Cláudio Couto 🇧🇷 Profile picture
Cientista Político, prof. FGV EAESP. Liberal de esquerda, agnóstico, corinthiano. Posições pessoais. 🇧🇷🌐🇺🇳#ForadaPolíticaNãoháSalvação
Bruno Mais Profile picture Carlos Ramos Profile picture 2 added to My Authors
26 Jan
A noção bolsonaresca de liberdade é a da falta completa de autocontenção, de limites que considerem as consequências dos atos, em especial para terceiros. Daí a volúpia por tirar radares das estradas, derrubar regras ambientais ou sabotar as medidas de isolamento social.
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Contudo, essa ideia, embora forte no bolsonarismo, não é originária dele e tem raízes antigas no pensamento direitista brasileiro. O velho clamor contra a "indústria de multas" se baseia nessa mesma noção obtusa, egoísta e inconsequente de liberdade. Não é a liberdade liberal.
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Trata-se, na verdade, da liberdade do estado de natureza hobbesiano, da guerra de todos contra todos, da lei do (ocasionalmente) mais forte. É a liberdade do "direito de todos a tudo", que redunda no direito de ninguém a nada, na barbárie. Isso guia as ações desse governo.
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13 Jan
O estrago marketeiro que Dória produziu sobre a vacina do Butantã lembra muito a escorregada dele, ainda prefeito, no caso da Farinata – a ração humana.
Explico neste fio.
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Empolgado com as ações de marketing em sequência, o então prefeito não se deu conta de que propor alimentar pobres com ração pegaria mal. Não deu bola para admoestações de seus auxiliares e foi em frente, achando que iria abafar com mais uma medida de impacto. Saiu chamuscado.
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Agora, percebeu corretamente a importância da vacinação para superar a pandemia, mas se enrolou nas próprias pernas, exagerando na tentativa de faturar em cima. Envolveu cientistas do Butantã em sua campanha de autopromoção, forçando a barra na divulgação de prazos e dados.
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19 Jun 20
A discussão sobre a banalidade do mal no governo BolsoNero, que teve lugar nos últimos dias, parece ter tido um problema de foco.
A banalidade do mal não concerne só a ser membro de um governo que perpetra barbaridades, mas de ser cúmplice - especificamente - das barbaridades.
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Desse modo, os servidores públicos de um modo geral, que seguem fazendo seu trabalho diligentemente, não podem ser considerados parte dos que banalizam o mal. Mesmo porque, o Estado precisa continuar funcionando para nos prover serviços básicos, independentemente do governante.
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A coisa se complexifica na medida em que sobe na hierarquia governamental e sai da dimensão puramente burocrática para adentrar à política - mas não só.
Por dimensão burocrática entenda-se não apenas ser um servidor comum, mas dar seguimento a atividades corriqueiras e normais.
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17 Jun 20
Ao apelar novamente para “o povo”, como se esse fosse um ente unitário e, assim, unitariamente houvesse lhe apoiado na eleição – e ainda continuasse apoiando –, BolsoNero comete diversas falácias populistas e, portanto, autoritárias.
Vamos a elas.
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1) Não há povo unitário. Em democracias, necessariamente, o povo é composto de uma imensa pluralidade de indivíduos, grupos sociais, visões de mundo, valores, ideologias, preferências, interesses etc..
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2) A suposta vontade do povo não se expressa de forma definitiva na eleição. Essa vontade – que não é unitária, tendo em vista a já mencionada pluralidade – também não é permanente; muda o tempo todo. O que se decidiu num momento não vigora necessariamente depois.
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13 Jun 20
A péssima entrevista do péssimo General Ramos chamou muito a atenção pela ameaça semivelada de golpe. Mas há outros pontos interessantes.
Vamos a eles.
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Normalizou o presidencialismo de coalizão, cuja detratação foi fundamental para eleger BolsoNero. Ele tem razão no que diz sobre a normalidade de dividir o poder com quem tem voto no Congresso e entrega. Porém, dizer que era anormal foi crucial para hoje ele estar nesse cargo.
