My Authors
Read all threads
Essa é a minha thread definitiva explicando o que está acontecendo em Hong Kong nesse momento - e o aumento sem precedentes da escalada de violência do governo chinês na região:
Essa história começa com uma flor.

Há 6 mil anos os sumérios a chamavam de planta da alegria.

Na Mesopotâmia, ela era utilizada para sanar doenças como insônia e constipação intestinal.

Egípcios, indianos, persas, árabes e romanos fizeram uso generalizado de sua natureza.
Chama-se Papaver somniferum, mas você a conhece como papoula.

Essa planta é a origem de um narcótico chamado ópio.

O principal agente narcótico do ópio é a morfina.

O ópio é a base da heroína, uma das drogas mais mortais da história da humanidade.
Na China, o ópio foi introduzido por comerciantes árabes na dinastia Tang (589 - 1279). Mas por mil anos foi consumido via oral, como medicamento para aliviar a tensão e a dor.

O hábito de fumar ópio só foi popularizado no país no século 17, pelos holandeses.

Foi um sucesso.
O consumo de ópio na China mostrou-se crucial à economia europeia.

Os britânicos usavam os lucros dessa venda pra comprar artigos com alta demanda no Ocidente, como porcelana, seda e chá.

O comércio, no entanto, desagradava a China, incomodada com o aumento de viciados no país.
A coisa degringolou de vez em 1839, quando o governo chinês, sob a dinastia Qing, destruiu uma imensa quantidade de ópio nas mãos de mercadores britânicos.

Os ingleses reagiram com fúria, enviando à China navios abarrotados de soldados.

Era o início da Primeira Guerra do Ópio.
O Reino Unido venceu o conflito em 1842, mas o narcótico continuou proibido no país.

Os ânimos voltaram a esquentar em 1856, na Segunda Guerra do Ópio, vencida novamente por Londres.

Foi a partir dessa derrota que a China passou a permitir o consumo de ópio por quase um século.
Em 1842, para encerrar o primeiro confronto, os chineses cederam aos britânicos, "para sempre", o controle de uma pequena ilha rochosa ao sul, escassamente habitada por pescadores, como um porto livre com direitos de comércio para o continente.

Era a Ilha de Hong Kong.
Em 1860, com a derrota no segundo confronto, os chineses cederam também a Península de Kowloon e em 1898, os Novos Territórios. Este último, um arrendamento com prazo de validade: 99 anos - ou seja, com domínio assegurado até 1997.

Eis o que conhecemos hoje como Hong Kong.
A região quase inabitada virou uma das mais densamente povoadas do planeta - também uma das mais ricas.

Um cidadão médio de Hong Kong não é apenas 5 vezes mais rico que um cidadão médio da China continental - também é mais rico que um habitante médio do próprio Reino Unido.
Em 1982, quando Thatcher sentou-se para negociar a renovação do arrendamento do território com Deng Xiaoping, os chineses foram irredutíveis: não queriam apenas a devolução dos Novos Territórios, prevista no terceiro acordo, mas de toda a região.

Thatcher não suportou a pressão.
Assim, Londres e Pequim estabeleceram que Hong Kong voltaria ao domínio chinês após 156 anos de administração britânica: no dia 1º de julho de 1997.

Em comum acordo, ambos aceitaram um processo de transição que transformaria Hong Kong numa Região Administrativa Especial.
Numa estrutura conhecida como "Um país, dois sistemas", proposto pelo próprio Deng Xiaoping, a China prometeu não alterar o sistema em vigor no território por 50 anos.

O que significa dizer que, com o novo tratado, Hong Kong continuaria a ter autonomia até 2047.
Esta autonomia, no entanto, vem sendo sistematicamente violada por Pequim, gerando uma série de protestos populares por independência e democracia.

Chama-se autodeterminação dos povos.

É fácil entender. Há quase 200 anos, China e Hong Kong seguiram caminhos políticos distintos.
No último dia 30 de junho, na véspera do 23º aniversário da devolução, a coisa esquentou: a China impôs uma Lei de Segurança Nacional draconiana em Hong Kong, com 66 artigos e mais de 7 mil palavras.

Pequim agora pode moldar a vida na região como nunca antes desde 1841.
A lei tem como objetivo impossibilitar protestos contra Pequim em Hong Kong, puníveis agora com penas duras, incluindo prisão perpétua.

