Não sendo politólogo, suspeito que há algo para se dizer sobre se André Ventura será o nosso Geert Wilders. Eis porquê: /1
1) Tal como Wilders, Ventura começa a carreira política num grande partido de centro-direita: Wilders no Partido Popular para a Liberdade e Democracia (VVD); Ventura no PSD.
2) Lá, ambos são promovidos por figuras de topo do partido (Bolkestein e Passos Coelho) /2
3) Em retrospetiva, compreende-se em ambos os partidos que essa promoção foi um erro de discernimento.
4) Como Wilders, Ventura apercebe-se ainda dentro do partido original que há um nicho eleitoral por explorar na xenofobia (Wilders contra muçulmanos, Ventura contra ciganos)/3
5) Para explorar esse nicho, tanto Wilders como Ventura formam partidos completamente unipessoais. O Partido da Liberdade (PVV) de Wilders, LITERALMENTE, tem um único membro - Wilders. Ventura até agora mostra-se incapaz de passar a bola a alguém dentro do seu movimento. /4
6)À medida que o novo partido ganha visibilidade, o velho partido inicialmente distanciar-se-á dele, formando um cordão sanitário. Que se revelará frágil. Porque o VVD acabou por ter de precisar do apoio parlamentar de Wilders. E Rio prepara-se para normalizar isso com Ventura./5
SE o paralelo tiver algum valor preditivo, o PSD começará a ficar refém dos humores do Chega enquanto mantiver a ilusão que é um partido com que pode cooperar. Como Wilders o fez, Ventura é um populista que lançará fogo a uma aliança para ganhos eleitorais fáceis no curto prazo/6
Quando finalmente essa cooperação entre velho e novo partido colapsar aparatosamente, o primeiro tentará em vão recuperar uma franja de eleitores que fugiu para o segundo. Mas isso só significará correr atrás da agenda dos populistas, permitindo-lhes definir os termos do debate/7
ERRATA: descrevi a postura de Ventura contra ciganos como xenofobia, o que apesar de ser uma caraterização comum está errado, porque os ciganos portugueses não são estrangeiros, mas portugueses.

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