O grande historiador inglês Lawrence Stone uma vez escreveu que processos importantes são multicausais, e certamente foi o caso da abolição. É politicamente interessante para alguns entender a abolição como resultado do cristianismo e do Iluminismo, mas é mais complexo que isso👇
O texto acima é um resumo disso no meu próximo livro.
1) O cristianismo era a gramática através da qual as pessoas expressavam sua visão de mundo, então era usado para tudo, tanto pelos radicais defendendo a transformação social quanto pelos conservadores que queriam preservá-la.
2) Então o cristianismo dissidente pôde ser usado para criticar a escravidão, pelo menos desde o século XVII. A tendência dominante foi, porém, sua legitimação, aqui como no mundo anglo-americano. Vide os trabalhos de @historianess, @ktgerbs e Zeron.
3) A mesma coisa continua até o século XIX, só que de forma mais polarizada. Havia cristãos abolicionistas (geralmente de denominações não-dominantes), mas também pró-escravistas, no Reino Unido, e ainda mais nos EUA.
tandfonline.com/doi/abs/10.108…
Conclusão: o cristianismo foi importante para a abolição, mas também para a escravização! O islamismo também podia ser reinterpretado para a crítica à escravidão (Malês, Salvador, 1835), assim como a religiosidade centro-africana (Campinas, 1832).
A questão também é complexa no que se refere ao Iluminismo. Havia pensadores críticos à escravidão e mesmo ao racismo, mas também havia aqueles que lançaram as bases para um racismo mais sistemático, baseado em fatores biológicos e não religiosos. Então o legado foi ambíguo!
(As páginas são da Dorinda Outram).
Podemos dizer que o abolicionismo foi impulsionado PRINCIPALMENTE por ideias cristãs e iluministas?
1) Não, porque nenhum dos dois era monolítico, sendo adaptável aos interesses de quem os utilizava.
2) Não, porque ideias não movem a história.
Isto é, ideias não são irrelevantes, mas se inserem em contextos políticos, econômicos e sociais. O abolicionismo do cristianismo dissidente esteve ligado a uma série de fatores:
1) É possível que o avanço do capitalismo tenha gradualmente deslegitimado a coerção física (Eltis)
1b) Principalmente para trabalhadores que desenvolviam empatia para com os sofrimentos dos africanos escravizados em razão de suas próprias atribulações no início da Revolução Industrial.
2) O primeiro movimento abolicionista britânico fracassou. Nos mesmos anos, veio a revolta de Saint-Domingue em 1791: a massa de escravizados analfabeta e largamente africana não precisou do cristianismo ou dos jacobinismo (ao qual tinham pouco acesso) para valorizar a liberdade.
2b) As ideias revolucionárias circulavam em Saint-Domingue e foram apropriadas por brancos e livres de cor, mas é muito difícil encontrar seus ecos entre os escravizados, que teriam dificuldade de acessá-las. A religiosidade africana pode ter tido um peso maior, mas sem exagero.
2c) No final das contas, a experiência de 450 mil pessoas escravizadas, 300 mil delas traficadas da África, era suficiente para que elas valorizassem a liberdade! Os rebeldes no primeiro par de anos não tinha qualquer amor pela Revolução Francesa, aliando-se aos espanhóis.
2d) É exatamente como uma medida desesperada para atrair os revolucionários negros que os comissários franceses decretam a abolição em 1793 - e Toussaint e companhia passam para o lado deles porque é isso que querem! Os jacobinos decretam a abolição à reboque no ano seguinte.
2e) Aí sim há uma apropriação do discurso revolucionário, mas novamente como uma gramática, dentro dos objetivos dos próprios revolucionários, que é obter a liberdade (e, no caso dos líderes, manter o poder). Então, enfim, a Revolução Haitiana pouco deve ao legado ocidental.
3) A abolição britânica ganha força já impactada pela Revolução Haitiana, e ligada também à perda de importância econômica das plantations caribenhas para uma economia inglesa mais diversificada com a Revolução Industrial.
4) As ideias revolucionárias ajudam a impulsionar a abolição gradual em regiões das Américas em que a escravidão é menos importante, em grande medida por causa da participação negra nas guerras de independência.
5) A Grã-Bretanha adota uma política antinegreira para atender os produtores insatisfeitos das suas ilhas caribenhas e porque ela cumpria sua função de afirmar a hegemonia moral e política, ampliando o domínio sobre as rotas comerciais e lhe permitindo atuar como polícia do mundo
Já ficou muito grande, então vou só reforçar o ponto central: a posição predominante na historiografia não é de que o cristianismo e o Iluminismo foram os fatores centrais para a abolição. Inclusive legitimaram também a escravidão, e isso pelo menos até a Guerra Civil Americana.
Houve outros fatores econômicos, políticos e sociais num processo complexo, e em minha opinião eles têm prioridade. A luta social sempre teve um papel central. “Power concedes nothing without a demand” (Douglass) e isso foi verdade em todas as abolições. blackpast.org/african-americ…
E, claro, formas de trabalho compulsório continuaram nas colônias europeias na África e na Ásia até o século XX, sendo o racismo um elemento central do imperialismo europeu, com justificativas frequentemente cristãs e de base iluminista. Ideias são reinterpretadas a todo tempo!
