Mellanie F. Dutra Profile picture
Biomédica Virologista, Neurocientista, Pesquisadora, Professora e TEDx Speaker | Saúde e Ciências | Ela/Dela | 🇧🇷 | #DefendaoSUS

Oct 18, 2021, 33 tweets

Dos comportamentos mais bonitos que vi, quase todos tem um componente de vínculo por trás. Desde lindas declarações de amor até ações que poderiam colocar a própria vida em risco por conta do ser querido.

Mas como vínculos se formam? eles só existe na nossa espécie? 👇🧶

O estudo dos vínculos é algo que sempre me chamou a atenção. Especialmente abstraindo para uma complexidade imensa que é tentar entender o que é o amor. Eu particularmente sempre fui a pessoa que sofre cruas ânsias quando um vínculo se quebra, e queria entender o porquê

Uma parte dessa resposta reside no fato de que somos seres sociais. Vivemos em sociedade (apesar de alguns acharem que não, ou que suas ações não impactam na sociedade...). Para seres sociais, os vínculos são parte crucial para seus comportamentos

Segundo Harry Harlow, diferentes tipos de vínculos podem ter diferentes componentes envolvidos, como por exemplo na formação dos vínculos entre pais-filhos e entre pares.

Existe um componente multisensorial (cheiros, a parte visual...) que vai auxiliar a criar esse laço

Em roedores, por exemplo, o olfato (o processamento de sensações tipo cheiros) é um componente super importante para isso. Mas pensando nos primatas, a parte visual é bastante significativa.

E é graças a junção de vários componentes sensoriais (o cheiro, a imagem, o toque...) criamos uma resposta tão complexa que vai envolver a busca por aquele ser, a proximidade, respostas de cuidados e até mesmo comportamentos defensivos

A ninhada de uma rata tem o cheiro do ninho que ela construiu, o cheiro dela, e tudo isso, somado a vários outros fatores, ajuda a construir esse laço. Colocando um outro rato (desconhecido) próximo, a mãe pode assumir uma posição defensiva com seus filhotes

Mas é só sensação que constrói isso Mell? É bem mais complexo que isso! Claro que essas sensações são como se fossem os primeiros tijolos dessa base, mas tem muito cimento que não falamos: atenção, memória, reconhecimento social, resposta ao afastamento e motivação, por exemplo

Para tentar entender um pouco mais disso, a observação do comportamento de outros animais, que tem uma resposta mais parecida ou mais diferente de nós, pode ser um ponto de partida valioso. É possível observar a construção complexa dos comportamentos de vínculos no reino animal

Um exemplo fascinante são os calitriquídeos: primatas não-humanos que são monogâmicos e tem um cuidado biparental (ou seja, temos um pai e uma mãe cuidando do filhote)

Outro exemplo que eu me derreto vendo a foto é dos macacos titi: seus pares são expressos por entrelaçamento de suas caudas - um equivalente a andar de mãos-dadas? 🥰

A verdade é que observamos um comportamento muito básico (comparado com outros, porque envolve uma liberação de moléculas no ambiente bastante intensa, como forma de 'sinal') de agregação social até mesmo em vermes, como é o caso do Caenorhabditis elegans

Mas onde temos mais dados hoje desse comportamento, sem dúvida, é observando os vínculos de mãe-infante (prole). Em aves chocadas, por exemplo, um fenômeno surpreendente acontece ao nascer: o imprinting visual.

É o que rolou com o Jacob e a Renesmee? Calma, não vamos tão longe

Em aves chocadas, por exemplo, existem manifestações comportamentais de apego entre o infante (filhote) e a genitora (mamis) que fazem o animal ter a orientação de segui-la para onde a genitora for. É como se rolasse uma "impressão mental" da imagem da mãe com a info: SIGA ELA

Para esse comportamento rolar, 3 coisas precisam acontecer:
1⃣ Resposta de aproximação: ⬆️alerta, ⬇️aversão
2⃣ Aquisição ou aprendizado: memória de longo prazo do estímulo
3⃣ Reversão da resposta de aproximação: evitar novos objetos enquanto mantém o seguimento da mãe, por ex.

