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Advogado e editor da Autonomia Literária (https://t.co/mgIqLDv47L @AutonomiaLiter2), publisher da @JacobinBrasil e membro do @IHUDD2
15 Sep
Li o tal texto do Pablo Ortellado acusando Caetano de Stalinismo e isso é risível, não apenas pelo fato em si, uma vez que Caetano nunca defendeu Stalin, como pelo fato de ser...o Caetano, a figura mais não-stalinista do mundo. Isso diz muito sobre Pablo do que sobre Caê (1/5).
Sem querer ser monotemático, mas a gente precisa falar sobre isso: Caetano desembarcou do Liberalismo e falou dos problemas do Liberalismo. Hoje, falar dos crimes do Liberalismo vale à acusação de "stalinista" para qualquer um no Brasil (2/5).
Sintomático, intelectuais liberais acusando o golpe e atacando qualquer um que aponte o quanto a violência liberal não é normal -- e falamos de colonialismo e racismo (3/5).
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14 Sep
Quando eu falo que é fundamental localizar o liberalismo no século 19, onde de fato ele nasceu, não é só preciosismo e precisão, mas é o cuidado de impedir que os liberais se apropriem da tradição iluminista como eles fazem para se legitimar (1/7).
Esse erro metodológico se chama "anacronismo"; Na época de Locke sequer havia a palavra liberalismo, mas a questão é que esse erro na verdade atende a uma demanda ideológica e de classe (2/7).
De novo, pela milionésima vez, o Liberalismo não é uma invenção britânica, mas Ibérica: é uma questão da Espanha e Portugal imediatamente posterior às invasões napoleônicas e que tem a ver com (1) não retorno ao absolutismo, mas (2) recolonização das Américas (3/7).
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11 Sep
O mais curioso no que diz respeito ao Liberalismo é a própria noção a-histórica, idealista e romântica que muitos liberais têm do seu movimento, o que aparece na forma de uma quimera maniqueísta, onde tudo que é ruim não é liberal e tudo que é bom é. Vamos lá (1/24).
Isso aparece na apresentação do Liberalismo como mito, ora ligado ao Iluminismo, ora retrocedido ao Mundo Antigo, onde toda e qualquer reivindicação por Liberdade é apontada como a presença objetiva de um Liberalismo onipresente (2/24).
Com efeito, não é. O adjetivo liberal, quando se referia às artes liberais tinha outro significado. Em Shakespeare, liberal tem outro significado. O adjetivo ali, contudo, era relativo à ideia mais geral de Liberdade não a uma doutrina chamada Liberalismo (3/24).
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27 Aug
O ex-presidente argentino Eduardo Duhalde falou na possibilidade de golpe militar na Argentina até ano que vem. Seria uma ameaça ou um aviso? Eu diria: os dois. Segue o fio (1/13).
Duhalde, "El Cabezón", é um nome histórico do peronismo e participou da "adequação" do Partido Justicialista no pós-Guerra Fria como um partido de centro-direita. Mas ele sempre foi um nome menos radical do que Menem, seu aliado e depois rival interno (2/13).
Quando Duhalde sucede a Menem, este depois de dois mandatos, como candidato justicialista em 1999, é claro que a ala menemista torcia por sua derrota frente ao fraco De la Rua (3/13).
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24 Aug
O auxílio emergencial impulsiona a alta de Bolsonaro? Sim e não. Mas sim em um sentido simbólico, muito menos pela lógica que a esquerda,desde os anos 1930, busca entender o fascismo, isto é, pelo economicismo. Vamos ao fio (1/15).
Bolsonaro surge, desde o início, como uma espécie de tio passivo-agressivo e permissivo. Ele é o tio que dá doces para as crianças antes do almoço, ou que promete dar, mas não dá com medo de brigar com os outros adultos -- mas ele sempre acena para ser popular (2/15).
A esperteza de Bolsonaro é sempre não arcar com o que é impopular, mesmo que esse impopular seja necessário: e impopular é meu refiro ao que contraria nossas pulsões mais imediatas. Quem quer ficar confinado? Quem quer acreditar na existência de uma pandemia? Ninguém (3/15).