Isso não significa que sinto “culpa pela minha história”, @JoelPinheiro85. O que faço é tentar entender o passado para iluminar o presente, e isso implica reconhecer a complexidade do passado e o papel central da luta para o avanço social (e isso, claro, é ideológico também). FIM
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O primeiro fio do debate está aqui. Tem muitos outros nas respostas, ficou caótico mesmo. Novamente, peço desculpas aos que não consegui responder, foram replies demais.

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16 Sep
@jcaetanoleite @historianess @ktgerbs @romulopredes Certamente dá pra falar em abolicionismos.
1) O Haiti afeta de duas formas. Por um lado, bota terror no coração dos senhores. Por outro, estimula revoltas. De ambas as formas, tensiona a escravidão.
redalyc.org/pdf/1670/16701…
@jcaetanoleite @historianess @ktgerbs @romulopredes 2) O abolicionismo nunca veio de cima, mas sim foi impulsionado por movimentos populares e interclassistas com intensa participação negra, que forçou os grupos dominantes a fazer algo. Como citei num Tweet, “Power concedes nothing without a demand”, disse Douglass.
@jcaetanoleite @historianess @ktgerbs @romulopredes A abolição no México foi feita por um presidente afro-indígena (depois fuzilado) e em todas as repúblicas hispano-americanas dependeu do apoio negro aos liberais; na Grã-Bretanha, a “Guerra Batista” dos escravizados em 1831-2 da Jamaica foi essencial.
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15 Sep
Não, o crime do passado é ter sido criminoso mesmo, @JoelPinheiro85 - pelos nossos padrões, é verdade, mas frequentemente pelos deles também.
www1.folha.uol.com.br/colunas/joel-p…
Não tenho opinião sobre a mudança de nome da ex-torre David Hume, mas também não entendo o pânico moral. Ninguém está propondo queimar os seus livros ou deixar de estudá-lo.
Mas só escrevi esse minifio por causa da ignorância (muito comum) do último parágrafo: @JoelPinheiro85, o Haiti aboliu a escravidão e condenou o racismo primeiro, graças à ação dos escravizados (e não do Hume ou do Smith), antes do Reino Unido sequer ter abolido o tráfico.
Read 9 tweets
26 Jul
Eu leio e cito o trabalho do @CEClynch, e agradeço o tempo gasto em comentar nosso artigo. Pena, porém, que ele parece não tê-lo lido. Não vale a pena escrever uma tréplica, mas vou fazer apontamentos sobre o Império, deixando as considerações metodológicas para o @phpacha.
Sob o disfarce de um “comentário”, Lynch nos critica por assumirmos uma visão plebiscitária: Império x República. O curioso, porém, é que não fazemos um único elogio à República: chegamos mesmo a mencionar seus fracassos no texto como uma explicação para o apelo da monarquia.
Já que o comentário não é ao nosso texto, vamos aos equívocos de Lynch. Ele começa com uma “incrível salada” para poupar o Império: recua para a Colônia e mistura bandeirantes (cuja mitologia só foi cristalizada no séc. XX) e senhores de engenho (constituintes de outra mitologia)
Read 13 tweets
19 Jul
Não deveria responder em respeito à regra dos dois desvios (@lmonasterio), mas...
1) Não dizemos que a monarquia foi a culpada pela escravidão, mas que foi um regime que viveu em simbiose com ela
2) Não passamos pano para os problemas atuais, explicitamente reconhecidos no texto
3a) 1822-1850 foi o auge do tráfico transatlântico para o Brasil: quase 1.440.000 africanos escravizados foram embarcados para cá, mais que em qualquer outro período equivalente.
Fonte: slavevoyages.org.
3b) A 1a tentativa de acabar com o tráfico atlântico foi em larga medida resultado da pressão britânica, que culminou no tratado de 1827. Entretanto, não foram tomadas medidas efetivas, de modo que após um período de declínio o comércio se recuperou para abastecer a cafeicultura.
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7 Jul
O @cenevivaricardo me fez ficar pensando na bibliografia do curso sobre História da Desigualdade (séculos XIV-XXI), então vamos procrastinar um pouco em vez de escrever.
Eu começaria com grandes interpretações: uma introdução com @WalterScheidel (introdução e cap. 10), @PikettyLeMonde (introdução), talvez @BrankoMilan (cap. 3) e @DrDaronAcemoglu & Robinson (caps. 3-4).
Depois, Europa Moderna com o grande Braudel, pareado com o Piketty (cap. 2). Eu gostaria de passar o @guido_alfani, mas acho que ele não tem nada em português ou espanhol. Ele e o Jaime Reis ficariam como leituras complementares.
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9 Jun
People all over the world are justly horrified by police killings in the US which desproportionately target blacks. The situation is, however, much worse in Brazil: here, police killed 5,800 people last year, about 3/4 of them black. Why doesn’t it garner as much media attention?
Will answer this later, but first the numbers: the US police killing rate is 3 per million; here in Brazil it’s 27.6. In Rio de Janeiro, the rate is 100 per million! Even accounting for much higher homicide rates here, it is an astonishing difference.
In both countries, police institutions were created in the nineteenth-century and molded by the need to control the enslaved and free people of color. There were many differences, of course, but extreme and persistent inequality is essential to understand these institutions.
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