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🇻🇦Vivo no mundo, mas não sou deste mundo (Jo 17,14)

Mar 31, 2023, 34 tweets

Explicando a doutrina da Santíssima Trindade

A existência de três Pessoas em Deus foi revelada por Nosso Senhor Jesus Cristo, quando mandou seus Apóstolos irem e batizarem a todos "em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo"(Mt 28,19). Além disso, Jesus nos falou das relações das três Pessoas, dizendo que (+)

o Filho procede do Pai (Jo 8,42) e que o Espírito Santo procede do Pai e do Filho (Jo 15,26). Alguns negaram a existência de processões em Deus, alegando que toda procissão significa um movimento para fora. Ora, como em Deus não há mudança, não poderia haver processão em Deus.

Outros argumentavam que não pode haver processão em Deus pois entre o procedente e o processor há diferenças, o que contrariaria a simplicidade divina.
Eles afirmavam que proceder pode ter dois significados:

1 – Proceder significa vir de um certo local. “Pedro procede da França”

2 – Proceder significa vir de outro, como o efeito vem da causa. “O calor procede do fogo”

Ora, o primeiro sentido não pode ser aplicado a Deus, pois em Deus não há movimento local. Eles argumentavam então que o segundo sentido se aplica a Deus, pois o Filho procede do Pai.

Mas, como o efeito é sempre menor do que a causa, eles afirmavam que o Verbo não era Deus, mas sim a primeira criatura criada por Deus.
Mas eles ignoravam certos textos da Sagrada Escritura que afirmam: “Tudo o que o Pai tem é meu” (Jo 16,15); “Quem vê a mim vê o Pai” (Jo 14,9);

“Eu e o Pai somos um” (Jo 10,30); “Nós que estamos em seu Filho Jesus Cristo. Este é o verdadeiro Deus e a vida eterna” (1Jo 5,20)

Eles erraram porque não compreenderam exatamente o que significa proceder. A palavra proceder possui um terceiro sentido:

3 – Proceder supõe agir, atuar, comportar-se. Assim, o pensamento procede do pensador. É com este sentido que o termo proceder pode ser aplicado a Deus.

Nos seres espirituais, há duas processões imanentes:

1 – A ação de entender;
2 – A ação de querer.

Portanto, em Deus há duas processões imanentes:

1 – A processão intelectiva, por meio da qual é gerado o Filho.
2 – A processão volitiva, por meio da qual é gerado o Espírito Santo.

Da ação do entender divino procede o Filho. Com efeito:

Deus se conhece.

O sujeito dessa afirmação é Deus conhecedor; o objeto é o próprio Deus enquanto conhecido.

Quando conhecemos algo, forma-se em nosso intelecto uma ideia daquilo que conhecemos.

Em Deus, analogicamente, dá-se o mesmo: ao se conhecer, Deus concebe uma ideia de si mesmo.

Ora, se essa ideia que Deus concebe de si mesmo fosse menor do que Deus, Deus seria ignorante, o que é um absurdo, pois não se conheceria perfeitamente.

Se essa ideia fosse maior do que Deus, Deus seria orgulhoso, o que é um absurdo também. Ora, se essa ideia que Deus concebe de si mesmo não pode ser nem menor nem maior do que Deus, ela é absolutamente igual a Ele (Deus = Ideia de Deus).

Nos seres intelectuais, as ideias ficam no intelecto, mas sem se identificar com ele. E quanto mais uma ideia é entendida, mais ela fica unida ao intelecto. Ora, o conhecimento de Deus é absoluto. Logo, a Ideia de Deus está absolutamente unida ao seu intelecto.

Ora, absoluta união significa identidade. Logo, a Ideia de Deus é o seu próprio Intelecto ou Sabedoria.

Ora, assim como expressamos nossas ideias por palavras, a Ideia de Deus pode ser chamada de Palavra de Deus, pois a ideia é uma palavra interior.

Ademais, a palavra mais importante, a que dá o sentido e a compreensão de nossas afirmações é o verbo. Logo, ideia, palavra e verbo se correspondem; Ideia de Deus, Palavra de Deus e Verbo de Deus são a mesma coisa.

A Ele se dá ainda o nome de Filho. Pois ser filho significa ser:

1 – Produto de um ato vital;

2 – Da mesma natureza que o seu gerador;

3 – Semelhante a ele.

Ora, o Verbo é produto de um ato vital: o entender divino, pois é o fruto da vida intelectual. Além disso, Ele tem a mesma natureza do seu gerador, pois é a própria Sabedoria Divina.

Por fim, o Verbo é mais do que semelhante a Deus, Ele é igual a Ele. Logo, o Verbo de Deus pode e deve ser chamado de “Filho de Deus”, e o seu gerador é o Pai.

Ora, a definição de verdade é: a correspondência entre a ideia de um objeto e o objeto conhecido.