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20 Aug
O levante da Bielorrússia tem a ver com democracia e liberdade ou é apenas uma intervenção Ocidental? Isso não tem uma resposta simples, pois envolve questões internas e geopolíticas bastante dúbias e ambivalentes. Vamos a um fio grandinho (mas necessário) (1/24):
Das antigas repúblicas soviéticas de maioria eslava, A Bielorrússia era uma das mais pobres nos tempos da URSS. Detalhe: quando falo isso, me refiro à Rússia, com toda sua diversidade, e à Ucrânia. Lituanos e letões são apenas primos distantes que são, contudo, vizinhos (2/24).
Quando acabou a URSS, a Bielorrússia assim como a Ucrânia e a Rússia voltaram a adotar símbolos nacionais antigos e a preparar reformas neoliberais. Os comunistas se levantaram em todos os três, mas na Bielorrússia surgiu um movimento nacional-populista forte pelo meio (3/24).
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5 Aug
A revelação da Piauí, não desmentida pelo governo, dá conta de uma tentativa de golpe real de Bolsonaro contra o STF. A pergunta a ser feita é: qual seria a resposta se, simplesmente, militares rebelados prenderem os ministros? (1/10).
Porque tem gente brincando com fogo e negando a realidade. É uma pandemia matando a rodo e um governo tresloucado, mas o Centrão prefere ficar ganhando dinheiro a rodo, subestimando que Bolsonaro só quer tempo (2/10).
O Centrão, os bilionários e os militares capitalizaram bem essa pandemia toda, atualizando as definições de cinismo e de risco. Mas o Centrão realmente pode se lascar num golpe, embora Moreira Franco tenha seu poder sobre as forças armadas (3/10)
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3 Aug
Bolsonaro está realmente mudando, se movendo de verdade para uma agenda social só que de extrema-direita? Tenho ouvido bastante isso nos últimos dias, mas me parece uma enorme besteira. O único movimento relevante é o silêncio e o ataque conjunto a Moro via Aras. Vamos lá (1/10):
Bolsonaro aprovou o auxílio emergencial sob muita pressão da oposição e da direita normal, esta última preocupada com o eventual caos social. Hoje, o auxílio está sendo pago de forma burocrática, enquanto a população segue sendo empurrada para voltar totalmente à ativa (2/10).
De um lado, a prisão de Queiroz obrigou Bolsonaro a ficar quieto e isso, meus caros, não foi à toa. Aí, entra Guedes obrigando Bolsonaro a assumir uma fase "paz e amor" e girar o Brasil em campanha, enquanto ele, Guedes, realmente governa (3/10).
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30 Jul
O mundo está em uma situação muito difícil. Trump flertando com o golpismo nos EUA, turcos tensionando a Armênia e fazendo os russos moverem centenas de milhares de homens para o Cáucaso, esse insano cerco à China e, ainda, a Pandemia. Lembra muito 1913 (1/7).
O mundo atual é mais uma coisa pré-Primeira Guerra do que pré-Segunda Guerra, embora tenha elementos de fundo semelhantes aos anos 1930. Talvez seja uma soma dos dois, o que é horrível, mas, insisto, é mais anos 1910 (2/7).
Um fator de tensão absurdo é Erdogan na Turquia, agora fustigando os armênios via Azerbaijão. E tem um detalhe: existe dedo turco no uso político da questão Uighur na China, o que é fruto da diplomacia étnica turca com autorização da Otan (3/7).
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29 Jul
Aras é o homem-chave da república. Não por ser "de Bolsonaro", mas por ser o único homem possível de Bolsonaro na PGR e porque, no fundo, é o único que tem força e capacidade para mover Bolsonaro de lugar. Vide a Lava Jato (1/5).
Quando foi nomeado, evidentemente Aras não tinha força entre os procuradores, mas se chancelou pelo apoio do Congresso, justamente por ser alguém da política tradicional. Bolsonaro não teve escolha, mesmo em um momento em que ele ainda via a Lava Jato como um ativo (2/5).
Mas Bolsonaro percebeu que a Lava Jato nem o blindava, nem servia para atacar seus adversários e ainda tinha agenda própria. Aras contribuiu para a decisão de Bolsonaro de colocar Moro na berlinda e agora, com o ex-ministro na oposição, tem o aval de todos contra atacar (3/5).
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25 Jul
Uma coisa que vai precisar ser entendida é que em 2009, o governo Obama fez uma espécie de New Deal às avessas e injetou mega-liquidez nas grandes corporações. Isso fez as bolsas globais brilharem, mas aí que veio o retorno da extrema-direita com Trump, entenda (1/13).
