Candomblé não é Religião!

Hoje nossa jornada virá para pensarmos a exclamação acima, vamos entender que olhar o candomblé enquanto religião é negligenciar uma vasta abrangência desse ethos. Para isso faremos uma longa e prometo que interessante jornada em busca de entendimento
O primeiro conceito que precisamos entender é a própria ideia de Religião, conceito que surge no século XIII na Europa, vem para denominar o conjunto de crenças em um poder ou personagem divino. A própria etimologia da palavra vem do verbo em latim Religare que significa
religar, reconectar ou ainda há correntes que acreditam que a palavra vem do verbo Relegere que traz a ideia de retomar o que estava perdido. A primeira análise sobre esses conceitos vamos entender que eles não dão conta de abranger o Candomblé, e vamos entender isso ao longo.
Eu diria que o conceito de Religião, só da conta de explicar as religiões Abraânicas ( Judaísmo, Cristianismo e Islamismo) Outro conceito importante de entendermos aqui e que usarei bastante é o de Ethos, esse significa conjunto dos costumes e hábitos fundamentais, no âmbito do
comportamento e cultura das características de um determinado grupo ou povo. Bom, agora já conseguimos imergir no tema central desse bate papo. O próximo passo é entendermos o que é o Candomblé de fato. Com a chegada dos Fons e dos Iorubás a partir de 1830 em sua maioria para
região de Salvador, temos 2 importantes fenômenos que antes não eram possíveis, o primeiro apontamento é a grande quantidade de negros dos mesmos grupos étnicos no mesmo espaço. O segundo apontamento é que muitos desses negros ficaram na condição de escravos de ganho e domésticos
isso possibilitou uma articulação que falaremos mais a frente. Aqui nesse momento vamos focar na questão, que esses negros ao serem sequestrados de sua terra natal, chegavam aqui sem qualquer referência de sua cultura, e nesse momento esses negros se agrupam e criam estruturas
que remontam todo o ethos de sua terra natal, nesse momento surge a estrutura do terreiro, que remonta de forma social, cultural, filosófica e litúrgica as suas vivências e costumes da terra mãe. Foi esse cenário que garantiu também que os Iorubás e Fons sobressaíssem mais que
os Bantos e outros grupos que chegaram aqui antes. Seguindo nosso papo, por quê então o Candomblé não é uma religião? Pois, o candomblé não nos conecta a Deus, ele não nos possibilita reparar uma prática que tenha sido esquecida. E para termos esse entendimento precisamos de uma
vez por todas compreender que o candomblé é um sistema filosófico, cultural e litúrgico. E ao adentramos esse universo precisamos abandonar a visão colonial branca de religiosidade. Primeiro ponto nossa relação com os Irunmolés é direta e constante.
Precisamos entender que o candomblé está para além de uma base ritualística, ele é um sistema filosófico que nos convida a experimentar um outro modelo cultural, desde o entendimento enquanto indivíduo, a formas de se relacionar com o espaço social. O candomblé nos apresenta
uma alternativa a sociedade ocidental e ao modelo estabelecido. E no centro dessa forma como ponto de convergência está o culto a Orisa. A sociedade de terreiro não é um templo religioso, é um espaço de resistência que remonta organização e valores ancestrais, formas de conduta
e convivência. É um espaço onde se produz ou pelo menos deveria em sua totalidade produzir política de sobrevivência e luta. Dessa forma não é possível pensar esse espaço apenas como um local de adoração. pois até a palavra adoração não se enquadraria a nossa forma de culto.
Dessa maneira, o candomblé estaria mais para um Ethos, uma prática de vida, um filosofia que nos direciona a um viver sustentável e humanizado que passa pelo reconhecimento de uma ancestralidade e liturgias.

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