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Eu tendo estudar sobre a Coreia do Norte, juro. Tento ter boa vontade, dentro do possível.

Mas não aguento análises que comparam Coreia do Norte com Israel, Coreia do Sul, EUA, Tailândia ou qualquer outro país abertamente capitalista.
Eu entendo que dependendo do público, pode ser um recurso retórico válido.

Mas em termos analíticos, história comparativa exige mais rigor.

E em termos políticos, como socialista, eu quero é comparar a Coreia do Norte com outras experiências socialistas!
Por que a gente não tem o mesmo grau de militarização, defendido no socialismo juche, no Vietnã, em Cuba, ou mesmo na China? Esses países foram menos agredidos pelas potências capitalistas?
Por que o socialismo coreano deu tanta ênfase a continuidade a família de Kim Il-Sung? Por que outras experiências socialistas não viram a mesma transferência de capital político de pai para filho (e depois, de filho para neto)?
Aliás, a relação da Coreia do Norte com o bloco socialista é digna de nota. Kim depurou várias alas do comitê central nos anos 50 e 60, inclusive uma ala pró-soviética. E Kim era odiado pelas Guardas Vermelhas na Revolução Cultural chinesa.
Eu não tô pedindo para abandonarem a revolução coreana. Entre 1945 até 1956, pelo menos, ela foi impressionante. Mas de 56 em diante, a revolução deu lugar a uma outra noção de revolução, socialismo e marxismo.
Tenho pavor desse papo de que os "traços coreanos" desvirtuaram/caracterizaram o socialismo no país.

Esse costuma ser o argumento de parte das relações internacionais americanas sobre o autoritarismo na URSS: joga tudo na conta do czarismo e do caráter "russo".
Pra mim, isso cheira a um tipo de orientalismo, que congela traços culturais ao longo do tempo e pressupõe sua estabilidade, independente dos regimes políticos, das transformações econômicas, ou até do papel do indivíduo na história (eu curto Plekhanov, lamento).
"Puxa, mas você vai jogar fora a história de resistência anti-imperialista norte-coreana".

Olha, vou citar um "derrotado" da história então:

"La historia es nuestra y la hace los pueblos".

Quem resiste é o povo. A esse, o meu apoio incondicional.
E como o Songun norte-coreano pressupõe "militares primeiro" - e não "povo primeiro", acho mais frutífero entender a Coreia Popular.

Mas endossar o regime que defende essa bandeira? Aí, não. Lamento, mas não.
PS: sempre lembro de um grande amigo, já falecido, trotskista ferrenho, mas entusiasta da história da URSS na 2a guerra, o Arturzão. Pra ele, a resistência heróica contra o nazismo era do povo soviético. E ninguém poderia tirar isso deles.

Nem Stalin.

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16 Sep
"Puxa, você é contra abrir as escolas, quer que pobre se foda"

Não. Aliás aqui tá um bom quadro sobre como devemos pensar o protocolo (que o @ananias_1979 gentilmente me marcou). Tá ali.

A gente tem esses dados?
Por exemplo, quantos casos novos de COVID-19 (por 100.000 pessoas) a gente teve nos últimos 14 dias?

Quantos testes deram positivo nos últimos 14 dias? Tem teste o suficiente para fazer essa contagem?
As escolas precisam implementar as 5 estratégias ali dispostas. Alguma está garantida? Há programas de secretarias da educação e MEC para garantir sua aplicação?
Read 13 tweets
15 Sep
Eu sei que ninguém aguenta mais esse papo de Coreia do Norte, mas...não gosto de ficar sem responder. Depois dessa, acho até que vou tirar uma folga do Twitter.

É uma resposta ao @_makavelijones , que procurou debater algumas das minhas inquietações sobre o tema.
Então, assim, se você não curte esse debate, não curte o Jones, ou não me curte, fica aí o alerta. Esse fio vai ficar looooongo...talvez seja melhor me silenciar. Me "liga" de novo daqui uns 7 dias (se quiser, claro).
Bom, vamos lá:

1) Sobre a guerra: reconheço que uma guerra intermitente, de 1950 até 2020, não é pouca coisa. O mais próximo disso talvez seja o Vietnã, que concebe um estado de guerra permanente entre 1945 e 1991 (e os adversários mudaram, o estilo da guerra mudou, etc...
Read 43 tweets
5 Sep
Então o pessoal da "Economia 101" descobriu meu fio sobre estabilidade - e ficaram "maguary" porque afirmei que tirar a estabilidade não vai aumentar a produtividade.
Bom, o @grisagregorio já falou isso em outro momento, então talvez eu me repita aqui. Mas educar os "lacronomistas" é sempre importante.

Além disso, como falei no fio, a estabilidade do setor privado foi uma criação da CLT, em plena Segunda Guerra Mundial.

Não faz sentido nenhum acreditar que Vargas criou uma medida para reduzir a produtividade da indústria brasileira em plena "Batalha da Produção".
Read 9 tweets
4 Sep
Cês sabem por que a Folha (e também o Globo, o Estadão, o pessoal do "dízimo cívico") odeia a ideia de estabilidade do funcionalismo público?

Segue esse fiozinho:
Pra entender isso, a gente precisa voltar no tempo. Sim, o desmanche dos serviços públicos é a meta do neoliberalismo.

Mas eu acredito que podemos voltar para 1943.

Para a promulgação da CLT.
Segundo o seu artigo 492, todo trabalhador que ficasse dez anos na mesma empresa adquiria automaticamente a estabilidade, a chamada "estabilidade decenal".

Havia um princípio lógico aqui: se durante dez anos o sujeito foi um bom trabalhador e a empresa prosperou com ele,...
Read 23 tweets
2 Sep
Tô aqui pensando e olha, é uma doideira, mas...e se a gente inverter os pólos e pensar que:

Não é a fragmentação da esquerda que faz com que Bolsonaro se eleja, mas...

...que é justamente porque Bolsonaros são eleitos que as esquerdas se fragmentam.

Que tal?
Ou, para colocar de outra forma, são as nossas derrotas que nos fraturam e não as nossas fraturas que causam derrotas.

A esquerda já tinha suas divisões antes do capitão esgoto ganhar em 2018. Estávamos amargando derrotas, mesmo tendo vitórias eleitorais importantes.
Para ficar num exemplo: 2015 foi um ano de incontáveis derrotas com Eduardo Cunha na câmara. Nem preciso falar dos anos seguintes. As esquerdas se uniram e se mobilizaram em muitas dessas derrotas, mas foi ficando pesado.
Read 20 tweets
30 Aug
Tava pensando nesse papo de que assinar um dos três jornalões (ou os três) é "dízimo cívico" para manter a democracia operando.

Desculpem o meu francês, mas...meu cu.

Por que?
Por isso...
Também por isso...
Read 13 tweets

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