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Claro que disse que há diferença, afinal com eles o Centrão leva, mas não rouba. Colocaram “gente nossa” para controlar o cofre. Ou seja, a solução não vem da negação da política, mas dos “homens de bem” nos lugares certos. E os homens de bem são eles. ¡La garantia soy yo!
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12 Jun 20
Há quem interprete a nova barbaridade proclamada por Bolsonaro como cortina de fumaça. Nomeou genro de Silvio Santos, criando novo Ministerio, agradando simultaneamente PSD e mídia chapa-branca. Daí, insuflar bolsominions a invadir hospitais seria diversionismo.
Será?
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A teoria da cortina de fumaça vem desde o início do governo, mas não me convence. Primeiro, porque proclamar absurdos sempre foi o modus operandi bolsonaresco, desde que entrou na política. Não havia o que cobrir com cortinas de fumaça. O ultraje é o que o Bolsonarismo entrega.
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Foi assim que se construiu o “mito”. Para a patuscada, sedenta por um discurso ultrajante, isso é um maná. Mobilizar incessantemente a turba é a finalidade principal desse governo-movimento. As políticas públicas propriamente ditas, importam pouco.
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7 Jun 20
Haverá momento, em futuro não distante, em que a participação e apoio ao desgoverno BolsoNero serão uma nódoa indelével. Os cúmplices desse projeto criminoso, em cargos ou na sociedade civil, serão vistos como párias. Alguns farão o mea-culpa e talvez tenham alguma redenção.
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Outros, covardes, tentarão se esconder, ou negar o que fizeram e o que coonestaram. A fila dos ignominiosos será puxada pelos militares brasileiros, que permanecem associados a esse projeto nefasto, maculando a farda. Mas não estarão sozinhos em breve, como já não estão agora.
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Terão a companhia da bolsoburguesia canalha, que apoia qualquer coisa, desde que ache que será bom para seus negócios. Ou, pior ainda, a bolsoburguesia facinora, que apoia até mesmo sabendo que atrapalha os negócios. Mas ela também não estará sozinha, como já não está agora.
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23 Apr 20
Não custa lembrar: o “Centrão” não é de centro.
Trata-se de um nome-fantasia, um eufemismo para denominar o que pode ser mais propriamente chamado de direita fisiológica adesista.
Embora seja formado por partidos e políticos de direita, essa não é sua única característica.
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São fisiológicos porque seu principal intuito é obter ganhos relacionados a verbas e cargos públicos em contrapartida a apoio legislativo.
São adesistas porque seu fisiolgismo os leva a aderir a quaisquer governos, mesmo de campos ideológicos opostos, pragmaticamente.
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Portanto, relativizam e moderam suas posições ideológicas em prol dos ganhos fisiológicos, mediante adesão.
Por isso se aliaram a governos tão distintos ideologicamente como Sarney, Collor, Itamar, FHC, Lula, Dilma, Temer e, a se confirmarem os atuais acertos, Bolsonaro.
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7 Apr 20
Uma constatação óbvia, tão óbvia que, na verdade, é a premissa.
Se Bolsonaro é incapaz de demitir Mandetta e não o faz por veto dos militares aboletados em “seu” governo, é ainda mais incapaz de demitir esses militares.
Logo, já é deles o governo, não de Bolsonaro. +
Há um paradoxo. A tutela, ou sequestro, pode ser boa para o governo em si, mas é péssima para a democracia, como apontou o @FAlmeidaUNICAMP.
Boa para o governo porque Bolsonaro é disfuncional.
Péssima para a democracia porque o eleito foi Bolsonaro, não sua entourage militar. +
Porém, ainda é tutela limitada. Bolsonaro segue dando seu show de horrores diário; segue abastecendo a discórdia entre os Poderes e níveis de governo. Não está claro o tamanho dessa política de redução de danos baseada numa “usurpação dos responsáveis” diante da molecagem. +
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2 Apr 20
Chovem críticas ao Dória por ter sinalizado a Lula. Pode ser que ele se queime com boa parte seu eleitorado, mas fez o certo.
