlos no privado, e acho que algumas discordâncias são de três tipos: políticas, disciplinares e epistemológicas. A política é simples: os liberais querem defender o sucesso do nosso chileno, os esquerdistas queremos ressaltar suas falhas.
O sucesso chileno pode ser medida pelo PIB per capita, expectativa de vida, dados no PISA, a medida compósita que é o IDH, etc. Esses dados refletem fenômenos reais e não são falsificados, como chegou a se deixar implícito.
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30 Sep 19
Pessoal, sumiu o início da thread quando tuitei.
E não é que apareceu alguém para defender o Mourão? @pedrodoria assumiu essa inglória tarefa. Como ele é autor de dois livros sobre colônia, você poderia achar que ele sabe do que está falando. Mas não...
Já vimos porque o Mourão está errado, mas destaco como o @pedrodoria naturaliza o caráter violento da nossa formação. Como entender a pergunta retórica se não como um dar de ombros, um “é assim mesmo, o Brasil só podia ser construído via escravidão e etnocídio, tolinho”.
O @pedrodoria havia enfático na defesa do general, mas agora já relativiza. Por que dizer que o Mourão estava corretíssimo então? Admiro esse tuíte, porém: ele consegue estar errado em praticamente tudo! 👏👏👏
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30 Sep 19
Mais grave é a visão sobre os bandeirantes, reiterada depois. Como mostra claramente o maior trabalho sobre o tema, a maioria dos bandeirantes só ia uma ou duas vezes ao sertão e não falava tupi. Poucos eram sertanistas profissionais, ainda que esses fossem mais famosos.
Além disso, como mostrou Nazzari, as famílias paulistas privilegiavam as filhas na hora da herança pra atrair maridos portugueses. Só houve uniões sistemáticas com índias no século XVI. Fora isso, mamelucos eram os filhos ilegítimos oriundos de estupros, não os escravocratas.
Sim, escravocratas, porque muitos paulistas foram senhores de dezenas de indígenas escravizados, alguns de centenas, e a sociedade paulista era profundamente desigual, como mostram essas tabelas de John Monteiro.
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30 Sep 19
O Mourão tá de sacanagem comigo, não pode ser. Estragou meu sábado à noite e agora meu domingo?! Que salada de palavras, parece que pegou um monte de clichês, jogou pro alto e daí surgiu esse Tweet. Vai ser até difícil transformar isso em outro teachable moment, mas tentaremos.
Quem são os personagens esquecidos pelo vice-presidente? Os indígenas e africanos escravizados, que construíram a fortuna dos donatários, bandeirantes e senhores de engenho. Até o Freyre (que o Mourão diz ter lido) sabia disso.
No que consistia o “empreendedorismo” dos bandeirantes (e seus homólogos no norte)? Na escravização em larga escala de indígenas, inclusive os já cristianizados das missões jesuíticas. A exploração do território e a busca por metais preciosos não passavam de subproduto.
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29 Sep 19
Eu tou acostumado a ler bad takes históricos por parte do bolsonarismo, mas esse é um dos mais inovadores que eu já vi! Depois do choque inicial, vamos transformar essa imbecilidade em teachable moment.
“Mais avançada tecnologia da época” - no século XIX, a historiografia nacionalista liberal portuguesa inventou a Escola de Sagres, uma academia científica que teria produzido as inovações que explicariam o pioneirismo português na expansão. O problema é que ela nunca existiu!
Os historiadores oitocentistas só queriam inserir Portugal no rol das nações modernas, enfatizando o único argumento que os lusos tinham pra reivindicarem um lugar de destaque a história mundial: a expansão. Isso foi elevado ao paroxismo pelo salazarismo e copiado aqui.
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8 Jul 19
É muito bizarro como o vereador federal lista um monte de mentiras. É tipo os "fatos alternativos" da conselheira do Trump Kellyane Conway: os caras vivem numa realidade paralela. Vamos a alguns deles:
1 - Tinha prometido 15 ministérios, ficou com 22, e na prática isso quase não tem relevância: não dá bilhão.
2 - Cargos Comissionados: na prática, não significa nada.
veja.abril.com.br/economia/gover…
3 - A MP da taxa sindical perdeu a validade.
4 - Ainda não deu pra ver o efeito da retirada da exigência dos vistos.
g1.globo.com/politica/notic…
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21 Jun 19
Estava pensando sobre o que a #VazaJato revelou, seus efeitos e o prognóstico.
1) Ficou comprovado que a LJ foi construída na colaboração entre Moro e a força-tarefa, de modo que o juiz não era imparcial, e que considerações políticas afetavam a estratégia de forma ilegítima.
2) Descobriram muita corrupção, mas os métodos parecem ter ultrapassado a legalidade, ancorados na ideia que os fins justificam os meios. Se o objetivo é, porém, estabelecer o primado da lei, essa desculpa não cola, acabando por causar um grande prejuízo ao combate à corrupção.
3) As reportagens do @TheInterceptBr transformaram o Moro numa vidraça permanente, submetendo-o a um desgate sem previsão de terminar. Ele não fez nada em cinco meses e não fará nada até o final de sua permanência no Ministério da Justiça e Segurança Pública.
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16 May 19
Bolsonaro é um péssimo presidente e um ser humano ainda pior, mas parece que sua capacidade de análise política foi subestimada. O tsunami previsto na semana passada realmente chegou.
noticias.uol.com.br/politica/ultim…
Em ordem de importância e não cronológica: as manifestações de ontem foram imensas, socialmente amplas e politicamente difusas, concentradas na defesa da educação e na oposição ao Bolsonaro.
educacao.uol.com.br/noticias/2019/…
A quebra dos sigilos bancários do Flávio, Queiroz e companhia quase ilimitada (faltou a primeira-dama) vai confirmar que os rolos eram, como sempre soubemos, crimes. Como o presidente vai se dissociar do filho corrupto e dos amigos e parentes envolvidos?
epoca.globo.com/2019/05/16/963…
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10 Apr 19
Estou apoplético com essa entrevista do novo Ministro da Ignorância. O cara não é só um despreparado que repete platitudes como é tem dificuldade de formar raciocínios coerentes. #VoltaVélez! Ai, que saudade do Mendoncinha!
politica.estadao.com.br/noticias/geral…
1) Ele acha que é qualificado pra ser Ministro da Educação porque é professor (há 5 anos só!). Grandes merdas, meu querido, por essa métrica a quase totalidade dos professores é mais qualificado que você. Como resto da entrevista evidência, você não sabe nada de educação.
2) O cara é tão inseguro que ele fez uma PLANILHA pra “mostrar” que é qualificado. É o exemplo perfeito de economista cabeça de planilha. Parabéns pra @renataagostini que foi muito profissional: eu teria soltado uma gargalhada nessa hora.
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