Na crise de 2008, nenhuma grande corporação quebrou. Elas foram salvas com dinheiro público, sem nenhuma campanha de responsabilização de CEO's ou coisas do tipo. Bolsas do mundo passaram a ilustrar uma recuperação baseada nessa artificialidade (2/13).
Sim, exatamente como nos anos 1930, muita grana foi emitida e gerada, mas não na forma da obrigação de corporações pagarem salários maiores, na construção de redes de serviço público, ao contrário: serviu para gerar um boom nas bolsas, o chamado "mercado de capitais" (3/13).
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20 Jul
O Centrão desencanou de derrubar Bolsonaro? Sim e não. Por ora, ele ganhou todas as brigas principais e avançou sobre cargos e fundos multibilionários, depois de anos de derrotas. Mas é um jogo mais complexo do que parece (1/15).
Basicamente, Bolsonaro realmente entrou em campo pensando em tirar o Centrão da jogada, dividindo cargos e gestão de fundos apenas com seus aliados mais próximos, os "quadros" fornecidos pelo Olavismo e militares (2/15).
Moro estava no governo para isso: dobrar o Centrão e, ao mesmo tempo, para blindar a família Bolsonaro e ser domado, uma vez que sua "missão", tirar o PT da disputa de 2018, havia sido concluída com êxito. Domar o indomável Moro era uma tara particular de Jair (3/15).
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12 Jul
O Reino Unido ainda é uma potência, sobretudo pela maneira como a língua inglesa ocupa um lugar central no mundo globalizado. Mas há um lado do país ligado às finanças que o torna um player poderoso. Por isso, é preciso entender o enrosco do país, hoje sob Boris Johnson (1/10).
Johnson, em primeiro lugar, é um sujeito racional, talvez o direitista mais inteligente do mundo. Muitos políticos políticos como ele são pessoas insanas que se fazem de normais e encenam um papel insano e populista. Johnson não, ele é um Jânio Quadros com juízo (2/10).
De uma família de uma certa classe média alta, multicultura e bem situada, Johnson foi um dos jornalistas favoritos de Thatcher em pessoa, lhe servindo como um cãozinho fiel, o que já ali incutia seu grande plano político (3/10).
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12 Jul
EUA estão numa crise brava porque sem sistema de saúde privado, as pessoas não gastam com medo de ter de gastar o que elas não têm com a doença. É o contrário do Reino Unido, onde Boris Johnson mandou Thatcher às favas e encarnou o Churchill: lá tem saúde pública (1/5).
Que fez Trump: partiu para o negacionismo de novo, vendo que o PIB e os preços caíam pela falta de consumo, bancando uma abertura precipitada com os casos novos na casa de 20 mil por dia -- agora eles estão em 66 mil (2/5).
A tragédia americana é o que Bernie mais martelou durante os últimos anos: falta de saúde pública. Mas isso nunca pareceu ser um problema econômico. Não importava o quão menos e pior vive um cidadão americano e comparação a um europeu: o sistema dava dinheiro e ponto (3/5).
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10 Jul
Macri deu a primeira entrevista desde a derrota do ano passado na Argentina; a fala é ilustrativa sobre o momento da direita latino-americana "tradicional", diz muito sobre nosso futuro também. Macri me lembra o "nosso" Moro: derrotado, melancólico, mas ainda no jogo (1/10).
Basicamente, a fala de Macri mostra o quanto a direita tradicional latino-americana flerta com o abismo, ele não cansa de elogiar Ivan Duque, um gorila que travou e sacaneou o processo de paz na Colômbia, e embora não elogie Bolsonaro, também não lembra que ele existe (2/10).
O curioso da história é Macri batendo na política de combate à pandemia da Argentina, modelo mundial, para elogiar a política colombiana porque seria um "meio-termo". Meio-termo com muito mais mortes, por sinal (3/10).
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6 Jul
O Guga-chacrismo critica todo estupor do Bolsonarismo e da extrema-direita global, mas não se opõe, nem pode se opôr, à economia política deles, o que o torna ativamente Bolsonarista e neofascista (1/7).
O Guga-chacrismo transforma a Venezuela no maior problema de direitos humanos das Américas quando, na verdade, ele está no Brasil e na Colômbia, que vivem sob dois governos quase de intervenção americana (2/7).