A primeira vítima da nova legislação foi presa no primeiro dia de aplicação, depois de protestar usando uma bandeira.

Pior: o Artigo 38 sugere que estrangeiros que apóiam a independência de Hong Kong podem ser processados e presos ​​ao entrar em Hong Kong ou na China.

Ou seja, a lei prevê jurisdição criminal em qualquer território do planeta.

qz.com/1875863/hong-k…
Como escreve Donald Clarke, professor de Direito especializado em direito chinês na George Washington University Law School:

"O melhor conselho para os críticos do Partido-Estado é ficar fora de Hong Kong."

thechinacollection.org/hong-kongs-nat…
A lei também diz que as autoridades “tomarão as medidas necessárias para fortalecer a gestão” de organizações não-governamentais estrangeiras e agências de notícias no território.

Jornalistas podem ser condenados à prisão perpétua ou à pena de morte.

rsf.org/en/news/hong-k…
Como diz Thomas Kellogg, da Georgetown University, "o amplo escopo extraterritorial da lei pode ter efeito assustador em ONGs estrangeiras, limitando sua capacidade de formar parcerias com grupos de Hong Kong em questões delicadas, como direitos humanos".

nytimes.com/2020/06/30/wor…
Em resposta à legislação, o Reino Unido prometeu conceder visto a até 3 milhões de moradores de Hong Kong.

A China ameaça retaliação e diz que os britânicos "arcarão com todas as consequências".

Taiwan e Austrália também prometem facilitar a emigração.

theguardian.com/world/2020/jul…
Na sexta, o Canadá suspendeu seu tratado de extradição com Hong Kong e interrompeu as exportações de equipamentos militares sensíveis para a região, considerando que ela não é mais autônoma.

Hoje, a China respondeu dizendo que haverá consequências.

theglobeandmail.com/world/article-…
O Demosistō, uma organização pró-democracia que defende a autodeterminação de Hong Kong, foi dissolvido.

Moradores da região estão excluindo em massa suas contas nas redes sociais.

Mesmo livros pró-democracia já começam a ser retirados das bibliotecas.

bbc.com/news/world-asi…
Hoje, justificando a defesa da liberdade de expressão - e para frear o encerramento das contas dos usuários da região - Facebook, Telegram e WhatsApp disseram que "pausaram" o processamento de solicitações governamentais de dados de usuários em Hong Kong.

theguardian.com/world/2020/jul…
O slogan “Liberate Hong Kong, Revolution of our Times” se mostrou particularmente ameaçador para Pequim. Nem a RTHK News, o serviço público de radiodifusão em Hong Kong, usou citá-lo nominalmente, colocando asteriscos no lugar de “liberate”.

Na quinta passada, um homem foi detido depois de gritar “Long live Liverpool!”, vestindo a camisa do time, celebrando o título da Premier League.

theguardian.com/world/2020/jul…
Controlando o que se diz, ameaçando jornalistas e ativistas pró-democracia de literalmente qualquer lugar do mundo, Pequim cria um estado de pânico generalizado.

A solução é essa nova modalidade de protesto, com cartazes em branco.

O nome você já conhece. Chama-se distopia.
Essa história completa, com uma análise dos próximos passos, estará na newsletter de amanhã no @spotniks.

spotniks.com/assine/newslet…
Missing some Tweet in this thread? You can try to force a refresh.

Keep Current with Rodrigo da Silva

Profile picture

Stay in touch and get notified when new unrolls are available from this author!

Read all threads

This Thread may be Removed Anytime!

Twitter may remove this content at anytime, convert it as a PDF, save and print for later use!

Try unrolling a thread yourself!

how to unroll video

1) Follow Thread Reader App on Twitter so you can easily mention us!

2) Go to a Twitter thread (series of Tweets by the same owner) and mention us with a keyword "unroll" @threadreaderapp unroll

You can practice here first or read more on our help page!

Follow Us on Twitter!

Did Thread Reader help you today?

Support us! We are indie developers!


This site is made by just two indie developers on a laptop doing marketing, support and development! Read more about the story.

Become a Premium Member ($3.00/month or $30.00/year) and get exclusive features!

Become Premium

Too expensive? Make a small donation by buying us coffee ($5) or help with server cost ($10)

Donate via Paypal Become our Patreon

Thank you for your support!