Tudo isso ocorre numa região do 🧠desses animais chamada de mesopalium (ou hiperestriado ventral), juntamente do hipocampo, super envolvido na formação de memórias, além de regiões de processamento visual e outras

Faz sentido, né?

De forma diferente das aves, esse reconhecimento materno em roedores é por meio do olfato (cheiros)! Existe um aprendizado olfativo que faz com que o filhote associe aquele cheiro com algo importante (mãe). E a molécula por trás disso é ela mesma: ocitocina

E foi osbervada sua relevância justamente em um estudo em que se viu que ela (oxitocina) não altera o aprendizado se associado com estímulos não sociais (por exemplo: vínculo com um objeto), mas quando se trata da mãe, por exemplo, ela é liberada - e faz diferença

Quando a gente fala de comportamento mãe e filho, rapidamente pensamos que esse vínculo é por toda a vida, não é? E para algumas espécies, de fato, pode ser. Mas não é regra no reino animal.

Temos espécies que apresentam um comportamento materno do tipo “sazonal”

Quê?

É caso do rato Wistar (Rattus norvegicus) que apresenta este comportamento até um período pós-natal determinado. Após isso, se deixar machos e fêmeas próximos, é possível que possam acasalar, inclusive.

Mas temos exemplos, como é o caso das ovelhas, que podem apresentar o comportamento materno ao longo de toda a vida, sendo capazes de reconhecer seu filhote em um imenso rebanho, mesmo um tempão depois do nascimento

E um outro tipo de vínculo que também é bastante estudado é o vínculo formado entre pares! No reino animal, menos de 10% dos mamíferos apresentam comportamento reprodutivo do tipo monogâmico e biparental, por exemplo. Entre os primatas, 25% tem comportamento monogâmico

Mas o que chamou a atenção dos pesquisadores dessa área foram duas espécies de roedores (gênero Microtus): dependendo da espécie, temos roedores monogâmicos (Microtus ochrogaster) e não monogâmicos (Microtus montanus)

O M. ochrogaster é conhecida como “roedores do campo”, enquanto que o M. montanus é conhecida como “roedores da montanha". Avaliando regiões do 🧠dos dois, observou-se que os roedores do campo (dir) tem mais receptores da ocitocina em regiões-chave pra formar vínculos, por ex.

Legal, Mell, mas WHAT IS LOVE? (o que é o amor?)
a) baby dont hurt me
b) I want you to show me

Vou te responder, e também não vou te responder ao mesmo tempo (aprendi com o Schröedinger) 🧶👇

Os neurocientistas ainda não conseguiram alcançar o nível dos poetas, que tão bem buscaram caracterizar o amor, mas temos já alguns indicativos de que temos um envolvimento muito grande (mas não somente) da ocitocina, em regiões importantes para vínculo e recompensa

Estudos de ressonância magnética funcional (em que observamos mudanças na ativ. do 🧠ali na hora), foi solicitado para adultos olharem fotos de seus parceiros e de amigos não-aproximados. Muitas áreas se ativaram ao mesmo tempo, envolvidas com motivação, recompensa e vínculo

Esses estudos revelaram ativações das áreas do cingulado anterior, da ínsula medial e do núcleo caudado e putâmen, regiões-chave envolvidas na empatia, comportamento afetivo e vias de motivação

E de uma forma parecida com o início desse fio, os mesmos padrões são vistos quando os indivíduos escutam a voz do parceiro, revelando que esses mecanismos podem ser engatilhados por fatores multissensoriais (a partir de diferentes sensações)

Em outro momento, farei um fio só pra gente discutir sobre o amor, numa perspectiva neurocientífica, mas podemos entender que, seja o que for e o que o compõe, uma das bases reside nos vínculos, cujos mecanismos compartilhamos com várias outras espécies de animais.

Acho que uma das principais lições que eu tiro disso e de outras observações é que esse mecanismo tão bonito e que representa uma dedicação que vai para além da vida, também é visto, em diferentes níveis, em outros seres. E isso é belo, porque compartilhamos muito nesse planeta

Então se tu acha que aquele animal não sente dor, se um chimpanzé é incapaz de sentir um pesar parecido com o luto, ou se ratinhos sentem ou não um comportamento pró-social que lembra a empatia, pense duas vezes. Somos muito mais do que parecemos, e isso serve pra eles também!

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