Fábio Rockenbach - A Experiência do Cinema 🎬 Profile picture
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Aug 19, 2023, 24 tweets

Viu um filme e percebeu já ter visto algo em outro lugar? Relembre aqui como os filmes conversam entre si e com outras artes num recurso cada vez mais usado e interessante – se não for banalizado: as alusões.
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Repercutiu tempos atrás a entrevista de Jordan Peele em que ele, eufórico, se diverte ao reconhecer que fez o slide famoso com a moto de Akira em seu novo filme, NOPE como homenagem ao anime. Dennis Petrie chama referências assim de ALUSÕES

A alusão, diferente da citação, não é explicada. Então, você precisa alcançar a referência para entender e assim, ampliar a experiência. Como esse plano de CHILDREN OF MEN em que o Cuarón alude à uma obra, O NASCIMENTO DA VÊNUS, de Botticelli

Ou a alusão direta que o Cuarón faz, nessa cena, à capa do álbum ANIMALS, do Pink Floyd. A história se passa em 2027, quando o álbum estaria completando, hipoteticamente, 50 anos – foi lançado em 1977

Ou à maneira como o LARS VON TRIER recria A BARCA DE DANTE, do Delacroix, no final de A CASA QUE JACK CONSTRUIU - filme que eu detesto, mas não é isso que está em discussão aqui. A alusão permite relacionar a ideia do protagonista ver seus crimes como obras de arte

Apertem os Cintos o Piloto Sumiu é cheio de alusões, desde Tubarão, nos créditos iniciais. Três anos depois do estouro de OS EMBALOS DE SÁBADO Á NOITE, o filme não perde a chance de brincar. Depois dele, a alusão virou figurinha fácil nas comédias e paródias - até demais

Eu gosto demais da primeira aparição do Homem Aranha no SPIDERMAN de 2002, porque ele também faz uma homenagem a um momento icônico para os modernos filmes de heróis, a primeira aparição do SUPERMAN no clássico filme do Richard Donner, em 1978

Toda a cena da primeira aparição do Spider naquele filme remete à estrutura da primeira aparição do Superman em 78. Das situações até falas dos personagens...

12 ANOS DE ESCRAVIDÃO não mostra o protagonista vindo para a América num Navio Negreiro. Ele já é americano, e livre. Mas o diretor Steve McQueen dá um jeito de aludir a prisão arbitrária dele à maneira como os negros eram transportados nos porões dos navios negreiros

DE VOLTA PARA O FUTURO 3 tem uma alusão muito bacana a um dos mais belos momentos do western. Quando Marty McFly chega à Hill Valley no velho oeste o movimento de câmera homenageia o clássico ERA UMA VEZ NO OESTE, do Leone

Aliás, o Zemeckis estava nostálgico: ele também faz uma alusão ao Travis Bickle de DeNiro em Taxi Driver quando faz Marty McFly refazer a icônica cena em que aponta a arma para o espelho e pergunta “Tá falando comigo?”

E, claro, a alusão que era anunciada desde o início do filme, quando ele “adota” o nome de Clint Eastwood. No duelo final com Mad Dog Tannen ele usa o mesmo expediente do personagem de Clint em Por Um Punhado de Dólares

Até pelo estilo, Kick Ass de Matthew Vaughn não poderia passar sem alusões. Poder dizer "Say Hello to my Little Friend" de Scarface deve ser bom demais

Ah, e claro que DEADPOOL não ficaria de fora: a brincadeira pós-créditos dele ao final do primeiro filme pode ser engraçada pra quem não conhece, mas só faz sentido pra quem conhece CURTINDO A VIDA ADOIDADO

Uma dos tipos de alusão se chama ALUSÃO POR ESTILO - os filmes do DePalma aludindo a marcas estilísticas do Hitchcock - e o Spielberg tem na sua carreira várias alusões a soluções visuais comuns do cinema clássico, algumas delas explícitas, como no final de CAVALO DE GUERRA

O sucesso de STRANGER THINGS aproveita uma ALUSÃO POR ESTILO que está muito ligada ao cinema dos anos 80, época da história, quando muitos filmes de sucesso mostraram crianças como protagonistas - mesmo fórmula que o JJ Abrams usou em SUPER 8


Existem aquelas alusões por autorreferência (é esse o nome mesmo) dos filmes dentro da própria franquia, como a que acontece nos filmes do Indiana Jones,


E Bryan Singer reverenciou a primeira edição histórica de Superman, em 1938, aludindo a capa daquela edição em uma cena do seu SUPERMAN RETURNS

Então, tem alusões que são homenagens. Alusões úteis na narrativa, ou dentro de contextos como em O ÚLTIMO GRANDE HERÓI, que brinca com “ET” na ideia do próprio filme, que alude vários outros brincando com a própria ideia do filme dentro do filme

Alusões e citações ampliam o significado de um filme ao público que as identifica. O problema, e acontece em MANK, é quando elas são essenciais para entender o filme. Aqui, um neófito no filme de Welles deixa de “pegar” muita coisa

Rua do Medo Parte 1 é uma clara alusão às mesmas situações dos filmes de terror dos anos 90, e brinca com os filmes ruins do período e os bons, mas pra muita gente é uma cópia barata, sem ver as referências escrachadas como intenção.

Nada disso faz um filme ser bom, mas o intertexto ajuda a tornar o filme uma experiência mais completa quando reconhecido. Alusões são um apoio, a referência atua na experiência e no reconhecimento. É um elemento a mais, ainda que às vezes ele oriente a narrativa

Falo disso numa das partes do módulo 3 desse curso online aqui embaixo. Tem muito mais coisas interessantes ali – e materiais extras aos montes – pra você ampliar a maneira como vê seus filmes e séries. Dá uma olhada, se teu interesse é cinema!!
aexperienciadocinema.com.br

Eu falei que Petrie conceitua alusões, mas são Marland, Hunt e Rawle no livro A Linguagem do Cinema. Petrie é quem categoriza alegorias e simbolismos 😉 Cito eles todos no curso

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