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Vi essa thread agora. Como muita coisa do Spotniks, mistura informações reais com doses cavalares de desinformação. O que é deliberado, ou não, jamais saberei. Com milhares de likes, só resta lamentar a desinformação propagada.

Queria só registrar alguns erros factuais:
1) A primeira delas é de que toma um dado de etnicidade como dado racializante e absoluto. "Han", ao longo da história chinesa pré-europeus, é um termo que designa a ancestralidade em relação aos primeiros imperadores. A dinastia "Han", que dá nome à etnia, inclusive...
...é posterior a Confúcio.

Bruce Lee, por sua vez, nasceu em São Francisco e é filho de cantoneses, Jackie Chan nasceu em Hong Kong. Eles seriam cantoneses, um subgrupo distinto entre os Han - e que por muito tempo não foi aceito como tal.

(mapa dos dialetos Yue e Ping)
Oficialmente, existem 16 subgrupos étnicos dentro da etnia han. As variações culturais incluem variações linguísticas e idiomáticas sérias - só o cantonês tem 60 milhões de falantes.

Dizer que são todos iguais é a base do racismo ocidental contra os chineses.
2) Khanato não é uma confederação, mas um modelo político das estepes da Ásia Central - partindo da designação "khan", dos povos turco-mongóis. As tensões com tribos e povos organizados em khanatos são uma constante na história chinesa.
O autor do fio fala em expansão Manchu, no século XVIII, mas convém lembrar que a dinastia Yuan - os ancestrais de Genghis Khan - expandiram seu domínio da Mongólia até a Coreia (e por pouco não chegaram no Japão). Mas a história não pára nos massacres dos oirat.
Da mesma forma que diferentes povos turco-mongóis da Ásia central habitavam a região mais ocidental das províncias chinesas, há que se considerar que os uighures são também turcos. Como grupo étnico, contudo, até meados do século XIX na China, eles são lembrados como "hui".
E aí as coisas complicam: "hui" é um termo para o chinês islamizado e que foi qualificado como grupo racial - hoje em dia, a RPC reconhece 56 grupos étnicos dentro do país, com os Hui sendo um dos mais numerosos - cerca de 20 milhões de pessoas.
2a) Para ilustrar melhor o pepino que é essa definição étnica, em 1862 até 1877, ocorre a Revolta Dungan, atingindo as províncias de Shaanxi, Gansu, Ningxia e Xinjiang. É considerada a maior revolta "Hui" chinesa. Mas é uma revolta majoritariamente composta por Uyghurs.
A revolta "Hui" era justamente reivindicando o senso de comunidade religioso num momento em que o Mandato Celestial, o império Qing, não conseguia mais dar conta das demandas dos seus súditos - uma das consequências mais dramáticas do imperialismo na China no século XIX.
Desnecessário dizer as consequências disso na China, mas é bom lembrar: a identidade nacional uighur não existia no século XIX. Ao lutar contra o império Qing, no século XIX, a reivindicação era de uma identidade "Hui".
Isso por si só quebra a narrativa de que os uighurs sempre foram dominados pelos chineses. A realidade, mais complexa, mostra que essa narrativa é ingênua e ignorante, no sentido de que coloca os "Manchu" da dinastia Qing como mais "chineses" do que os uighurs "Hui".
2b) E aí outro problema: se a identidade uighur não era uma identidade nacional, como esses grupos se viram como nação? Bem, a questão central foi justamente a Rússia bolchevique e a região do Turcomenistão. O islã, no mundo soviético, sempre foi fator de tensão.
Desde a Comuna de Baku, em 1920, povos nômades islamizados, da Ásia Central, tiveram sentimentos ambíguos para com os bolcheviques - por um lado, era um freio na expansão imperialista inglesa; por outro, era um poder em defesa da laicidade e do direito das mulheres...
(o que rompia com formas de organização locais e patriarcais).

Por conta disso, os soviéticos decidiram não chamar os uighurs de "turcos", uma designação abrangente e até pejorativa para os povos da Ásia Central. A retomada do termo uighur, contudo, não chegou na China.
A Revolução de 1911 incluiu os "hui" dentro da nacionalidade chinesa e confirmou uma máxima existente até hoje: a identidade nacional chinesa não tem um correspondente étnico, mas vários. Entre eles, os uighurs.
2c) Um detalhe importante: um dos maiores defensores da independência uighur nos anos 1940 foi...Joseph Stalin. Entre 1933 e 1934, e depois entre 1944 e 1949, a URSS apoiou o levante da chamada República Oriental do Turquistão, contra o domínio dos senhores da guerra de Xinjiang.
3) Como dá para ver, é tudo muito rocambolesco. E disso decorre o erro de quem compra acriticamente a versão ocidental de que a opressão chinesa sobre Xinjiang é motivada por "racismo", equalizando a China com o Ocidente - -e ignorando a racialização dos chineses no Ocidente.
Racismo é uma categoria historicamente ocidental e, ao ser transposta para fora do Ocidente, precisa ser reinterpretada fora do contexto.

Uma boa ponte para entender isso são as crítica de Mao Zedong ao que ele chama de "chauvinismo Han": marxists.org/reference/arch…
Chauvinismo, mas não racismo. Por que? Porque Mao compreendia, como boa parte dos chineses ainda hoje, que a designação étnica "Han" se resume muito mais pela cultura compartilhada do que por qualquer diferença fenotípica - diferente do Ocidente.
A falta de contextualização gera esses problemas de leitura. Não tem nenhuma menção sobre a recente ZEE em Xinjiang, nada sobre a revolta de Dungan e nada sobre o que significa ser "Han" na China.
chinaurbandevelopment.com/kashgar-new-se…
Tampouco discute como uighures passaram a antagonizar com os "Hui" de Xinjiang desde que o TIP passou a atuar na região, inclusive perseguindo qualquer muçulmano 'não-uighur'. E esse não é um dado secundário...

time.com/3099950/china-…
Mas falei demais aqui e já tinha tocado em muitos desses pontos aqui, nesse fio, que retomo de novo:

É isso. Bebam água e cuidado com propaganda disfarçada de pseudo-erudição. 😉
*Ancestrais, não, descendentes. Falha minha.
PS: Por conta de fios como esse que eu acabo sendo chamado de maoista, mas não ligo muito, só acho graça.

Relativizar e questionar a propaganda ocidental sobre a China não me bota no colo do Xi Jinping, não, viu?😬
PS2: "Ah, mas você não refutou as violações aos direitos humanos dos uighures".

Não. Na verdade, considerando a Guerra ao Terror, todos os países do Conselho de Segurança da ONU passaram a violar abertamente os direitos humanos de grupos que eles considerem "terroristas".
Que algumas pessoas só pensem na China - quando poderiam também incluir EUA, Inglaterra, França ou Rússia nessa história - é bastante sintomático.
PS3: Volto a insistir que reconhecer as violações de direitos humanos chinesas não implica em aderir a um discurso falsificador sobre racismo na China e que tem como propósito meramente legitimar a sinofobia.
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