O Guga-chacrismo é contra Trump, mas apoia manifestantes de extrema-direita em Hong Kong que reivindicam...Trump! (3/7).
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5 Jul
Zico é um daqueles lacerdistas cariocas que aderiu sem dó nem remorso ao Bolsonarismo. Mas o Landim é a barbárie em pessoa e não tá nem aí com nada, o que obriga Zico a recuar para não se queimar (1/5) uol.com.br/esporte/futebo…
E o Flamengo vai com Bolsonaro até o fim nesse papel de "clube do regime". Flamengo que sempre teve esse papel de time do sistema, mas nos anos 80, Márcio Braga representava lá do jeitão dele o oposto disso na presidência rubro-negra (2/5).
Se prestar a ser time do regime, que eu me lembre nunca ninguém se prestou, nem mesmo na ditadura, em que pese toda relação canalha entre poder fardado e futebol -- isso é coisa do fascismo Ibero-Americano: Chile de Pinochet, Espanha de Franco, Portugal de Salazar (3/5).
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29 Jun
O futuro de Bolsonaro: Queiroz capturado, Bolsonaro quieto, mas ainda sem sinal de uma deposição do presidente. Muita gente frustrada, muita gente confusa. Mas é preciso entender o que se passa no Brasil há seis anos e entender como essa canalhice tem explicação (1/10).
Com Queiroz preso e -- notem, esse detalhe é até mais importante -- o celular de Bebbiano de volta ao Brasil, o temos é um governo sitiado com um presidente emudecido para negociar com os atores que detém, agora, o poder real (2/10).
Bolsonaro precisa negociar para não perder o real. O Centrão já usou dessa crise toda para conseguir cargos e verbas em troca de não levar a cabo o impeachment mais do que merecido de Bolsonaro (3/10).
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27 Jun
Uma coisa interessante sobre o último Datafolha e a prisão de Queiroz: o índice de descrença na relação de Bolsonaro é muito parecida com o que as pessoas pensam do governo como um todo. É a Trumpificação: os atos e fatos sendo julgados à luz da pessoa do "líder" (1/7).
Isso é uma consequência do projeto Bannon: o líder não é mais como parte de um projeto, mas um protagonista pessoal que encarna um projeto. Você não olha mais para o que ele faz ou deixa de fazer, mas no que isso significa para a realização desse projeto (2/7).
É claro, a aprovação ao "grande projeto", materializado na figura de Bolsonaro pode ser mais ou menos aprovado, mas ele é colocado de forma polarizante: não é o escândalo, mas o que você pensa de Bolsonaro/Trump enquanto projetos encarnados (3/7).
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26 Jun
A repetição da história e na história é um dos temas que mais me tem interessado. O uma vez como tragédia, depois como farsa de Marx. Hoje, falando com o meu sócio, o Carlos, ele me lembrou o "estamos sendo atacados" de Bacurau -- ali como tragédia, aqui como farsa (1/7).
A "realidade" brasileira é uma farsa diante de uma tragédia ficcional. Mas em Bacurau está muito do que é o Brasil hoje: o líder político entreguista local ligado a um projeto genocida, o enfraquecimento do povo para sua eliminação. Até a privatização da água (2/7).
KMF e Dornelles foram felizes no que produziram. Só nos falta um Lunga, embora talvez o Lunga seja o herói do porvir. O Brasil, meus caros, ainda vai piorar muito e talvez nós só estejamos na fase da negação (3/7).
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19 Jun
Pois bem, o Brasil se aproxima da resolução, a pior ou a melhor, dessa enorme crise: Bolsonaro não vai recuar, vai até o final, e e isso, como já falei várias vezes aqui, o coloca em rota de colisão com a direita tradicional (1/12).
A Ditadura caiu por força dos trabalhadores no fim dos anos 1980, quando a convergências dos nascentes movimentos sociais se une às lutas do novo sindicalismo. A oposição liberal ao regime foi obrigada a incluir esses atores, mas nunca com muito gosto (2/12).
A Nova República é isso: a direitaça pró regime militar na berlinda, mas com campo para ocupar cadeiras no legislativo, fazer seus "negócios", militares na tutela da vida civil, liberais com a faca e o queijo na mão e as esquerda meio dentro como antagonista (3/12).
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