Ora, como em Deus há uma correspondência perfeita e até igualdade entre Deus e a Ideia de Deus, o Verbo é, pois, a Verdade de Deus. Além disso, como a vida intelectual consiste em conhecer a Deus, o conhecimento que Deus tem de si é a Vida de Deus.

Quando Deus fez todas as coisas, Ele dizia uma palavra e a coisa era criada: “Faça-se a luz; e a luz foi feita” (Gn 1,3)

Isso significa que Deus concebeu toda a criação em seu intelecto: “Tudo o que existe foi feito no Verbo, e nada do que existe foi feito sem Ele” (Jo 1,3)

Por isso está escrito: “No princípio, Deus criou o céu e a terra” (Gn 1,1)

Na época de Cristo, os judeus discutiam muito sobre o que era esse “no princípio” no qual Deus criara o céu e a terra. Os gnósticos acabaram ensinando que “no princípio” era o sujeito do verbo “criou”.

Ou seja, para eles, “No princípio” criou Deus, o céu e a terra. Para responder a esse erro, São João escreveu: “No princípio era o Verbo, e o Verbo estava junto de Deus e o Verbo era Deus. Ele estava no princípio junto de Deus” (Jo 1,1-2)

Foi esse Verbo de Deus que se fez homem, em Jesus Cristo: “E o Verbo se fez carne e habitou entre nós” (Jo 1,14)

Em Jesus há, portanto, duas naturezas: uma divina e uma humana, mas uma só pessoa. Cristo é ao mesmo tempo homem e Deus. Ele tinha corpo, alma e divindade.

Como Deus ele tinha inteligência e vontade infinitas. Como homem, ele tinha inteligência, vontade e sensibilidade humanas.

Ele tinha duas inteligências. Como Deus, Ele conhecia até o pensamento dos fariseus, como se lê no evangelho. Como homem, ele aprendeu a falar, a andar, etc

Em Cristo há também duas vontades, mas ambas querem a mesma coisa, pois se a sua vontade humana contrariasse a vontade divina, isso seria um pecado, o que era impossível para ele. Por isso no Horto das Oliveiras, ele submeteu a sua vontade humana à vontade divina:

“Pai, se é de teu agrado, afasta de mim este cálice; não se faça, contudo, a minha vontade, mas a tua” (Lc 22,42)

Ele tinha também sensibilidade humana. Por isso ele chorou sob o túmulo de Lázaro, chorou sob Jerusalém e irou-se contra os vendilhões no templo.

Por fim, Jesus tinha um corpo humano, teve fome, sede, cansou-se e sentou-se ao meio-dia.

Enquanto homem, é menor do que Deus e também do que os anjos: “Jesus, a quem Deus tornou pouco inferior aos anjos, nós o vemos coroado de glória e honra, por ter sofrido a morte” (Hb 2,9).

Por isso Ele disse: “Vou para o Pai, porque o Pai é maior do que eu” (Jo 14,28)

O Verbo é Filho unigênito de Deus, pois Deus não pode ter duas ideias de si mesmo. Ademais, Ele é eterno, pois Deus não pode ter começado a se conhecer.

Ora, quando conhecemos algo, nossa vontade se inclina a amar ou odiar esse algo. Se o objetivo conhecido se revela um bem, nossa vontade naturalmente se inclina a amá-lo. Ora, Deus é o Bem Absoluto, absolutamente desejável e amável. Logo, Deus se ama.

Nessa processão, há duas relações:

1 – O sujeito, Deus amante;
2 – O objeto, Deus amado.

Na processão da vontade, se dá uma inclinação do amante em relação ao querido. Ao se conhecer, Deus se ama perfeitamente e completamente.

Deus Pai, ao contemplar seu Filho, Imagem esplêndida de si mesmo, é levado a amá-lo. E Deus Filho, ao contemplar seu Pai, Princípio de si, também é lavado a amá-lo de volta. Ou seja, o amor procede do Pai e do Filho reciprocamente.

Contudo, o objeto dessa relação não pode ser nem o Pai nem o Filho. Se o objeto de amor fosse o Pai, o querer precederia o conhecer, o que é logicamente impossível: só se pode amar aquilo que é conhecido. Se o amado fosse o Filho, o querer precederia também a geração do Verbo.

Logo, o objeto de amor não é nem o Pai nem o Filho, mas o Espírito Santo, Terceira Pessoa da Santíssima Trindade, que é absolutamente igual ao Pai e ao Filho e procede de ambos. Como o amor procede da vontade, o Espírito Santo é chamado “Amor de Deus” (fogo):

“Apareceu-lhes então uma espécie de línguas de fogo que se repartiram e pousaram sobre cada um deles. Ficaram todos cheios do Espírito Santo” (At 2,3s).

Vemos, então, que Deus tem um só pensamento e Ele é o seu próprio pensamento. Vemos também que Deus se ama infinitamente, procedendo do Pai e do Filho um Amor de igual natureza e intensidade. São três Pessoas distintas, mas iguais. Esse é o mistério da Santíssima Trindade.

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