O PT e Lula merecem muitas críticas e têm sua cota de responsabilidade por estarmos nesta situação. Afinal, o antipetismo não é só obra dos adversários. +
Em boa medida o antipetismo é também resultado dos erros do PT – inclusive o de reconhecer os próprios erros, corrigi-los e mudar para melhor.
Porém, nem o PT, nem Lula estão fora do campo democrático. Bolsonaro é o fascismo em sua versão renovada, subletrada e abrasileirada. +
Portanto, trata-se de escolha fácil. Assim como era fácil a escolha no segundo turno de 2018. Contra um candidato neofascista, qualquer outro mereceria o voto. Qualquer outro. Contra o governo de um neofascista, todos os democratas, que se opõem ao fascismo, devem andar juntos. +
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20 Mar 20
Hoje chegou via WhatsApp um vídeo que ajuda a entender a emergência do bolsonarismo. Um cidadão mostra a carteira de vacinação de seu cão, apontando que entre as várias coisas que uma vacina evita, aparece “Coronavírus”. Daí ele conclui: “esse vírus já está aí há muito tempo”. +
“Portanto, se já existe até em vacina de cachorro, não é novidade e já havia prevenção contra ele. Logo, tudo é uma conspiração econômica chinesa”, conclui o gajo, numa lógica de fazer inveja a Olavo de Carvalho. É raciocínio similar ao que conclui ser o nazismo de esquerda. +
Afinal, segundo tal razão (sic), se o nome está lá, a coisa está também – desde que, claro, eu queira que assim seja. Pode-se dizer que se trata de uma ontologia subjetiva: o mundo existe tal qual eu desejo descrevê-lo, ainda mais se alguma coincidência, amplificada, ajuda. +
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11 Mar 20
Vão me desculpar, mas a ideia de lugar de fala se tornou lugar de cala. Dizer que brancos não podem usar a palavra “linchamento” é demasiado. A sua origem remonta ao “justiçamento” (sic) atroz de inimigos promovidos por um militar americano, Charles ou William Lynch, há dúvidas.+
O primeiro a usaria contra britânicos contrários à independência americana.; o segundo para “manter a ordem”. A prática, que ocorre há séculos em vários lugares do planeta, difundiu-se nos EUA contra indígenas e, principalmente, negros – por parte da Ku Klux Klan. +
Mas o termo se autonomizou. Como, aliás, sempre ocorre com a linguagem. Negar a membros de uma sociedade o uso da língua por sua cor é estapafúrdio. Segrega. Aliás, o problema de certa militância identitária é que ela, por vias transversas e paradoxalmente, é segregacionista. +
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8 Mar 20
O vídeo grotesco do cavaleiro medieval, que convoca para manifestações pró-Bolsonaro, anti-Congresso e anti-STF, foi promovido por entidade chamada Lux Brasil. Seu patrocinador é Emilio Dalçóquio, ativo na greve dos caminhoneiros, instrumentalizada por Bolsonaro. +
Dalçóquio também causou numa reunião de sindicato docente, exaltando o sanguinário e corrupto ditador chileno, Augusto Pinochet, benquisto também por seu amigo, Bolsonaro. +
jb.com.br/pais/2018/10/9…
Um colaborador da Lux Brasil é Wander Pugliesi, professor de história que é revisionista do nazismo e tem uma suástica adornando a piscina de sua casa. Em artigo de hoje ele denuncia um “parlamentarismo branco” como justificativa para o ato do dia 15. +
luxbrasil.org.br/2020/03/07/par…
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23 Jan 20
Um presidente conspira contra seu ministro mais popular e ameaça retirar-lhe poder, mesmo reconhecendo que o subordinado não gostará disso. Na verdade, conspira justamente porque o ministro é popular e, assim, visto como ameaça. +
www1.folha.uol.com.br/poder/2020/01/…
Mesmo que seja um blefe, a jogada produz ruido e gera desgaste. Mas esse é um governo cujo modus operandi é o da produção constante de ruídos, mesmo que ao preço do desgaste. Ao mesmo tempo que se desgasta, corrói o ambiente que o cerca. Neste caso, porém, a jogada é arriscada. +
Sem o ministro popular e, ainda pior, demonstrando que o frita, o presidente se desgastará junto a setores que hoje o apoiam porque veem nele e em seu ministro um mesmo projeto. De certa forma, são mesmo: ambos autoritários e um construído com a ajuda do outro. Mas têm ambições.+
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14 Jan 20
Quando assisti “Democracia em vertigem”, há alguns meses, tive duas percepções básicas acerca do filme. Por um lado, pareceu-me muito bem feito como cinema: bem filmado, bom ritmo, fio claro. Por outro, ... +
... pareceu-me muito mais o relato de uma percepção subjetiva dos fatos do que uma tentativa de descrevê-los objetivamente. Mas isso não me parece, como alguns têm apontado, acusatoriamente, um defeito ou um crime. É apenas uma escolha da autora, que não por acaso... +
... narra o filme ela mesma, sempre na primeira pessoa. Vai além nessa escolha, inserindo as falas da mãe na narrativa e mostrando os fatos também da perspectiva dela. Novamente, uma escolha pela subjetividade e pela intimidade familiar, das histórias como sentidas aí, por elas.+
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31 Dec 19
Embarcado num voo da Latam para Frankfurt. Mulher destrata uma comissária de bordo que lhe pede, educadamente, que ela aguarde um instante enquanto ela coloca objetos no compartimento de bagagem. Ela brada que não vai aguardar coisa nenhuma e empurra a comissária. +
A comissária se espanta e pergunta: “O que é isso?!” para a mulher, que se volta para ela e a empurra novamente. Passa e segue em frente. Os passageiros ao redor ficam todos indignados. Passam-se uns minutos e a mulher regressa, escoltada por comissários. +
Vem bradando que a comissária é que lhe empurrou. É rechaçada por vários passageiros em volta, que lhe replicam, dizendo-lhe que foi ela quem empurrou. Ela questiona: Ah! Fui eu?!”. +
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30 Dec 19
É surpreendente como certas pessoas se surpreendem com o que só a Velhinha de Taubaté e Eremildo não imaginavam. Ou, talvez, não seja tão surpreendente assim. A ânsia por estabelecer falsas simetrias leva a esse tipo de autoengano. +
noticias.uol.com.br/politica/ultim…
De tanto querer convencer aos demais do “extremismo do PT” (sic), convenceram-se de que Bolsonaro não era extremista, ou se moderaria, uma vez no governo; que os militares o conteriam, assim como Moro. Agora, surpreendem-se por não ter ocorrido o que não poderia mesmo ocorrer. +
Bolsonaro sempre foi extremista e familista, corporativista e autoritário, tosco e rude. Aliás, foi eleito por isso, não apesar disso. Visto como negação do establishment, mesmo carreirista. Curioso que intelectuais digam ter acreditado nisso tambem; não fazem jus ao epíteto. +
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23 Aug 19
Analisar os fatos com objetividade é o que leva o analista político e social a perceber mudanças estruturais importantes a partir de eventos conjunturais. Requer dele também um olhar menos moralista e mais propriamente analítico - científico, pode-se dizer - dos processos em...
... curso e suas consequências, a despeito do juízo de valor que tenha acerca dos atores envolvidos e suas motivações. Maquiavel inaugurou exatamente essa tradição e é, por isso mesmo, o fundador de uma ciência política (em vez de uma ética misturada à filosofia política). ...
... Também a sociologia - e, nesse âmbito, a sociologia política - faz isso. Pois bem, eis o que caracteriza este belo artigo de Brasilio Sallum Jr sobre a possível criação de um novo regime político entre nós. ...
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